Vergílio Alberto Vieira | Nunca Direi Quem Sou


1- O que representa, no contexto da sua obra, o livro “Nunca direi quem sou”?
R-Em tempos de “tanta guerra, tanto engano”, escrever já não é o verbo intransitivo fundador de utopias (e de outras eventualidades), próximas da vulgar retórica da sentimentalidade e da mediatização burlesca a que assistimos, mas parte dessa legitimação de todos os crimes que, de Pessoa a Genet, por exemplo, tenta contrariar a delapidação acelerada do que resta da ética do valor (moral, ou apenas mural) e estético a que a pornografia da insignificância steineriana roubou razão de ser. Ainda que alguma realidade crítica diga o contrário, eu não tenho “obra”; o que me proponho realizar é “ser obra”; vai daí, vou escrevendo (editando livros de poesia, ficção, teatro, diários, literatura de leitura infantil e juvenil) para evitar, como parodiava Fernando Assis Pacheco, o acidente vascular; se não cerebral, dizia ele; o literário, digo eu. Este livro (propõe-se/ propõe-me ser lido): é uma fuga (musicalmente falando) ao que sou; o que pretendo é falar ficcionalmente pelos outros - Chuang-tsu, Sapho, Epitecto, Borges, Pessoa, Vergílio Ferreira, Dinis Machado, Lispector, Cesariny, Herberto Helder - não para me procurar, mas para me encorajar a saber quem sou.

2- Qual a ideia que teve na origem deste livro?
R- Na sequência do que disse, fica a descoberto um belo lapalissade: como se tornou moeda corrente esquecer que: “Existe uma eterna repetição”, princípio nietzschiano filosoficamente caído em desgraça, a frivolidade actual não deixa margem para reflectir sobre cada acto (falhado) consentido, à luz das políticas torcionárias que governam o mundo, contribuindo para multiplicar a subida ao patíbulo da(s) sociedade(s) medíocre(s) ante o tribunal da memória. 
Esta série de retratações ficcionadas nasceu da inquietação que a idade (já provecta) foi acumulando, e para a qual não vislumbro resposta: “Que quer o homem, afinal, saber de si próprio?”

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R-Depois de preparar a edição da poesia anterior (1980-2015): Todo o trabalho toda a pena (2016), que inclui os inéditos: Halo y tangência e O inventor de rios, reescrevendo alguns livros (quase) na íntegra, dei-me a constatar que pouco mais tinha a dizer, e que, como nada se sabe sobre a imortalidade (de que serviria sabê-lo?), a ideia de futuro, à maneira da fúria da paixão na velhice, torna-se uma dança sem par (parecida com a do belo e da consolação, que fingem que dançam).
Se a ideia de escrever se presta a entrar na roda, e dá largas à lógica de competição desenfreada que por aí grassa (festivais, prémios, & outras badalações artísticas), o escriba abisma-se nesse vórtice de que não há retorno, vindo a dar razão ao (insepulto) Heidegger, quando profetizou que: "Quem não sabe pensar conta uma história.” Eu não tenho nada para contar. E não quero: pena minha, provavelmente, até só penso que penso. Por isso, vou escrevendo a pensar que a sabedoria popular é implacável: “Quem faz borrões que os leia.”
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Vergílio Alberto Vieira
Nunca Direi Quem Sou
Companhia das Ilhas, 11€

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