Diga não ao cruel comércio da morte.

Mário Moura | O Design que o Design não vê

1-Qual a ideia que esteve na origem deste livro «O Design que o Design não Vê»?
R- O tema comum aos ensaios recolhidos é a identidade. Uma das funções clássicas do design é produzir identidades para empresas, instituições, produtos ou até países. Fá-lo através de logotipos, de sistemas de identidade, ao decidir o aspecto de um produto, seja ele um livro, uma caixa de cereais ou um carro. Decide o modo como um filme se apresenta ao público antes sequer de ser visto, criando-lhe uma marca, posters, uma publicidade. Articulando uma família de produtos e serviços de maneira a criar uma imagem de marca. A ideia central do livro é que o design não produz estas identidades mas também vai construindo a sua própria identidade. Vai decidindo, no fundo, quem lhe pode aceder, quer como cliente, quer enquanto criador. Torna mais fácil a um homem, por exemplo, ser um designer do que a uma mulher. Faz com que seja mais uma actividade urbana do que periférica. Em resumo, neste livro tento pensar como o design produz a sua própria identidade e como essa identidade se relaciona com outras – identidade de género, de classe, étnica. É possível através disso perceber como o design produz e ajuda a produzir objectos e discursos que podem reforçar ou evitar linhas de segregação.

2-Porque podemos dizer que o design é fundamental para o nosso quotidiano?
R-Não sou de opinião que o design seja algo fundamental ao nosso quotidiano. Pode-se passar sem ele. Como dizia ainda agora, pessoas diferentes têm acesso a ele de um modo distinto. Há quem não lhe possa aceder. Não existiu sempre, nem existe em todo o lado. E um dia há-de deixar de existir. O que não significa que não seja importante. É algo identitário à nossa sociedade. Que a define. Que também nos diz o que deve ser um objecto, o que deve ser uma instituição, uma empresa, até um país. Digo «também», porque não é a única disciplina que o faz. Por exemplo, uma empresa tanto se define pelo seu logotipo, como pelos seus estatutos, como pelas suas instalações, quem a dirige, quem trabalha, qual o seu público, etc.

3-A investigação e a reflexão que faz permitem-lhe olhar para o design português de que forma?
R-Permitem-me olhar o design português de um modo histórico. É muito comum, mesmo entre os designers, ver-se o design aqui em Portugal como algo novo, que acabou de ser importado, que é importante implantar e divulgar. Contudo, já se usa esse discurso há décadas. Existem milhares de profissionais, dezenas de cursos, eventos, exposições, até museus. E, mesmo assim, continua a ver-se o design como algo recente. Um modo de explicar esta contradição é perceber que a identidade do design pressupõe uma certa relação com a história.
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Mário Moura
O Design que o Design não vê
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