Ricardo Gil Soeiro | Bartlebys Reunidos



1 - O que representa, no contexto da sua obra, o livro Bartlebys Reunidos?
R – Trata-se do segundo volume de uma tetralogia que, neste momento, estou a escrever, intitulada Tetralogia de uma Poética Palimpséstica e que é constituída por quatro volumes (que assentam nos mesmos moldes formais): presentemente, estou a trabalhar no Volume III: Comércio com Fantasmas [Para uma Epistolografia Espectral] e no Volume IV: Anjos Necessários [Para uma Angelografia do Desejo]. O meu objectivo é reunir no futuro os quatro volumes num único livro que intitularei de “Palimpsesto”. É-me muito cara a ideia da escrita poética enquanto retraçar do traço, sublinhando as múltiplas camadas de que se faz um texto. No fundo, a ideia de uma tessitura poética fertilmente assombrada por um labirinto de outras escritas. E o que é a poesia senão esta riqueza de múltiplas vozes, múltiplas mãos? A escrita, dando conta da impossibilidade do apagamento absoluto, aponta para esse resto espectral cujo frémito ainda estremece.

2 - Qual a ideia que esteve na origem deste livro?
R – O livro baseia-se na figura criada por Herman Melville, no conto Bartleby, the scrivener (1853): o escrivão Bartleby que, a cada solicitação ou ordem, se limita a retorquir: “Preferiria não o fazer.” Visa, fundamentalmente, interrogar poeticamente a pulsão negativa e a atracção pelo nada, tal como esta se desenha no labirinto da literatura do Não (aqui inspirei-me no romance híbrido Bartleby & Compañia, da autoria do escritor catalão Enrique Vila-Matas). Imaginando múltiplos Bartlebys, cada poema encena a problemática da desistência literária, inspirando-se para o efeito em diversas obras de referência (na poesia, na filosofia, no teatro e na pintura) que espelham a renúncia da escrita. Daí o subtítulo que acompanha a obra: “Para Uma Ética da Impotência”. Creio que o livro ganha em ser lido à luz desta unidade conceptual, mas cada poema pode igualmente ser perspectivado individualmente: a minha esperança é a de que o leitor se sinta seduzido e tentado pela singularidade de diferentes vozes e pelos distintos tons que se sucedem. Essa rede polifónica parece-me decisiva, não só para quem lê, mas também para quem escreve: a convicção segundo a qual o sujeito escrevente, ao tomar a palavra poética, se heteronomiza, se torna Outro. É desta forma que procuro explicar o meu fascínio crescente pelas metamorfoses, pelos simulacros, pela “verdade das máscaras”, na formulação de Nietzsche. Interessa-me ameaçar a própria ideia de representação, transgredir a sua lógica mimética. Talvez assim se torne possível, parafraseando Victor Stoichita na sua magnífica obra O Efeito Pigmalião: Para uma Antropologia Histórica dos Simulacros, fazer explodir o texto, ferir o olhar. Esse é o objectivo impossível, mas profundamente necessário.

3 – Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R – Neste momento, estou a trabalhar na tetralogia, como referi. Mas estou também a terminar aquilo que designo por “Díptico sobre a Palavra Absoluta” (2013-2014) e que é constituído por dois livros, ligados entre si: Painel I: A rosa de Paracelso [poema longo] e Painel II: ‘Ultima Verba’. Tratado das Confidências [ficção]. Agrada-me muito esta ideia de séries ou de volumes que, valendo por si mesmos (quando considerados individualmente), ganham uma maior amplitude e riqueza formais, quando perspectivados em ligação uns com os outros. De resto, já havia feito algo semelhante aqui há alguns anos com as Partituras do Ofício (2011), constituído por dois livros: Ciclo I - Labor Inquieto [poesia] e Ciclo II - Constelações do Coração (seguido de Filosofia Portátil) [crónica autobiográfica seguida de série poética].
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Ricardo Gil Soeiro
Bartlebys Reunidos [Para uma Ética da Impotência]
Deriva Editores, 11,50€

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