Diga não ao cruel comércio da morte.

Jaime Bulhosa | Pedra de Afiar Livros

1-Qual a ideia que esteve na origem do livro «Pedra de Afiar Livros e Outras Histórias de um Livreiro»?
R- Este livro nasceu, em primeiro lugar, como bloco de notas de um livreiro. Onde eu ia registando pequenos episódios passados na livraria entre os livreiros e os clientes. Depois passou para o blogue da livraria Pó dos Livros e dez anos mais tarde tive a ideia de seleccionar os textos que de alguma maneira estivessem relacionados com os livros, a vida de um livreiro ou algo ligado aos livros e transformá-lo num livro. No entanto, o objectivo principal do livro sempre foi divulgar a leitura e ao mesmo tempo deixar um registo de memórias de uma profissão que parece, cada vez mais, estar em vias de extinção.

2-Em mais de 30 anos na profissão de livreiro, o que mais o surpreendeu no mundo dos livros?
R- O que mais me surpreendeu na profissão de livreiro foi verificar que os livros sempre foram e continuam a ser o bem de luxo para um pequeno número de pessoas. É claro que hoje se vendem mais livros do que há 30 anos. Porém, vendem-se em Portugal – e cada vez menos - um pouco mais de um livro por ano, por cada habitante. O que é muito pouco para um país que se deseja desenvolvido e com níveis de iliteracia baixos.

3-Começou a sua carreira em 1985. Pensando no futuro: consegue imaginar as livrarias em 2085?
R- Consigo imaginar o meu filho a passear, num dia de sol de primavera, no miradouro do Jardim de São Pedro de Alcântara, no ano de 2085. Com 91 anos de idade, cansado da caminhada, senta-se num banco de pedra que por ali ainda existem, para poder ganhar folgo e vislumbrar a cidade. O Castelo de São Jorge, a Sé de Lisboa e o casario contrastam com as águas ainda azuis do rio Tejo. Os lisboetas e os turistas gozam o fim-de-semana. A cidade está linda, como sempre. Muita gente nas ruas, nas esplanadas e nos jardins. Todos aproveitam a luz branca e brisa amena que vem do mar. O centro de Lisboa não mudou muito desde o ano de 2019. A minha neta (hipotética de cinquenta e cinco anos) está sentada ao lado dele. Aproveitando o descanso o meu filho tira do bolso do casaco um livro muito antigo. Abre-o e pega num postal que servia de marcador, também ele muito velho, com um carimbo datado do ano de 1985. Depois olha para o postal e suspira com a memória que a imagem lhe provoca. O postal mostra um jovem livreiro, à porta de uma livraria de onde se podia ler no letreiro as seguintes palavras: Livraria Bertrand, desde 1732. Uma pequena lágrima de saudade desce pela face enrugada. A minha neta ao vê-lo comovido, num impulso, pergunta-lhe: «Pai, e se fossemos visitar esse museu onde o avô trabalhou?» 
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Jaime Bulhosa
Pedra de Afiar Livros e Outras Histórias de um Livreiro
Oficina do Livro   14,40€