Diga não ao cruel comércio da morte.

Teolinda Gersão: "Histórias de Ver e Andar" (2002)


É um impressionante fresco da actual sociedade portuguesa, este Histórias de Ver e Andar, o primeiro livro de contos que Teolinda Gersão escreve em duas décadas de vida literária. São catorze pequenas histórias, muito diferentes entre si, mas que se conjugam como retalhos impressionantes de um país em mudança.
Com uma fina ironia – e, sobretudo, com uma enorme acutilância –, a autora traça retratos fiéis dos portugueses: o executivo egoísta preocupado com a sua segurança; a velha senhora que engana a solidão a passear de eléctrico, ou as jovens colegiais arquitectando um plano para matar uma colega só para aparecerem na televisão e ficarem famosas são exemplos marcantes.
Depois de belos romances como Paisagem com Mulher e Mar ao Fundo (1982), Os Guarda-Chuvas Cintilantes (1984), O Cavalo de Sol (1989), A Casa da Cabeça de Cavalo (1995), A Árvore das Palavras (1997) ou Os Teclados (1999) – alguns deles distinguidos com vários prémios literários – Teolinda Gersão estreia-se no conto. De forma excelente.
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Novos Livros - Quando, em Março de 2000, publicou «Os Anjos», já estava a escrever um livro de contos. É este?
Teolinda Gersão - Sim, este é o livro de contos que eu já estava a escrever em Março de 2000.
P – Em mais de duas décadas de vida literária, porquê só agora o primeiro livro de contos?
R – Só agora surgiu este livro porque me sinto muito vocacionada para escrever romances, que foi o que tive vontade de fazer até agora. No romance há tempo e espaço para desenvolver personagens e conflitos, criar ambientes, fazer a acção passar de uma situação a outra. Tudo isso me fascina, porque penso que tenho o sentido do espaço e da dinâmica das coisas. O romance é ‘musical’, como uma sinfonia (a minha ligação com a música é funda e antiga e surge tematizada na ficção por exemplo em «Os Teclados»). O conto é um mundo diferente, que requer outro modo de contar.
P – Referiu várias vezes que escrever contos é difícil. Em que reside essa dificuldade, para uma escritora habituada ao grande fôlego do romance?
R – A dificuldade do conto é antes de tudo a condensação. Não é fácil conseguir dizer muito em poucas páginas. Não pode haver divagações, deslizes ou erros. O conto tem uma dinâmica própria, que se aproxima muito de um instrumento de precisão.
P – «Histórias de Ver e Andar», título escolhido para o seu livro de contos, foi o nome dado pelos árabes às narrativas de viagem. Porquê este título num livro tão marcadamente português e actual?
R – É verdade que os temas são absolutamente actuais neste livro. O título fui buscá-lo a outra época, mas isso não invalida a actualidade do livro. Usei o título porque ele me agradou. Na verdade são histórias que me surgiram ao ver (a vida de todos os dias) e ao andar (deambulando por aí).
P – Qualquer dos 14 contos de «Histórias de Ver e Andar» é um quadro exemplar da sociedade portuguesa actual. Foi essa a intenção? O livro é assumido, também, como uma crónica de costumes?
R – Penso que sim, o livro é também uma crónica de costumes, um retrato da nossa sociedade, hoje.
P – «Big Brother Isn’t Watching You» reflecte uma sociedade totalmente alienada pela televisão, pelo desejo de aparecer na imagem. É uma situação que a preocupa?
R – Preocupa-me que tudo se transforme em espectáculo, que predomine o ‘vale tudo’, e que haja uma total ausência de valores.
P – «O Leitor» é a história de um homem apaixonado pela leitura. Acha que ainda há pessoas com esse intenso prazer?
R – Acho que ainda existem, e regozijo-me com isso.
P – Qual é o seu conto preferido? Porquê?
R – Não tenho um conto preferido. Mas interessou-me bastante por exemplo o conto «Noctário», porque é contado através de sonhos. Quando eu era muito jovem, e antes de ter alguma vez lido Freud, já os sonhos me fascinavam. Sempre me pareceram literatura em estado puro.
P – A sua produção literária aumentou consideravelmente desde que se reformou do ensino. A disponibilidade adquirida foi importante para esse salto?
R – Claro! Enquanto dei aulas na Universidade por vezes só escrevia no Verão e demorava cinco ou seis anos a terminar um livro.
P – Não sente a falta do contacto com as gerações mais novas proporcionado pela docência?
R – Sinto, e por isso hesitei muito em deixar o ensino. Até porque sempre tive uma óptima relação com os alunos e gostei de dar aulas. Tive, aliás, um número enorme de alunos excelentes, que hoje estão a fazer coisas extremamente interessantes e são figuras conhecidas. Conviver com eles foi para mim muito estimulante.
P – O que está a escrever agora? Vai voltar aos contos ou regressa ao romance?
R -Tenho um romance esboçado, e mais uma série de contos na cabeça.
P – E teatro, vai voltar a escrever?
R – Depois da adaptação de «Os Teclados» para teatro, tive a óptima surpresa de o grupo de teatro O Bando decidir encenar «Os Anjos», em 2003.
P – Que género gostaria de explorar e ainda não teve oportunidade? Já referiu a escrita para televisão: para quando a incursão nesse domínio?
R – Para televisão há um projecto de ser feito um vídeo com o espectáculo de «Os Teclados» que o Jorge Listopad encenou no Centro Cultural de Belém.
P – Tem algum projecto nessa área? O que gostaria de fazer?
R – Gostaria, além disso, de escrever para cinema.
P – Para quando o próximo livro?
R – Não faço planos nem marco datas. Os livros decidem quando estão prontos, não mando neles nem sou eu que decido quando o processo termina.
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Teolinda Gersão
Histórias de Ver e Andar
(Entrevista de Elsa Andrade publicada na "Novos Livros" em Dezembro de 2002)