As idades do trabalho


A idade, além de uma realidade fisiológica, é cada vez mais uma convenção social – e sobretudo laboral. Da idade pode depender o emprego ou o desemprego, o tipo de vínculo laboral, a formação, a reforma. 
“A relação entre idade e atividade carrega as marcas profundas de uma sociedade que utiliza o trabalho para marcar temporalidades e a idade para marcar o trabalho ou, em particular, o acesso ao emprego regulado de que a dinâmica da população ativa constitui indicador fiável. Porém, numa altura de desregulação, em que o valor do trabalho passado decai e o valor do trabalho futuro se torna muito incerto, a fase de atividade deverá ser redesenhada”, reflete Licínio Manuel Vicente Tomás, no livro “Conjugação dos Tempos de Vida – Idade, trabalho e emprego”.
O livro resulta da tese de Doutoramento em Ciências Sociais, na especialidade de Sociologia, do docente da Universidade dos Açores e investigador responsável pelo eixo de pesquisa sobre Gerações e Ciclo de Vida no CES-UA.
Como explica o autor na nota prévia, a obra tem como objetivo central equacionar a relação entre idade e atividade em todo o espectro das idades, mas com especial incidência a partir da meia-idade. 
Ou seja, está em causa a análise da dinâmica do emprego associada à variável idade, pelo que o autor desenvolve os conceitos de idade e de envelhecimento, distintos nas consequências sobre a atividade. Senão vejamos: em processos de reestruturação, as empresas “livram-se” de trabalhadores ainda em idade ativa. Essas pessoas são “novas” ou pertencem à terceira idade? Para a Segurança Social são novas e por isso 
não podem aceder à reforma; para os empregadores são “velhas”, excluindo-as do acesso ao emprego.
Lício Tomás examina estas questões de forma aprofundada, analisando a diferenciação geracional face ao emprego e estabelecendo como ponto de referências os 45 anos, classificando esses trabalhadores como “ativos mais velhos”, profundamente atingidos pelo desemprego, que pode ser considerado um indicador de centrifugação ativa. 
“A realidade dos ‘novos velhos’ denuncia o afastamento de condições razoáveis de emprego, em indivíduos absolutamente aptos para o trabalho e apanhados nas relações ambíguas entre os limites temporais e institucionais do direito social ao descanso perante uma difícil recaptação pela estrutura económica de emprego.”
Um sinal da modernidade, que interrompeu o ciclo de vida instituído durante décadas, marcado por balizas temporais como as idades de entrada e de saída do trabalho. 
“São o sinete laboral da nova arquitetura do tempo de vida. O envelhecimento é um processo inevitável, mas as formas de envelhecer não o são”, frisa o sociólogo.
O valor da experiência profissional associado à idade é hoje amplamente questionado não só no mercado de trabalho como pela própria sociedade, fazendo pairar o espetro de uma “guerra” geracional de que alguns políticos não estão isentos de responsabilidades. “A competição em redor do emprego assumirá contornos de feição geracional que outros tempos anteriores não conheceram”, advoga o sociólogo.
Nesse âmbito, o autor analisa as representações sociais da idade, marcada por elementos depreciativos como “experiência desatualizada” ou “cansaço cumulativo”. 
“Enquanto no passado o trabalho necessitou e, por isso, valorizou a experiência dos anos, hoje há indícios de regressão ou de desfundamentação do critério de antiguidade e do valor da idade mais avançada”, lê-se no livro.
Os processos de envelhecimento socioprofissionais são assim condicionados por constrangimentos contextuais, nomeadamente as políticas empresariais de recrutamento, mas também pelas políticas de emprego, ambas influenciando a empregabilidade dos ativos mais velhos. “Parece irreversível a tendência de 
centrifugação etária perante cenários de maior rotatividade laboral conjugada com políticas de gestão ad hoc das idades ou uma total ausência de preocupações a este nível”, salienta o autor. 
Lícinio Tomás aborda ainda a questão do envelhecimento fisiológico e a sua relação com a saúde e o trabalho, bem como a perceção de envelhecimento dos próprios indivíduos. Talvez por isso, um dos capítulos mais interessantes do livro é o quinto, onde é exposto o trabalho empírico da investigação através da análise de percursos de vida de trabalhadores de ambos os géneros, da entrada na vida ativa à saída do 
mercado de trabalho. 
Este é um livro absolutamente atual, que certamente apoiará o leitor numa reflexão informada sobre esta problemática.
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Licínio Manuel Vicente Simões
Conjugação dos Tempos de Vida – Idade, trabalho e emprego
Editora Mundos Sociais, 11,30€

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