Vergílio Alberto Vieira | Quaderna Nº 1

1- Mais uma revista de cultura: objectivos da nova aventura de nome Quaderna?
R- Valendo-me da, não raro, desconcertante ironia de Bloom, diria: mais uma reserva para “caçadores de fontes e biógrafos”. Mas este projecto editorial não vai por aí; a pretensão é ser desvio, sem hostilizar a regra: parafraseando “o velho pisano”, entendida como demanda  nas suas diferentes formas de expressão, a arte contudo move-se. Não fosse, porém, a cultura portuguesa o que é, e não lhe assistisse a presunção, qual indício de ouro, de ter nascido “tocada de estrela e cabra”, de que identidade falaria Eduardo Lourenço  a não ser da nossa, uma entre outras, no seu sentido histórico e trans-histórico? Assim sendo, arrisco reconhecer que é para contrariar tanta “colheita perdida” que tenho tentado ir além, não da Taprobana luso-artística, mas da videirunha lusófona em busca de “glória ou da Abissínia”, como confessa o poeta de Servidões: “(..) sei bastante do que todos sabem.”

2- O que traz de novo a revista nascida sob a égide de João Cabral de Melo Neto?
R-Depois de peregrinar em/ por outros mundos, e em várias direcções (Lugarcomum, Mealibra,Vandoma, Babel, Delphica, acompanhado ou só), Quaderna  propõe-se refutar o estado de amnésia para que os torcionários dos estados-nações têm empurrado  as sociedades de hoje, e com elas o homem, mercantilizando-o até às fezes. À escala nacional (em que nem tudo é bom), e sem pretender navegar a coberto do pavilhão palopiano (de cauda), esta revista é projecto de cultura, em língua portuguesa, e isso lhe basta, acrescenta um ponto ao património, que a edição de revistas de cultura (literatura e arte), engrandeceu sempre diversamente, em Portugal, quer do ponto de vista estético, quer de gerações. Neste primeiro número, pretendeu-se pagar tributo ao povo brasileiro, à  sua cultura, à sua literatura, , saudando na vida e obra de João Cabral de Melo Neto, o generoso legado, e reconhecimento sempre rendido à língua portuguesa por parte do Brasil.

3-Muitas das secções: poesia, narrativa, viagem, música, biografia, reportagem, dramaturgia, artes plásticas, quadernário – o que destaca neste primeiro número?
R-Deixando o que há de intencional, e prospectivo; de ideário, e prático, para outra ocasião, esta revista de cultura y arte, como vem escrito no editorial, pretende apenas ser “uma publicação do seu tempo”. Nesse sentido, a fórmula encontrada para alargar o quadro de motivações, e interesse; de abertura, e funcionalidade - foi a senha para sinalizar o caminho, quer seguindo de perto experiências anteriores, quer reconhecendo o que, num ou noutro caso, a inércia  retira força a todo e qualquer projecto de liberdade e conduta. Neste número, destacaria os inéditos de Walmir Ayala  e Antonio Carlos Secchin; a narrativa de Gil de Carvalho e a crónica de viagem de Rui Vieira; as entrevistas ao pintor Jorge Pinheiro e ao músico António Saiote; por último: o caderno dedicado a João Cabral de Melo Neto.
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Vergílio Alberto Vieira
Quaderna
(Revista Nº 1)

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(C) Vieira da Silva

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