Quando tudo parece normal

Portugal descobriu recentemente os escritores nórdicos, sobretudo os que se dedicam ao género policial, e parece ter gostado.  A publicação da maioria das obras é saudada com entusiasmo, nem sempre se antevendo nesta preferência a distinção entre as melhores e as menos conseguidas.
Mas a verdade é que, de maneira geral, os escritores nórdicos trouxeram uma lufada de ar fresco aos policiais, quer através de uma escrita contida, quer pela descrição de ambientes, sociedades e características pessoais distintas das de outras paragens.
“Ninguém Quis Saber”, de Mari Jungstedt, insere-se nesse género. A autora é uma jornalista sueca que fez a sua estreia literária em 2006 e rapidamente ganhou fama, sobretudo com a série protagonizada pelo inspector Anders Knutas, de que este é o segundo romance (o primeiro é “Ninguém Viu”). Dois dos títulos da série foram adaptados ao cinema.
A trama desenrola-se em Gotland, a maior ilha da Suécia e do mal Báltico, onde, com pouco tempo de intervalo, é encontrado um homem brutalmente assassinado e desaparece uma miúda de 14 anos. À partida nada parece ligar estes dois seres e menos ainda o seu destino trágico. Em comum têm apenas a solidão e uma vida quase à margem da sociedade.
Henry Dahlström é um fotógrafo profissional destruído pelo alcoolismo, que embora não tenha deixado de fotografar é com pequenos biscates que sustenta a vida… e os vícios. Depois de ter ganho uma pequena fortuna nas apostas em corridas de cavalos, passa a noite numa folia de álcool com os amigos de vício. Só volta a saber-se dele quando o corpo é encontrado na sua pequena câmara escura.
Fanny, de 14 anos, é uma rapariga solitária, sem amigos conhecidos. Depois da escola trata de cavalos num estábulo, passeia o cão e tenta tomar conta da mãe, uma mulher cada vez mais dependente da bebida e menos atenta às necessidades da filha. Um dia Fanny desaparece, deixando como único sinal da sua existência a bicicleta encostada à berma de uma rua.
Estes dois casos aparentemente distintos são entregues ao inspector Anders Knutas, que conduz uma investigação onde nada parece o que é e as pistas vão dar a becos sem saída até à reviravolta final.
Junta-se-lhe Johan Berg, um jornalista desejoso de uma história capaz de merecer ser notícia nacional passada em Gotland, onde vive a mulher por quem está apaixonado… e que é casada.
É neste ambiente social explosivo por baixo de uma capa de normalidade – não faltam os dramas familiares, o alcoolismo, a negligência infantil, a pedofilia e a morte – que Mari Jungstedt desenvolve uma trama bem urdida, que se lê de um fôlego.
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Mari Jungstedt
Ninguém Quis Saber
Contraponto, 16,60€

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(C) Vieira da Silva

Diga não ao cruel comércio da morte.