Diga não ao cruel comércio da morte.

Filipa Martins | Na Memória dos Rouxinóis


1-O que representa, no contexto da sua obra, o livro «Na Memória dos Rouxinóis»?
R- O ‘Na Memória dos Rouxinóis’ sendo o meu quarto romance, é o segundo em que opto por um narrador-personagem. Faço-o de forma consciente e por respeito ao leitor. O narrador que tudo sabe representa um olhar de algo que não existe, que se sobrepõe à existência, e a existência de que falo é a existência que bordeja os limites da obra. Tal olhar não existe, é falso, é o olhar de ninguém. Assim, o meu narrador é duplamente narrador. Narra também uma biografia, narra a vida de outrem. Como eu narro a vida de outrem enquanto escritora. A narração da vida dentro da narração da vida, como encaixe de bonecas russas. Este é também o livro em que atinjo um novo patamar neste trabalho de oleiro sobre o barro da memória – tema que é de alguma forma transversal a todos os meus livros. Depois de pensar de forma histórica, proponho-me a pensar de forma ahistórica, para compreender que toda a memória é – em certa medida – contrária à história. No final, não basta sermos como o judeu que se converte ao catolicismo para ganhar o trunfo da vida eterna, temos de tecer a nossa própria confissão.  

2-Qual a ideia que esteve na origem deste livro?
R- Este livro parte da ideia de que devemos esquecer para evoluir e isto é útil nos dias que correm em que a informação surge de forma ininterrupta e também no nosso contexto pessoal e sentimental, sendo o esquecimento necessário para superarmos situações traumáticas. Por outro lado, é do equilíbrio entre lembrar e esquecer para fugirmos à maldição de Funes e não sermos aquele que tudo lembra, mas sobre nada consegue pensar porque não consegue esquecer.  “Na Memória dos Rouxinóis” é também sobre o envelhecimento no amor, como as relações longas envelhecem enfrentando desilusões pessoais, sismos internos ao longo da vida e atravessam situações de doença e solidão. Isto num contexto de um casal homossexual. E é ainda sobre a junção do mundo da literatura com a matemática e a magia dos números primos com um matemático que por causa de um desgosto deixa de usar o número sete (metáfora do peso da memória nas nossas vidas).

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R-Estou, pela primeira vez, a trilhar os meandros do texto biográfico. Desafiaram-me para escrever a biografia sobre uma figura muito importante cultura portuguesa do século XX, que por várias razões e em múltiplos momentos tem cruzado o meu caminho. É o culminar de uma relação com muitas tangentes e algumas consumações. É um projeto de fôlego porque implicará uma investigação profunda e criteriosa e mérito literário necessário para estar à altura da história de vida que me proponho retratar.
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Filipa Martins
Na Memória dos Rouxinóis
Quetzal  16,60€

Filipa Martins na "Novos Livros" | ENTREVISTAS