Diga não ao cruel comércio da morte.

Fernando Cavaleiro Ângelo | Os Falcões do Biafra

1-De que trata este seu livro «Os Falcões do Biafra»?
R-Durante o período de colonização, os britânicos deram a supremacia a um dos grupos étnicos contendores, os IGBO, promovendo-os a representantes da coroa britânica. Daqui surge uma elite IGBO que entra em confronto com uma aliança formada pelos outros dois grupos étnicos maioritários: os YORUBA e os HAUSA. Os condimentos para a explosão estavam reunidos, pelo que só foi necessário acender o rastilho. Depois da primeira tentativa falhada de secessão ocorrida no Catanga, na República Democrática do Congo, em 11 de Julho de 1960, a independência da República do Biafra poderia impor um processo irreversível de “balcanização” dos países africanos que a Conferência de Berlim de 1884 dividira a régua e esquadro. Os golpes militares de 14 de janeiro e de 29 de julho de 1966, o primeiro desencadeado por oficias IGBO para quebrar a influência HAUSA e o segundo para derrubar os IGBO do controlo militar, acabou por ser a espoleta para o barril de pólvora que era a República Federal da Nigéria. Daí até à guerra civil foi uma questão de dias. Dois oficiais do exército nigeriano, com formação académica e militar superior, passando ambos nas melhores escolas e academias militares na Grã-Bretanha, com percursos militares muito idênticos, despoletaram um conflito armado sangrento que envolveu grande parte da população e também muitos atores internacionais. O tenente-coronel Chukwuemeka Ojukwu rompeu com o domínio do governo federal alegando que os povos do Norte, os maioritariamente muçulmanos, dominavam com intuito de exterminar os povos cristãos do Leste. Por outro lado, o tenente-coronel Yakubu Gowon defendia o conceito de “One Nigeria”, lutando contra a independência unilateral do Biafra. A motivação dos apoiantes externos poderia enquadrar-se na manutenção ou criação de poder de influência, destacando-se aqui a Grã-Bretanha, a França e a União Soviética, e outros para mostrar ao mundo que os recém-independentes Estados africanos não dispunham das condições para se governarem sozinhos, tal como Portugal, África do Sul e Rodésia. Estes últimos países lutavam domesticamente com grupos independentistas que aclamavam a libertação dos colonizadores. Com a ofensiva das tropas federais, a 06 de julho de 1967, a recém-criada República do Biafra respondeu de forma decidida e com bravia, mesmo com uma enorme desvantagem em termos de contingente militar e de armamento. Mas rapidamente o comandante supremo das tropas federais percebeu que o centro de gravidade do Biafra, atendendo a sua localização geográfica, seria o apoio logístico da sua população e das operações militares de contenção que estavam em curso. As tropas federais possuíam uma vantagem considerável nas três dimensões: naval, terrestre e aérea. Tal como tinha aprendido na aula de arte da guerra na academia militar britânica, o embargo total era a única forma de asfixiar as ambições secessionistas do alegadamente megalómano e sequioso por poder tenente-coronel Ojukwu. Pelo que é a partir de aqui que surgem os falcões do Biafra para tentar inverter os efeitos asfixiantes do embargo. Através dos parcos meios aéreos adstritos à Força Aérea Biafrense, um conjunto de pilotos, contratados pelo tenente-coronel Ojukwu, começaram a voar de forma decidida e corajosa para anular as ofensivas terrestres das tropas federais, aniquilar a supremacia aérea nigeriana representada pelos temíveis caças-bombardeiros soviéticos MIG-17F, e permitir que a ajuda humanitária e fornecimento de armamento chegassem aos dois únicos aeroportos improvisados no Biafra: Uli e Uga. A aventura perpetrada pelos dois caças-bombardeiros T6-G, tripulados por dois antigos pilotos da Força Aérea Portuguesa, o Artur Alves Pereira e o José Pignatelli, ao serviço do Biafra, foi deveras fulcral para a sustentação do Biafra até ao seu último dia: 08 de Janeiro de 1970. As missões que estes dois jovens pilotos efetuaram, com resultados desastrosos para as forças armadas nigerianas, podiam roçar a loucura que só a irreverência de um jovem consegue proporcionar. Tinham adquirido a experiência e as perícias a tripular esta aeronave nas guerras de Angola e Guiné. Ao final do dia, a luta entre um jovem oficial sequioso de poder que utilizou a questão étnica e religiosa para inflamar a situação, e outro jovem oficial que foi investido pelos grupos étnicos rivais, o HAUSA e os YORUBA, para defender a união da Nigéria com a bênção das potências colonizadoras sequiosas por petróleo, resultou na morte de milhões de pessoas, na maioria crianças e idosos, e centenas de crianças que ficaram perdidas dos seus pais.

2-Como podemos interpretar os objectivos de Salazar para intervenção de Portugal na guerra civil da Nigéria? 
R-Em primeiro lugar, Portugal não se podia expor tendo em conta a perseguição que estava a ser alvo pela Comunidade Internacional face aos desenvolvimentos nas guerras de Angola, Moçambique e Guiné. Pelo que o envolvimento nos bastidores, de forma secreta, era essencial para as políticas do regime salazarista. A estratégia milenar de dividir para reinar, através da intensificação da confusão, acabava por mostrar ao mundo e às organizações internacionais, que na verdade a vida dos africanos sob a governação portuguesa não era assim tão ruim. Esta retórica política do regime servia, outrossim, para contrariar as vozes anticolonialistas. Por outro lado, a maioria das províncias ultramarinas portuguesas possuíam “pequenos Biafras”, como por exemplo Cabinda, que podia incorrer num quadro de conflitualidade semelhante ao que se estava a assistir na Nigéria. Pelo que Portugal tinha que se manter no anonimato para não despertar intenções secessionistas dentro das suas próprias fronteiras. O esforço no tabuleiro da diplomacia internacional em persuadir outros países a apoiar a causa do Biafra, para desta forma influenciar a ONU a decretar uma resolução para mediar o conflito e conseguir alguma forma de sufrágio para legitimar a independência biafrense, era uma ação que trazia muitos ganhos a Lisboa nas questões que estavam relacionados com os três campos de batalha: Angola, Moçambique e Guiné-Bissau. E, finalmente, o facto de alegadamente a França requerer o apoio de Portugal, mesmo que de forma discreta através da cedência do seu espaço aéreo e aeroportuário para de forma livre os mercenários e os traficantes de armas poderem fazer escoar os abastecimentos às tropas biafrenses, a troco de fornecimento de armamento e munições às forças armadas portuguesas para “alimentar” o esforço de guerra nas suas três frentes de combate. Aparentemente toda as movimentações e esquemas clandestinos e encobertos eram efectuados através dos serviços secretos franceses, o SDECE, liderado pelo conde Alexandre de Marenches, que era muito amigo do subdiretor da PIDE, o Dr. Barbieri Cardoso. Múltiplos relatos fidedignos confirmam que a PIDE tinha um canal privilegiado com a SDECE, mormente para alguns assuntos que envolviam África. Portugal não conseguiu evitar a exposição mediática em termos de cumplicidade no transporte de armamento através dos entrepostos logísticos de Lisboa, Faro, Bissau e São Tomé. O apoio humanitário trazia a oportunidade de misturar o armamento no meio dos alimentos e medicamentos. O ruído nos órgãos de comunicação social por todo o mundo não se fez esperar; contudo, não havia provas concretas que as autoridades apoiavam efetivamente e formalmente a República do Biafra. Lisboa era o “nó” central em todas as atividades financeiras, militares, informacionais e de coordenação no que ao conflito do Biafra diz respeito.

3-Na investigação realizada para escrita deste livro, que novos factos relevantes (ou surpreendentes) encontrou?
R-A utilização dos serviços secretos permitia aos países envolvidos desenvolver as atividades encobertas e clandestinas, negando ou dissimulando desta forma todas as suas manobras, manipulações e conspirações. Esta atuação acabava por facilitar a estratégia de “dividir para reinar” em apoio a uma das partes, conservando, no entanto, a possibilidade de não ficar formalmente colado à parte apoiada, pois em caso de um revés, o seu Estado acaba por não ser prejudicado pelas autoridades vitoriosas. A utilização de “proxys” era essencial nesta atividade que se desenvolvia na clandestinidade, pois caso fossem expostos, os países naturalmente não assumiam qualquer responsabilidade, ficando sempre a dúvida de quem é que esteve por detrás de tal manobra maquiavélica. Este tipo de atuação desenvolve-se desta forma há muitos séculos, reconhecendo que as grandes potências possuem um tremendo know-how de como manipular, dissimular, enganar, conspirar e subtrair segredos fruto da sua larga experiência em conflitos de larga escala e intensidade por este mundo fora. Pese embora a guerra civil da Nigéria não ter uma ampla divulgação em Portugal, limitando-se só a alguns artigos de jornal e revistas, esta é a primeira obra no nosso país que investiga profundamente o nosso envolvimento secreto num conflito em África, ao mesmo tempo que conduzia uma guerra simultânea em Angola, Moçambique e Guiné, a par com a atuação secreta de uns pilotos portugueses ao serviço das autoridades do Biafra. As manobras arriscadas destes jovens pilotos, que acabaram por defender e acreditar na causa biafrense, eram dignas de um filme de Hollywood. A juventude, irreverência e espírito de aventura foram alguns dos factores que os impulsionaram a arriscar a vida por um país que não era o seu, acabando por ficar afectados pelo drama humano que aquele povo IGBO sofria. As manobras ardilosas das potências colonizadoras, as artimanhas e negócios clandestinos dos traficantes internacionais de armamento, a realpolitik do petróleo, são abordados com recurso a factos apurados em testemunhos na primeira pessoa e documentos secretos depositados em diversos arquivos nacionais. A fusão de todas estas fontes bibliográficas, seguindo uma metodologia assente de sobremaneira em testemunhos de fontes primárias, resulta numa obra consistente sob o ponto de vista histórico. O que é que esta obra não tem? Qualquer enviesamento provocado por ideias pré-concebidas sobre uma das facções, qualquer colagem a ideologias políticas de que natureza for, e nenhum posicionamento tendencioso sobre quem é que tinha a razão do seu lado. Em guerras não existe razão. As mortes provocadas ou colaterais nunca poderão sustentar o argumento da razão.
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Fernando Cavaleiro Ângelo
Os Falcões do Biafra
Casa das Letras  17,90€

Fernando Cavaleiro Ângelo na "Novos Livros" | ENTREVISTAS