Diga não ao cruel comércio da morte.

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Eduardo Cintra Torres | Televisão do Século XXI

1-Durante anos, dissemos que a televisão era a caixa que tinha mudado o mundo. E hoje?
R-Foi a caixa que mudou o mundo, em quase tudo para melhor. Mas a Revolução Digital pôs em causa essa primazia. A diversificação de meios e de fontes é positiva.

2-Do seu ponto de vista, o que é a televisão do século XXI?
R-É um dos mais importantes media, o mais importante em muitas partes do mundo, embora menos nos países mais desenvolvidos. Tem uma linguagem própria e conteúdos próprios, que se libertaram dos constrangimentos técnicos (o televisor) e em parte dominam nos outros media. Muito do que se vê na Internet (que não é um media, é um meio técnico de produção e disseminação) foi pensado e produzido como conteúdos em linguagem televisiva e de acordo com os padrões anteriores dos conteúdos televisivos. Por isso costumo dizer que as pessoas que dizem que não vêem televisão, sim, vêem televisão por outros meios. Não vêem no televisor. E não só conteúdos feitos como televisão, também conteúdos de televisão mostrados em parte ou no todo noutros meios de informação e comunicação disponíveis na Internet. A luz intensa das novidades tende a obscurecer as permanências. No caso, verifica-se que a importância da televisão ainda é transversal. Diminuiu a importância das instâncias institucionais da televisão, as empresas e canais. Por exemplo, a RTP perdeu nove décimos da sua audiência em 25 anos; os beneficiários, TVI e SIC, estão a perdê-la agora, não só para o cabo, que também é TV, mas para outros e diversificados meios.

3-De certa forma, poderemos dizer que somos nós (os nossos novos hábitos e novos comportamentos) que estamos a mudar a televisão e a criar , como refere no livro, "as televisões”?
R-Sim. Os espectadores e consumidores, sendo-lhes dada a diversificação, tomam opções que alteram o panorama audiovisual. Dentro de pouco tempo (um, dois, três anos?), o poder político será confrontado com o que fazer com a RTP, por exemplo. Se o tivesse feito há doze anos ou há sete anos, como eu e outros propusemos, teria o problema resolvido. Mas o afã de controlar e de impor modelos à RTP (que esta tem apreciado) levaram à sua menorização por escolha dos espectadores.Nos operadores generalistas sabem qual é o seu destino: a irrelevância ou quase. Mas, dado que a actividade ainda é lucrativa, vão-na continuando, da mesma forma que os comboios a vapor continuaram enquanto não se alargasse a rede ferroviária eléctrica. Vão tendo de adaptar os conteúdos ao público disponível, e isso significa quase sempre afastar ainda mais os que se iam afastando dela. Procuram alargar o seu alcance através do cabo e da Internet, o que é um paliativo no que toca ao carácter dos conteúdos. A “televisão”, enquanto sinónimo de TV generalista, foi substituída, ainda sem a matar, pelas “televisões”, incluindo os conteúdos, alguns excelentes, feitos fora do enquadramento das generalistas e mesmo das de cabo. Não é que eu deseje a morte da generalista ou até das televisões, como não se deseja a morte de um parente. É apenas aceitar a realidade. O comboio a vapor é uma curiosa e nostálgica maravilha, mas só às vezes.
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Eduardo Cintra Torres
Televisão do Século XXI
Universidade Católica Portuguesa. 5€

Férias? Sim, mais tempo para ler


As férias são um momento óptimo para recarregar baterias tanto do ponto de vista físico como intelectual. Normalmente, escolhemos livros mais ligeiros para estes dias de calor e sossego. Mas essa pode não ser a melhor opção. Se temos mais tempo e mais disponibilidade, podemos provavelmente ler livros que nos façam pensar um pouco mais e aprofundar temas que, muitas vezes, no azáfama diária do resto do ano não conseguimos.
Aqui fica uma lista de 20 livros editados este ano e que podem ser uma companhia ideal para os dias de férias. Boas férias e boas leituras!
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ENSAIOS

Rutger Bregman é o autor de um dos mais comentados livros de 2017: Utopia para Realistas. Podemos pensar que o tempo das utopias já passou. Bregman pensa exactamente o contrário: ainda há utopias pelas quais vale a pena lutar mesmo sendo realistas. O autor parte de uma base desafiante: um mundo sem fronteiras e sem pobreza. Será possível? A realidade que vivemos e conhecemos parece indicar-nos que é (mais) uma utopia. Mas Bregman mostra que é possível e cita Keynes para (nos) dar alento e vontade de também sermos realisticamente utópicos: "A dificuldade não reside nas novas ideias, mas em escapar às velhas".

John Mack escreveu um livro que para nós, portugueses, devia ser de leitura obrigatória nas escolas: Mar: Uma História Cultural. O mar faz parte da nossa história, da nossa vida e do nosso destino como povo. Mas, normalmente, não pensamos muito sobre ele ou não o estudamos para melhor o compreender. Esta obra é o livro que nos ajuda a ver o mar em múltiplas dimensões.

Marcus Du Sautoy defende que a ciência domina o mundo: "a ciência proporcionou-nos a melhor arma na luta contra o destino" e ajuda "não apenas no que toca à nossa luta pela sobrevivência, mas também à melhoria da nossa qualidade de vida". Mas terá limites? Até onde poderemos ir na busca permanente de mais e de melhor? Percorrendo várias áreas do conhecimento humano e da ciência, o autor  de O Que Não Podemos Saber coloca a hipótese de existirem matérias que não estarão ao nosso alcance. Mas o livro é uma fascinante viagem a inúmeros domínios em que a ciência faz, já hoje, a diferença.

Steven Pinker é um autor com uma vasta obra científica publicada e chega a Portugal através do seu mais recente livro: Os Anjos Bons da Nossa Natureza. Pinker é um investigador que tem pesquisado os mecanismos da mente, a linguagem, o papel da educação ou a essência da natureza humana. Neste livro agora editado, Pinker interroga-se sobre as razões porque tem diminuído a violência apesar de nós, enquanto observadores quotidianos, termos a sensação de que se passa exactamente o contrário: crime, violência, terrorismo são notícia (quase) constante. Estimulante a leitura porque interroga de forma consistente um conjunto de ideias feitas.

David Wootton e o seu livro A Invenção da Ciência contribui para uma clara e bem estruturada história da ciência: 800 páginas em que são abordados inúmeras temas que explicam não só a evolução como a realidade actual da ciência. Apresenta-se como uma "nova história da revolução científica" e, de facto, é isso mesmo.

Jean-Gabriel Ganascia faz uma introdução a um dos temas mais debatidos da actualidade: a Inteligência Artificial. O Mito da Singularidade não é um manual mas sim uma fonte de inspiração para esse mesmo debate nas inúmeras dimensões que o tema tem e para a avaliação das suas futuras consequências para as nossas vidas.

Emmanuel Todd aposta numa nova interpretação da história. O seu ponto de partida é pensar tudo numa perspectiva da longa duração dos sistemas familiares. Em Onde Estamos?, o autor procura novas explicações que não se baseiam no modelo mais tradicional da interpretação da história. Do seu ponto de vista, é nas estruturas familiares que devemos procurar novas e mais sólidas bases que nos permitam compreender o passado, interpretar o presente e pensar o futuro. 
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MEMÓRIAS

Raymond Aron é um dos intelectuais mais prestigiados que acompanhou com os seus escritos grande parte do século XX. As suas Memórias mostram-nos o seu olhar crítico e envolvido na história, na cultura e no debate político da Europa e da França. Com lucidez e com rigor, sem abdicar dos seus princípios e com um ponto de vista de quem foi, também, actor e não mero espectador.

Nelson Mandela, figura maior do século XX, escreveu vários livros de inegável importância. Acabam de ser editadas as suas Cartas da Prisão. São, ao mesmo tempo, um documento político e um testemunho pessoal (íntimo até) de alguém que ficará sempre na História e aqui se revela em múltiplas facetas. Indispensável para o conhecer.

Jaime Nogueira Pinto reeditou um ensaio (A Direita e as Direitas) e passa em revista 250 anos da história das direitas no mundo e em Portugal. Podemos dizer que já não faz sentido o debate esquerda/direita. Mas, o avanço dos populistas autoritários na Europa e a ascensão de Trump são bons motivos para pensar e compreender o contexto. Falta um livro destes que fale da(s) esquerda(s).
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GESTÃO E NEGÓCIOS

Nassim Nicholas Taleb reflecte sobre a importância do factor Sorte no mundo empresarial e no funcionamento dos mercados. O livro Iludidos pelo Acaso é um ponto de partida de alguma forma irreverente e ousado sobre algo que nem sempre estamos dispostos a aceitar como factor importante em decisões e na vida em geral.

Ryan Avent escreveu A Riqueza dos Humanos para reflectir sobre este nosso século XXI em que a evolução tecnológica está a mexer em muitas das facetas da nossa sociedade: no consumo, no trabalho, nos relacionamentos e na qualidade de vida. A incerteza é hoje uma dominante. Preocupa-nos o desconforto que sentimos quando pensamos no futuro das profissões e no emprego, no nosso nível de vida e na sua provável degradação. Este é um livro que pode gerar mais preocupação. Mas, se não pensamos nestes temas, um dia seremos surpreendidos e talvez, nessa altura, já pouco haja a fazer.

Daniel H. Pink é um nome destacado no panorama mundial e, desta vez, centra a sua atenção numa questão importante: qual o timing perfeito para tomar certas decisões ou para fazer muitas coisas. A definição do "quando" é importante e não surge do acaso. Quando resulta de uma investigação detalhada em que os contributos científicos da psicologia, da biologia e da economia tiveram uma papel essencial.

Kate Raworth parte de uma visão de economista para por em causa as bases tradicionais da economia como a conhecemos. A autora de Economia Donut constata, preocupada, que os decisores mundiais do século XXI estão a estudar hoje com base em pressupostos do século passado (ou mesmo do século XIX). A sua primeira intenção é repensar os termos em que a reflexão é feita e as matrizes que estruturam a educação e a distribuição do conhecimento. Nesse sentido, é um livro revolucionário porque aponta novos caminhos, novas ideias e procura novas respostas porque parte de perguntas diferentes. 
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TESTEMUNHOS

Michel Serres, um filósofo a escrever (e a questionar) sobre o nosso tempo e os (supostos) bons velhos tempos. Antes é que Era Bom é um ensaio e uma provocação que nos faz pensar nas diferenças efectivas que nem sempre recordamos quando dizemos com alguma nostalgia que "dantes é que era..." A nossa história mais recente nem sempre é brilhante e, por vezes, foi muito cruel, difícil e nada justa. Recordar e usar a memória com clareza ajuda muito a compreender e a valorizar os nossos dias.

Albino Forjaz de Sampaio escreveu este livro em 1926, mesmo antes da instauração do Estado Novo. Mas não pode ser considerado uma obra de propaganda embora tenha sido promovido pelo Secretariado da Propaganda Nacional. Agora, com uma distância de quase 100 anos o que podemos  ler em Porque Me Orgulho de Ser Português é um testemunho de alguém que apontava com clareza algumas das grandezas de um país e de um povo. Pode ser um texto datado mas é também um texto que podemos ler hoje com muito interesse, quando Portugal é um grande país reconhecido internacionalmente por muitos (e bons) motivos. Ter orgulho não faz mal à saúde.

Osseily Hanna viajou por diversos países em busca de projectos que, tendo a música como base, contribuem para combater a pobreza, a discriminação, a intolerância e outras formas de injustiça. Com o seu livro O Poder da Música revela um conjunto muito significativo de casos em que a música tem, de facto, um poder enorme para transformar as vidas das pessoas. 

Hermann Hesse escreveu os textos que compõem Uma Biblioteca da Literatura Universal no início do século XX e neles aborda um conjunto de ideias sobre livros, leituras, literatura e escritores. Em 1930, Hesse escreveu: "Dos muitos universos que o homem não recebeu em dom da natureza mas forjou par si próprio, extraindo-os do seu espírito, o universo dos livros é o mais vasto". Este livro é uma aproximação muito rica, profunda e diversificada desse universo.

Albert Einstein tem neste livro (Citações de Albert Einstein) uma das mais cuidadas recolhas das suas citações (da autoria de Alice Calaprice). A obra permite percorrer muitos tópicos das suas reflexões não tanto como cientista mas sim como homem do século XX, como observador muito atento do mundo e como pensador sempre estimulante sobre temas como a morte, o envelhecimento, os amigos, a música, a religião, política, ciência ou filosofia.

Yu Hua, escritor chinês, responde ao desafio de poder mostrar a China em apenas dez palavras: Povo, Líder, Leitura, Escrita, Lu Xun, Disparidade, Revolução, Raízes-de-Erva, Pirataria e Aldrabar. Como é óbvio, seria (quase) impossível retratar o imenso, diversificado e complexo país neste contexto. No entanto, com este livro ficamos com uma imagem e uma ideia da China muito forte. Yu Hua descreve de forma muito profunda a realidade, a história, a cultura e a sociedade. China em Dez Palavras é, sem dúvida, uma excelente porta que se abre e nos permite entrar num mistério que há muito intriga.
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1-Rutger Bregman, Utopia para Realistas (Bertrand: 17,70€)
2-John Mack, Mar: Uma História Cultural (BookBuilders: 18,90€)
3-Marcus du Sautoy, O Que Não Podemos Saber (Bizâncio: 22,01€)
4-Steven Pinker, Os Anjos Bons da Nossa Natureza (Relógio d'Água: 27,00€)
5-David Wootton, A Invenção da Ciência (Temas e Debates: 29,90€)
6-Jean-Gabriel Ganascia, O Mito da Singularidade (Temas e Debates: 15,50€)
7-Emmanuel Todd, Onde Estamos? (Temas e Debates: 22,20€)
8-Raymond Aron, Memórias (Guerra e Paz: 30,00€)
9-Nelson Mandela, As Cartas da Prisão (Porto Editora: 24,00€)
10-Jaime Nogueira Pinto, A Direita e as Direitas (Livraria Bertrand: 18,80€) 
11-Nassim Nicholas Taleb, Iludidos pelo Acaso (Temas e Debates: 18,80€)
12-Ryan Avent, A Riqueza dos Humanos (Bizâncio: 18,00€)
13-Daniel H. Pink, Quando (Gestão Plus: 16,60€)
14-Kate Raworth, Economia Donut (Temas e Debates: 19,90€)
15-Michel Serres, Antes é que Era Bom (Guerra e Paz: 13,00€)
16-Albino Forjaz de Sampaio, Porque Me Orgulho de Ser Português (Guerra e Paz: 12,20€)
17-Osseily Hanna, O Poder da Música (Bizâncio: 16,00€)
18-Herman Hesse, Uma Biblioteca da Literatura Universal (Cavalo de Ferro: 14,39€)
19-Albert Einstein, Citações de Albert Einstein (Relógio d'Água: 18,00€)
20-Yu Hua, China em Dez Palavras (Relógio d'Água: 17,00€)

António Covas | A Grande Transformação dos Territórios


1- Qual a ideia que esteve na origem deste «A Grande Transformação dos Territórios»?
R- A ideia original do livro é mesmo a ideia de " grande transformação dos territórios" à semelhança da "Grande Transformação" um livro de Karl Polanyi de 1944, isto é, uma alteração paradigmática do modo como ocupamos e nos relacionamos com o território, ao ponto de nos referirmos à extra-territorialidade como uma das características mais importantes do nosso tempo.

2- No seu livro reúne um conjunto de artigos publicados na imprensa: qual o fio condutor que o estrutura?
R- O fio condutor é a policontextualização dessa transformação do território e que no meu livro passa por três blocos: a transformação por via da integração europeia (a contingência europeia), a transformação por via da revolução digital e a transformação por via da smartificação dos territórios, ou seja, a passagem dos territórios-zona para os territórios-rede ou como se forma a inteligência coletiva dos territórios.

3- Sendo um livro com «olhares cruzados sobre as mutações do nosso tempo», quais serão os três principais factores que mais influenciam a vida aqui no território Portugal?
R-Os três factores que mais influenciam a nossa vida são as alterações demográficas (o abandono de certas zonas do país), as alterações climáticas (alteração nos mosaicos paisagísticos), a transformação digital (alterações nos mercados de trabalho) e acrescento as vagas migratórias que irão afectar a liberdade de circulação das pessoas e o seu comportamento.
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António Covas
A Grande Transformação dos Territórios
Edições Sílabo. 14,30€   

Carlos Magdalena | O Messias das Plantas


Até onde pode ir a paixão pelas plantas? Esta é a pergunta que atravessa o livro de Carlos Magdalena, que transformou o seu entusiasmo genuíno na descoberta (ou redescoberta) de muitas espécies, algumas das quais em vias de extinção. 
Carlos viaja pelo mundo inteiro e procura conhecer como primeiro passo para a preservação. É um trabalho sem fim e que, diariamente, é posto em causa pelas alterações do clima, pela intervenção humana e por vários outros factores. 
Em cada palavra o autor coloca um misto de testemunho pessoal conjugado com sólido conhecimento das plantas em causa, do seu enquadramento num determinado território e da sua importância.
Este livro é o relato vivo e entusiasmado de um percurso singular de um homem especial. Ao mesmo tempo, é um excelente guia para o verdadeiro conhecimento do nosso planeta.

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Carlos Magdalena
O Messias das Plantas
Bizâncio  17€

Vitor Paulo Gomes da Silva l Dicionário de Gestão de Recursos Humanos

1-Qual a ideia que esteve na origem deste «Dicionário de Gestão de Recursos Humanos»?
R- O objetivo foi o de formular e organizar adequadamente os conceitos inerentes à Gestão de Recursos Humanos.

2- Na abordagem e no conteúdo: quais as novidades que o seu livro comporta?
R- O dicionário - seguindo o trilho do livro Capital Humano - contempla uma visão alargada e desmistificada da área da Gestão dos Recursos Humanos. 

3- Este é um manual universitário ou um livro de aoio a gestores?
R- É ambas as coisas: manual universitário e livro de apoio a gestores.
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Vitor Paulo Gomes da Silva
Dicionário de Recursos Humanos
Edições Sílabo  11€

Luís M. Aires | Ensinar e Aprender Realmente Melhor

1- Qual a ideia que esteve na origem desta obra em 4 volumes (3 dedicados a professores e 1 a pais)?
R-Foi a convicção de já existirem suficientes conhecimentos sobre o funcionamento do cérebro e numerosas experiências didático-pedagógicas que legitimam a aplicação na sala de aulas, e em casa, de estratégias e procedimentos de ensino mais racionais e menos intuitivos. O que sabemos acerca da atenção ou da memória oferece uma sólida e seguramente a melhor base de trabalho para compreender, melhorar e reproduzir as histórias de sucesso da até agora “arte” de ensinar. Já não faz sentido ignorar a investigação no domínio das neurociências e cognição com a desculpa ou o mito de que o cérebro é uma espécie de “caixa negra”. Como afirma P. Wolfe, «(...) quanto mais entendemos o cérebro, melhor o poderemos educar».

2- Na abordagem e no conteúdo, quais as novidades que a obra comporta?
R- No mercado editorial existem alguns (poucos) títulos em português votados a esta temática. São livros interessantes, porém, mais ao nível teórico que ao nível prático. Os livros que compõem a coleção Ensinar e Aprender Realmente Melhor, a par de uma contextualizacao teórica sucinta mas esclarecedora, apresentam (no total) perto de 1000 sugestões ou tarefas concretas, devidamente justificadas, para o ensino de numerosos tópicos dos programas oficiais de línguas, ciências e matemática do 2° e 3° ciclos de escolaridade.

3- No volume dedicado aos pais, sugere um grande envolvimento deles para o sucesso na aprendizagem: como pode isso acontecer, sobretudo quando os pais têm vidas profissionais muito absorventes?
R- Bem..., sugiro o maior envolvimento possível. A minha expectativa é que o pai ou mãe, em cada semana, realize com o educando pelo menos uma das tarefas didáticas propostas; numa semana poderá ser uma atividade de ciências, noutra uma atividade de português. Essa experiência, ao longo de vários anos, enquadrada numa maior compreensão do funcionamento dos cérebro, da memória, da atenção, permitirá quer aos pais quer aos alunos reconhecer que se encontra disponível uma abordagem educacional relativamente simples mas muito prometedora, com visível impacto no sucesso das aprendizagens escolares. Uma abordagem que os pais podem desenvolver em casa, e que devem reivindicar para a Escola do século XXI.
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Luís M. Aires
Ensinar e Aprender Realmente Melhor (2º e 3º Ciclos)
Edições Sílabo
Guia Prático para Pais: 16,50€
Guia Prático para Professores/Ciências Naturais e Físico-Química 14,30€
Guia Prático para Professores/Português e Línguas Estrangeiras 14,30€
Guia Prático para Professores/Matemática  14,30€

Júlio Henriques | Flauta de Luz - Revista


1-O que é o projecto da revista «Flauta de Luz»?
R- A ideia que preside a esta iniciativa consiste em fomentar um diálogo subversor da lógica imanente ao presente sistema imperial, que é o império da mercadoria e da redução dos seres humanos a coisas quantificáveis. Como digo no mais recente número editado, esta revista pretende estabelecer relações críticas entre dois sinais profundamente contrários visíveis no mundo contemporâneo: por um lado, a resistente permanência das ancestrais culturas indígenas (a mais importante minoria mundial, cerca de 370 milhões de pessoas, também presente na Europa) e, por outro, o destravado desenvolvimento da sociedade industrial como superorganismo tendencialmente totalitário.

2-Apesar de haver uma identidade, a revista acolhe nas suas páginas textos muito diversos: é essa a sua matriz estruturante?
R- A diversidade que notou espelha a multiplicidade das acções de resistência ao mais frio dos monstros que ocorrem no mundo contemporâneo, em todos os continentes. Este monstro, o Estado, resulta da simbiose entre as forças ditas governativas, que detêm o monopólio da violência, e as corporações empresariais que se apropriam, simultaneamente, dos corpos humanos, a que se chamam «recursos humanos», expressão criada pelo nazismo, e do corpo vivo da Terra. Dada a variedade das acções em causa, que abarcam a resistência, prática e teórica, em contextos urbanos, rurais e silvestres, a sua expressividade é necessariamente diversa.

3-No recente Nº 5 (Abril de 2018), quais os temas em destaque?
R- Embora a correlação entre tudo o que se publica nesta revista, incluindo as ilustrações, seja estrutural, não havendo pois aqui uma hierarquização temática, destacaria neste número as colaborações brasileiras, mexicana e quebequense sobre a actualidade do movimento indígena, os ensaios de autores portugueses sobre a crítica da cultura industrial e tecnicista (Ana Marques, Jorge Leandro Rosa, Álvaro Fonseca, António Cândido Franco, Maria de Magalhães Ramalho, Paulo Barreiros), o trabalho de fundo – o primeiro publicado entre nós – do jovem cineasta Pedro Fidalgo sobre a dimensão estratégica do vitorioso movimento de oposição ao aeroporto de Notre Dame des Landes, em França, o ensaio da feminista curda Dilar Dirik sobre a pujante (e grandemente censurada) revolução social em curso em Rojava, a longa entrevista com Anselm Jappe sobre «Emancipação ou barbárie», e ainda o ensaio de John Zerzan sobre os ludditas e os seus herdeiros no mundo presente.
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Flauta de Luz – Revista (Nº 5-Abril/2018)
WEB:  Assinaturas / Compra de Exemplares

Mário Moura | O Design que o Design não vê

1-Qual a ideia que esteve na origem deste livro «O Design que o Design não Vê»?
R- O tema comum aos ensaios recolhidos é a identidade. Uma das funções clássicas do design é produzir identidades para empresas, instituições, produtos ou até países. Fá-lo através de logotipos, de sistemas de identidade, ao decidir o aspecto de um produto, seja ele um livro, uma caixa de cereais ou um carro. Decide o modo como um filme se apresenta ao público antes sequer de ser visto, criando-lhe uma marca, posters, uma publicidade. Articulando uma família de produtos e serviços de maneira a criar uma imagem de marca. A ideia central do livro é que o design não produz estas identidades mas também vai construindo a sua própria identidade. Vai decidindo, no fundo, quem lhe pode aceder, quer como cliente, quer enquanto criador. Torna mais fácil a um homem, por exemplo, ser um designer do que a uma mulher. Faz com que seja mais uma actividade urbana do que periférica. Em resumo, neste livro tento pensar como o design produz a sua própria identidade e como essa identidade se relaciona com outras – identidade de género, de classe, étnica. É possível através disso perceber como o design produz e ajuda a produzir objectos e discursos que podem reforçar ou evitar linhas de segregação.

2-Porque podemos dizer que o design é fundamental para o nosso quotidiano?
R-Não sou de opinião que o design seja algo fundamental ao nosso quotidiano. Pode-se passar sem ele. Como dizia ainda agora, pessoas diferentes têm acesso a ele de um modo distinto. Há quem não lhe possa aceder. Não existiu sempre, nem existe em todo o lado. E um dia há-de deixar de existir. O que não significa que não seja importante. É algo identitário à nossa sociedade. Que a define. Que também nos diz o que deve ser um objecto, o que deve ser uma instituição, uma empresa, até um país. Digo «também», porque não é a única disciplina que o faz. Por exemplo, uma empresa tanto se define pelo seu logotipo, como pelos seus estatutos, como pelas suas instalações, quem a dirige, quem trabalha, qual o seu público, etc.

3-A investigação e a reflexão que faz permitem-lhe olhar para o design português de que forma?
R-Permitem-me olhar o design português de um modo histórico. É muito comum, mesmo entre os designers, ver-se o design aqui em Portugal como algo novo, que acabou de ser importado, que é importante implantar e divulgar. Contudo, já se usa esse discurso há décadas. Existem milhares de profissionais, dezenas de cursos, eventos, exposições, até museus. E, mesmo assim, continua a ver-se o design como algo recente. Um modo de explicar esta contradição é perceber que a identidade do design pressupõe uma certa relação com a história.
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Mário Moura
O Design que o Design não vê
Orfeu Negro  17€

João Semedo | Morrer

1-O livro «Morrer com Dignidade» reúne testemunhos de pessoas muito diferentes: que significado retira desse facto?
R- Essa amplitude traduz a pluralidade e dimensão do movimento: gente sem partido ou de todos os partidos e quadrantes ideológicos, crentes e não crentes, de todas as idades e profissões. O fim da vida é uma das principais preocupações dos portugueses e a despenalização uma causa muito popular.

2-A morte assistida é uma questão central numa sociedade como a nossa cuja população envelhece a um ritmo intenso. Mas, sendo uma questão tão complexa, estaremos em condições de tomar já uma decisão?
R-Respondo com uma pergunta: que mudaria se a decisão fosse tomada daqui a um ano ou dois? Absolutamente nada, os cidadãos não são uns cata-ventos.

3-Depois de todo o processo de debate em que participou nos últimos dois anos, que balanço faz: estamos no momento certo para virar uma página ou será preferível esperar por um referendo?
R-Acho que estamos no tempo certo para decidir. Mas mesmo que não estivéssemos nunca seria o referendo a forma de decidir. O referendo permite que uns quantos imponham a sua decisão a todos os outros, o referendo é um simulacro de democracia.
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João Semedo (Org.)
Morrer com Dignidade (Tudo o que Deve Saber sobre a Morte Assistida)
Contraponto  13,30€
(Os direitos de autor revertem a favor da ONG Médicos do Mundo)
Mais informação:
MOVIMENTO CÍVICO PARA A DESPENALIZAÇÃO DA MORTE ASSISTIDA

Rosa de Porcelana | Márcia Souto/Filinto Elísio: "Uma editora que contribua para aumentar níveis e qualidade de leitura continua a ser nossa ambição."

1-Como descreve o projecto editorial que está na génese da Rosa de Porcelana?
R- O projeto que funda a Rosa de Porcelana Editora é de um centro cultural, com várias componentes e fases. Começámos pela componente editorial, escrita e leitura, ainda em vias de se consolidar, considerando ter sido o nosso primeiro propósito publicar e circular livros nos países e nas comunidades emigradas de língua portuguesa. Uma editora que contribua para aumentar níveis e qualidade de leitura continua a ser nossa ambição. Quatro anos passados, estamos ativos no mercado cabo-verdiano e português, com expetativas de nichos de mercado angolano e brasileiro. Nesse meio tempo, criámos e organizamos o Festival de Literatura-Mundo do Sal, com forte pendor de encontros internacionais de autores e de livros. Temos participado também em vários certames internacionais. No limiar da primeira fase ainda.

2-Em termos de géneros ou áreas temáticas, quais vão ser as principais apostas da editora?
R- Temos privilegiado muito a poesia, mas também casos de romance, crónica e ensaio. Entretanto, estamos sempre abertos a obras de referência e de miscelânea. A editora não descura entrar de forma mais sistemática em todos os campos literários e não só, porquanto temos não perder de vista, a médio trecho, o livro escolar e académico.

3-Para os próximos meses, que títulos ou autores têm em carteira para surpreender e conquistar os leitores portugueses?
R- Publicámos agora Manuel Halpern (com crónicas) e, no ano passado, José Luis Peixoto (com teatro), Jorge Carlos Fonseca (com romance), Olinda Beja (com poesia) e José Luiz Tavares (com poesia), para citar alguns. Nos próximos meses, entre vários projetos, temos os romances de Evel Rocha e de Dina Salústio, a antologia poética pessoal de Vera Duarte, a miscelânea poética de Filinto Elísio, o ensaio sobre o crioulo de Cabo Verde com Manuel Veiga, a organização de um livro de inéditos de Amílcar Cabral e mais um de Arménio Vieira. Há mais produção, muitas surpresas, mas ainda em negociação com os autores.
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Editora Rosa de Porcelana | WEBSITE



Jorge Rodrigues | Regulação, Ética, e Governance

1. Qual a origem deste seu livro «Regulação, Ética e Governance»?
R- O livro “Regulação, Ética e Governance: O mercado da informação financeira” surge na sequência da prática e reflexão de matérias comportamentais em contexto profissional e na lecionação das mesmas em contexto académico, em cursos de segundo ciclo. O objetivo supremo foi sempre a ideia de que as organizações que funcionem bem e sejam respeitadas pelos cidadãos, contribuem para a obtenção de resultados melhores e mais sustentáveis, para a Sociedade. 

2. Ética e responsabilidade social das empresas: em muito casos parecem apenas adornos e não tanto práticas. Será assim?
R- As práticas de gestão dos recursos das organizações, de qualquer dimensão, têm vindo a sofrer modificações desde o início deste século, colocando maior ênfase em matérias do foro comportamental. Seja qual for o rótulo colado a estas estratégias, todas as organizações procuram disfrutar de legitimidade junto da sociedade onde se inserem, contribuindo para o seu desenvolvimento, procurando ser boas cidadãs. Nestes termos, a ética e a responsabilidade social das empresas estão implícitas…

3. De que forma é possível ultrapassar a profunda descrença dos portugueses nas suas instituições?
R- Esta profunda descrença da sociedade portuguesa nas suas instituições irá sendo progressivamente ultrapassada à medida que os jovens gestores forem disseminando valores, atitudes e comportamentos justos, para dignificar as organizações em que desenvolvem o seu trabalho, colocando-as a funcionar corretamente, envolvendo e motivando os seus recursos humanos, condição necessária para melhorar o desempenho da economia portuguesa. 
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Jorge Rodrigues
Regulação, Ética e Governance: O Mercado da Informação Financeira
RH Editora  21,50€

José Milhazes | Lavrenti Béria: o Carrasco ao Serviço de Estaline

1-Qual a ideia que esteve na origem deste livro «Lavrenti Béria: o Carrasco ao Serviço de Estaline»?
R- A ideia foi dar a conhecer, de forma mais aprofundada, aos leitores lusófonos um personagem importante da História Soviética e Mundial. Béria aparece praticamente citado em todas as obras referentes a Estaline e ao estalinismo, mas não conheço uma biografia especialmente escrita sobre ele fora da Rússia. Considero que era preciso uma análise mais profunda sobre a vida e obra deste homem que continua a ser alvo de polémica na Rússia actual. Sendo uma figura tenebrosa para uns, é um herói, um génio para outros. Além disso, a Rússia tem entre os seus dirigentes numerosos políticos que foram educados e trabalharam para a polícia política e serviços secretos soviéticos que ele comandou durante muitos anos. Será que isso se reflecte no modus operandi deles?

2-Qual o principal papel de Béria na URSS de Estaline?
R- Béria dirigiu uma enorme máquina repressiva que tinha como objectivo levar à prática a política do ditador soviético José Estaline. Béria foi encarregado de tarefas bem diferentes: liquidar os inimigos do ditador dentro e fora do país, sendo o caso mais flagrante o assassinato de Trotski no México; coordenar os serviços de espionagem soviéticos em momentos importantes como nas vésperas e durante a Segunda Guerra Mundial; velar pela execução de mais de 20 mil polacos em Katyn; dirigir o fabrico das primeiras bombas atómica e de hidrogénio soviético, nomeadamente com a ajuda da espionagem, etc.

3-De acordo com a sua investigação, como se explica a crueldade e o carácter sinistro da acção deste homem?
R- Este homem estava inserido num sistema de poder que não deixava alternativas: ou cumprias à risca as ordens de Estaline, ou eras simplesmente preso e liquidado. A máquina do "terror vermelho" foi accionada por Lenine e Trotski em 1917 e só parou em 1991, com o fim da URSS. Com maior intensidade, ela funcionou na era de Estaline (1924-1953), sendo Béria um dos principais "maquinistas". Se não fosse Béria, certamente que o ditador não teria dificuldade em arranjar outros dirigentes para a sua polícia política. Personagens como a de Béria são típicas de regimes totalitários, sejam de esquerda ou de direita". Não foi por acaso que Estaline lhe chamou o "Himmler soviético".
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José Milhazes
Lavrenti Béria: o Carrasco ao Serviço de Estaline
Oficina do Livro   14,90€

José Milhazes na "Novos Livros" | ENTREVISTAS

Delfim Sardo | O Exercício Experimental da Liberdade

1-De que trata este seu livro «O Exercício Experimental da Liberdade»?
R- O livro tenta compreender o plano da arte contemporânea na sua relação com as tradições das várias práticas disciplinares das artes. Num momento em que parece não haver qualquer relevo nas práticas disciplinares artísticas, como a pintura ou a escultura — ou até em que se torna difícil saber a que esta nomenclatura se refere —, continuamos a encontrar, nos museus e galerias, entidades artísticas que continuamos a reconhecer como pinturas, esculturas, fotografias ou filmes. Partindo desta constatação, o livro tenta compreender como é que as várias linhagens das práticas artísticas se relacionam com as necessidades dos artistas contemporâneos, no pressuposto de que as questões das artes são sempre problemas de representação. A estrutura do livro segue esta tentativa: começa pela ideia de arte em sentido amplo, procurando a sua origem, propondo depois entender, nas crises da pintura, da escultura, da utilização de fotografia e filme e na tónica na corporalidade, como se constroem os protocolos (entre artistas, instituições de mediação e espectadores) que permitem reconhecer os objetos artísticos da actualidade como tais. Necessariamente que esta é uma tentativa em aberto, funcionando o livro mais como um mapeamento de situações geradas pelos dispositivos da arte, do que como um esboço de resposta.

2-Actualmente, tudo está a viver uma mudança vertiginosa: o que se passa na arte contemporânea?
R- A arte é um termómetro muito sensível em relação às mudanças do mundo. Claro que as questões da globalização, de género, os processos migratórios e os fenómenos sociais afetam e definem o campo no qual a arte é criada e fruída. No entanto, parece-me que não devemos esperar da arte respostas aos problemas do mundo, nem sequer a sua comunicação. A arte assenta sempre sobre processos ficcionais que, necessariamente nascidos de situações específicas, são o resultado de idiossincrasias dos autores, nas quais as circunstâncias específicas do mundo se misturam indissociavelmente com as micro-histórias. Provavelmente, o sintoma mais presente da incerteza do mundo transparece na produção pelos artistas de micro-ficções, mais do que grandes narrativas. Também a reinvenção dos processos criativos, cruzando indissociavelmente a citação, a recorrência de temáticas da história da arte, a pequena história pessoal, a documentalidade ficcionada e as referências a uma sensação global de precariedade são tópicos inconformáveis da arte do presente. A complexidade desta encruzilhada é exigente para o espectador, que necessita permanentemente de se redefinir, mas esta é uma condição inescusável do mundo contemporâneo.

3-O digital está também a transformar a arte: em que sentido(s)?
R - O digital afecta a arte em duas medidas: por um lado, ampliou de forma exponencial o campo das imagens disponíveis, não só para os artistas, mas para todos. A capacidade de produção imagética que tinha sido, durante muito tempo, campo exclusivo da arte, está hoje disseminada por todos os que possuem um smart phone. A especificidade das imagens artísticas é hoje, portanto, muito mais difícil — e, por conseguinte, muito mais difícil de distinguir o artístico do não-artístico. Por outro lado, a internet e as redes sociais desestabilizaram o discurso crítico, minando os argumentos de autoridade da crítica publicada — o que é interessante —, mas também minando a própria possibilidade da produção judicativa — o que é muito mais complexo. Em suma, o digital trouxe para a arte a necessidade desta se interrogar sistematicamente sobre as suas condições de possibilidade de uma forma muito mais radical do que aconteceu no passado. O que também tem o grande perigo de gerar uma arte que, ou se exerce mimeticamente em relação à vulgarização das imagens, ou se centra sobre a sua própria autofundamentação. Por outras palavras: sabemos que qualquer imagem pode ser arte, mas a arte não pode ser uma imagem qualquer. Entre estes dois “qualquer” vai-se construindo o campo da arte de hoje.
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Delfim Sardo
O Exercício Experimental da Liberdade
Orfeu Negro   21€