Capitão Menezes Ferreira | João Ninguém, Soldado da Grande Guerra

David Castaño, investigador de temas da história contemporânea de Portugal e da história das Relações Internacionais, foi o organizador desta edição e do seu enquadramento histórico. Respondeu assim à nossa curiosidade sobre o autor e a sobre a obra:

1 – Quem foi o capitão Menezes Ferreira?
R- Menezes Ferreira foi um oficial do exército que, como muitos outros da sua geração, abraço o ideal republicano e chegou a participar no golpe militar que derrubou o regime monárquico nos dias 4 e 5 de Outubro de 1910. A sua carreira militar levou-o primeiro a Angola, tendo integrado a primeira força expedicionária enviada para esse território pouco depois de ter deflagrado o conflito mundial. Essa força, comandada por Alves Roçadas, tinha como principal objectivo garantir a inviolabilidade da fronteira sul, já que do outro lado se situava uma colónia alemã, o Sudoeste Africano, actual Namíbia. Os receios portugueses eram fundamentados e pouco depois forças militares dessa colónia entraram em Angola. Mais tarde, Menezes Ferreira fez parte dos primeiros grupos de oficiais do Corpo Expedicionário Português, enviados para França para combaterem na frente europeia. Além das suas qualidades como militar, comprovadas na sua folha de serviços, Menezes Ferreira tinha também qualidades artísticas, tendo passado para o papel vários desenhos sobre o quotidiano das forças portuguesas na frente europeia. 

2- Qual o interesse desta sua obra “João Ninguém-Soldado da Grande Guerra”?
R- Antes de mais deixe-me esclarecer que esta não é uma obra minha. Tive o prazer de ser convidado pela Bertrand para fazer uma introdução ao livro do capitão Menezes Ferreira e foi isso que procurei fazer. Além de um breve ensaio histórico sobre a participação portuguesa na Grande Guerra, pensei que seria também interessante incluir nessa introdução uma referência ao livro, que foi publicado pela primeira vez em 1921, e ao percurso do seu autor, o capitão Menezes Ferreira.
A mais-valia do livro está precisamente no facto ser um interessante retrato/relato da participação portuguesa na frente europeia. Apesar do tom humorístico, de ser dirigido a um público muito vasto, incluindo crianças, como afirma o seu autor, e do tom nacionalista, ele aborda vários temas que mais tarde viriam a ser analisados e debatidos pela historiografia nacional e internacional: a impreparação das tropas portuguesas; a descoberta de um mundo desconhecido para milhares de homens que nunca tinham saído das suas aldeias; os contactos estabelecidos entre as tropas expedicionárias e os habitantes das aldeias próximas da frente; os conflitos entre os soldados da frente e os oficiais da retaguarda; o problema dos reforços e da substituição das tropas; o baixo moral das tropas; o desastre de La Lys; etc… 

3- Não sendo um livro de história, como o podemos definir?
R- Trata-se essencialmente de um interessante registo sobre a participação de Portugal na Grande Guerra. Tem um pouco de diário e de memórias que dão ao leitor uma visão sobre a guerra, descrita por alguém que a presenciou e que consegue, através da escrita e das ilustrações, fazer com que, 100 anos depois, compreendamos melhor esse episódio que marca o início do sangrento século XX. É pois um excelente ponto de partida para todos aqueles que pretendem conhecer melhor este período da história contemporânea.
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Capitão Menezes Ferreira
João Ninguém, Soldado da Grande Guerra
(Notas e Enquadramento histórico de David Castaño)

Bertrand, 14,40€

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