André Freire | Para Lá da "Geringonça"

1-De que trata este seu livro "Para lá da 'Geringonça?"
R- Conforme documento abundantemente neste livro, as soluções governativas do tipo «governo de esquerdas», ou «governo de esquerda plural», como outros preferem chamar-lhe, tornaram-se relativamente comuns na Europa Ocidental depois da queda do Muro de Berlim, em 1989, e do colapso da União Soviética (URSS), em 1991. Em Portugal, porém, tal solução governativa (ao nível nacional) só chegou após as eleições legislativas de outubro de 2015, mais precisamente em 26 de novembro de 2015 (dia da tomada de posse do XXI Governo Constitucional), ou seja, cerca de vinte e seis anos depois da queda do Muro de Berlim. Portanto, a primeira questão se coloca, em Portugal, é a seguinte: porque é que, no nosso país, ao contrário de muitos outros países da Europa Ocidental, esta solução chegou tão tardiamente depois da queda do Muro de Berlim? E quais foram as causas desse atraso? E que fatores explicam a ocorrência desta solução governativa em finais de 2015? E, finalmente, que consequências terá para o funcionamento dos sistemas políticos democráticos a inclusão da esquerda radical na esfera governativa, quer em Portugal, quer na Europa? São estas as quatro questões fundamentais a que este livro procura dar resposta.

2- Somos mais conhecidos por importar ideias e modelos. Mas, com a "geringonça", estaremos a ser exportadores de um modelo?
R- Em certa medida, sim, há hoje um grande interesse dos mass media internacionais e da classe política europeia, sobretudo a mais alinhada à esquerda (socialistas/ sociais-democratas e esquerda radical) sobre a situação política portuguesa. Isso tem sido visível pela atenção que esses agentes têm dado à situação portuguesa, seja em artigos elogiosos e relevando bastante curiosidade, na imprensa internacional, seja em termos de visitas e de interesse geral de políticos europeus (de esquerdas) sobre o XXI governo constitucional português e a maioria que o suporta. Há três razões essenciais para isso. Por um lado, porque apesar de termos chegado atrasados à solução que eu chamo, e defino no livro, como «governo de esquerdas» (apesar de ser um governo minoritário do PS apoiado pelas esquerdas radicais no parlamento; o termo «esquerda radical» é aqui, e no livro, usado em sentido técnico, não pejorativo) somos hoje um caso pouco comum na europa ocidental. Segundo, porque por alianças de facto com a direita, ou por convergência ideológica e de políticas com o neoliberalismo, os socialistas/sociais-democratas vivem hoje uma grande e profunda crise na Europa, uma certa pasokização dos socialistas (em referência ao PASOK, Grego, que passou cerca de 40% do voto para cerca 4%-6%...), e uma nova política de alianças (com as esquerdas radicais) é vista como uma possível via de saída para tal crise… Finalmente, porque a solução portuguesa está funcionar relativamente bem, em termos económicos, em termos de cumprimentos das regras europeias, e em termos de satisfação dos cidadãos.

3- Como podemos enquadrar esta solução no quadro da ciência política e da realidade política nacional e europeia?
R- Como disse esta solução política era muito mais comum na Europa Ocidental nos anos que sucederam à queda do Muro de Berlim do que é hoje. Todavia, com a profunda crise dos partidos socialistas (explicada acima; em França, na Holanda, na Grécia, em Espanha, na Hungria, na Polónia, em Israel, etc.) e a ascensão dos populismos (no Ocidente), de direita e de esquerda, em boa medida devido à «neoliberalização dos socialistas», fruto da sua convergência ao centro, esta solução é vista como uma possível via de saída para superar o TINA (There Is No Alternative: «Não Há Alternativa», ao neoliberalismo…), e portanto para rumarmos a uma Europa mais social e mais democrática, e para ajudar a superar a profunda crise da social-democracia.
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André Freire
Para lá da “Geringonça”
Contraponto, 16,60€

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