Diga não ao cruel comércio da morte.

João Carlos Alvim | A Confraria dos Espectros

1-O que representa, no contexto da sua obra, o livro «A Confraria dos Espectros»?
R-«A Confraria dos Espectros», que pode ser lido como um livro de fantasia de inspiração híbrida - que vai buscar sugestões a obras tão díspares como as do romance gótico inglês, as narrativas do Nerval dos «Iluminados», certas histórias do Balzac, o Stendhal das «Crónicas Italianas» ou ainda alguns romances de aventuras de Dumas pai - pretende acima de tudo constituir a primeira peça de uma história pessimista do mundo contemporâneo, em que se torne aos poucos evidente como é que chegámos até aqui - ao ponto complicado em que agora estamos - e como são escassos e pouco auspiciosos os horizontes que temos pela frente. Este primeiro romance centra-se no passado - numa época entre 1830 e 1911 - em que aos poucos começaram a vir ao de cima todos os elementos da «civilização» ocidental, tal como se desenhou nos últimos duzentos anos: a violência absurda, que devora os seus próprios fautores, o liberalismo que faz com que tudo se compre e tudo se venda - ainda mesmo as pessoas e os seus afectos - e um racismo biológico e social que levou aos grandes massacres do século XX. A este, outros romances se seguirão - e também um livro de ensaios - relativos esses ao presente e ao futuro. 

2-Qual a ideia que esteve na origem deste livro?
R-Estamos a presenciar hoje uma estranha confluência dos extremos - pense o leitor em exemplos como o do actual governo italiano -, mas essa confluência, que tendemos a supor inédita, é na realidade já antiga. Em Portugal, por exemplo, o ódio ao cartismo e aos governos da rainha D. Maria II fez com que em dado momento se tivessem mancomunado setembristas (isto é, simplificando, a extrema esquerda da época) e miguelistas (ou seja, também simplificando, a extrema direita de então). Foi este o ponto de partida do romance. Como o leitor verá, a «confraria» reúne gente com objetivos muito diversos, que se alia no entanto para concretizar os seus intentos díspares. A esse topos gostaria de acrescentar outro elemento: eu não queria escrever um romance histórico, no sentido tradicional do termo; queria que por detrás da história imaginária da «confraria» se pudesse ler uma história em segundo grau, a história social e política de uma dada época, e que a isso se agregasse também o elemento fantástico - que tão importante foi para a construção da mundividência europeia dos séculos XIX e XX. 

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R-Como já referi, estou a escrever um novo romance sobre o fim da humanidade tal como a conhecemos e um livro de ensaios que será - tentará ser - a justificação refletida dessas minhas «ficções».
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João Carlos Alvim
A Confraria dos Espectros
A Esfera dos Livros  21,20€