Um amigo de quatro patas

A amizade é um sentimento muito especial. Exige confiança, partilha, companheirismo. Há quem tenha muitos amigos e quem seja deveras seletivo, reservando a classificação só para alguns. E há aqueles que estendem o sentimento além dos humanos, mantendo com o animal estimação uma preenchida relação efetuosa.

Foi o que aconteceu a Tessa de Loo, escritora holandesa há anos radicada no Algarve. A sua amizade com um cão de raça “épagneul” deu origem ao divertido “Daan, um cão português com patinhas de veludo”.

Confessemos que a leitura de um livro sobre um cão não desperta, à partida, grandes expetativas. Com tantos temas interessantes, o que importam as peripécias de um canino e da sua dona? Puro engano. Tessa de Loo demonstra toda a sua mestria e domínio literário ao pegar num assunto tão árido e através de uma escrita consistente transformá-lo numa obra de duas centenas de páginas repletas de interesse. 
Uma história de delicada intimidade e cumplicidade que leva o leitor a acompanhar com deleite os caminhos nem sempre fáceis da amizade.
Daan entra na vida da escritora era ainda um cachorro de um ano, abandonado e vítima de maus tratos. A relação inicia-se complicada, com noites mal dormidas ao som dos latidos do cão. Mas depressa evolui e o animal torna-se parte integrante da vida de Loo. Juntos exploram o espaço circundante da casa e a serra algarvia (onde Daan se perde, um dos momentos mais dramáticos da vida de ambos); descobrem a alma dos portugueses e a sua contida maneira de ser e, sobretudo, descobrem-se um ao outro, nas pequenas manias e nos profundos traços de personalidade.
O bicho passa a acompanhar a escritora em todos os seus passos, como um membro da família mais próxima: viaja de avião até à Holanda, para as apresentações dos livros; vai com ela a casa dos amigos, mesmo daqueles que vivem rodeados de gatos; é colocado às escondidas nos quartos das Pousadas de Portugal, onde é expressamente proibido entrar com animais.
Daan é um cão com caraterísticas particulares: tem medo de barulhos fortes e de água (apenas entra nela até aos “cotovelos”) e adora caçar mosquitos, que não é o que se espera de um exemplar de uma raça especialmente vocacionada para a caça.
Daan vai envelhecendo, fica surdo, depois quase cego e por fim morre. Loo enterra-o por baixo de uma figueira, mas mantém-no bem vivo através do livro, uma bonita e divertida homenagem à amizade.
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Tessa de Loo
Daan, um cão português com patinhas de veludo
Bertrand Editora, 13,30€

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(C) Vieira da Silva

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