Fernando Cavaleiro Ângelo | Os Flechas: A Tropa Secreta da PIDE/DGS na Guerra de Angola


1-De que trata este seu livro «Os Flechas: A Tropa Secreta da PIDE/DGS na Guerra de Angola»?
R- Este meu livro destaca a importância que o grupo paramilitar “Flechas” teve na operacionalização de operações encobertas e clandestinas contra os três grupos insurgentes que lutavam pela independência de Angola, especialmente em território além-fronteiras da Zâmbia. Este grupo formado por elementos de um povo místico que habitava a parte Leste e Sueste de Angola, os Bosquímanos, foi criado pela PIDE/DGS, em 1967, com intuito de efectuar operações de vigilância, monitorização, recolha de informações e acções cinéticas, adoptando sempre uma postura discreta para evitar a exposição de Portugal ao escrutínio e condenação da Comunidade Internacional. O seu criador, o inspector da PIDE/DGS Óscar Cardoso, conseguiu congregar e adaptar algumas das experiências que outros países europeus tiveram nas suas antigas colónias na Ásia e África, concomitantemente com a exploração do sentimento colérico ancestral que os Bosquímanos sentiam pelos povos Bantos que guarneciam as fileiras dos grupos insurgentes. Esta tropa era secreta sob um ponto de vista dos métodos utilizados e da actividade que desempenhavam, pois nos círculos políticos, diplomáticos e militares portugueses era do conhecimento geral a existência dos Flechas. As inúmeras operações desenvolvidas pelos Flechas e relatas neste meu livro, muitas delas dignas de registo cinematográfico, trouxeram indubitavelmente uma vantagem considerável nas operações militares desenvolvidas pelas tropas portuguesas na guerra de Angola.

2-De acordo com a sua investigação, que papel tiveram os Flechas no desenrolar da guerra colonial em Angola?
R- A complexidade deste teatro de operações era, de sobremaneira, agravada pelo facto de Portugal combater simultaneamente em mais dois campos de batalha, na Guiné-Bissau e em Moçambique, que distavam a milhares de quilómetros da Metrópole. Outrossim, os parcos recursos financeiros e humanos que o nosso país dispunha para financiar este exigente esforço de guerra eram também factores que concorriam para o agravamento da situação. Em termos operacionais, as forças armadas portuguesas necessitavam de informações credíveis e secretas para poder contrariar o conjunto de limitações e constrangimentos impostos pela dimensão do teatro de operações e a falta de mancebos para as fileiras da tropa portuguesa. A PIDE/DGS optou, então, por criar uma tropa paramilitar na sua dependência directa, proporcionando-lhe, desta forma, uma maior flexibilidade e autonomia no que a actividades de recolha de informações diz respeito. As incursões dos Flechas para além da linha do inimigo, mormente nos acampamentos junto da fronteira Leste de Angola, tal como as operações encobertas e clandestinas no interior da Zâmbia, permitiam a apreensão de diversos documentos secretos, armamento, munições e interrogatórios aos insurgentes capturados. Este espólio capturado era posteriormente processado, analisado e cruzado com outras fontes de informações, quer de índole técnico como as provenientes dos informadores e agentes secretos infiltrados em outros países e nos grupos insurgentes, pelos agentes da PIDE/DGS em Angola. Os vários acontecimentos e episódios relatados neste livro permitem concluir que a mudança radical observada nos desenvolvimentos da guerra de Angola, mormente com a inversão da preponderância dos grupos insurgentes na região Leste, foi largamente impulsionado pelas informações secretas que os Flechas proporcionavam às tropas portuguesas. Os Flechas tiveram, assim, um papel preponderante na guerra de Angola, contribuindo, decisivamente, para o planeamento e execução de operações militares das tropas portuguesas contra os três principais grupos insurgentes, o MPLA, a UNITA e a FNLA. O efeito temoroso que o nome “Flechas” causava aos três grupos insurgentes, demonstrava claramente a importância deste grupo paramilitar da PIDE/DGS na guerra de Angola.

3-Conseguiu encontrar factos inéditos sobre a importância da acção desta organização paramilitar e sobre a sua ligação ao antigo regime?
R- Sim, sem dúvida. Neste livro existem factos inéditos sobre a importância dos Flechas, tanto ao nível de material recolhido em arquivo nacional, como através do testemunho do criador dos Flechas, o inspector Óscar Cardoso. O livro é amplamente baseado em fontes primárias, onde os testemunhos de Óscar Cardoso são corroborados pela vasta documentação existente nos diversos arquivos nacionais. Os relatos de fontes primárias norte-americanas e do chefe das informações da Rodésia, Keneth Flower, são elementos que comprovam, indubitavelmente, o sucesso deste grupo paramilitar da PIDE/DGS. Adicionalmente, em termos de metodologia comparativa, a Rodésia e a África do Sul utilizaram elementos Bosquímanos dos Flechas, depois da independência de Angola, nas lutas que travaram contra os seus grupos independentistas, com resultados bastante diferentes daqueles alcançados pelos portugueses. Da leitura das fontes primárias consultadas, pode-se constatar que alguns destes líderes das informações, nomeadamente o Keneth Flower, identificaram que o facto dos antigos Flechas não estarem na dependência directa dos seus serviços de informações, motivou que o seu sucesso não atingisse os níveis que os mesmos obtiveram quando a operar sob a ordens da PIDE/DGS.  Este vasto trabalho de dois anos e meio é o primeiro relato exaustivo sobre este grupo paramilitar de Bosquímanos que “combateu ombro-a-ombro” com as tropas portuguesas, onde os testemunhos e provas escritas conseguiram ver a luz do dia passados que foram mais de quarenta anos.
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Fernando Cavaleiro Ângelo
Os Flechas: A Tropa Secreta da PIDE/DGS na Guerra de Angola
Casa das Letras  16,90€

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