Diga não ao cruel comércio da morte.

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Teolinda Gersão: "Histórias de Ver e Andar" (2002)


É um impressionante fresco da actual sociedade portuguesa, este Histórias de Ver e Andar, o primeiro livro de contos que Teolinda Gersão escreve em duas décadas de vida literária. São catorze pequenas histórias, muito diferentes entre si, mas que se conjugam como retalhos impressionantes de um país em mudança.
Com uma fina ironia – e, sobretudo, com uma enorme acutilância –, a autora traça retratos fiéis dos portugueses: o executivo egoísta preocupado com a sua segurança; a velha senhora que engana a solidão a passear de eléctrico, ou as jovens colegiais arquitectando um plano para matar uma colega só para aparecerem na televisão e ficarem famosas são exemplos marcantes.
Depois de belos romances como Paisagem com Mulher e Mar ao Fundo (1982), Os Guarda-Chuvas Cintilantes (1984), O Cavalo de Sol (1989), A Casa da Cabeça de Cavalo (1995), A Árvore das Palavras (1997) ou Os Teclados (1999) – alguns deles distinguidos com vários prémios literários – Teolinda Gersão estreia-se no conto. De forma excelente.
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Novos Livros - Quando, em Março de 2000, publicou «Os Anjos», já estava a escrever um livro de contos. É este?
Teolinda Gersão - Sim, este é o livro de contos que eu já estava a escrever em Março de 2000.
P – Em mais de duas décadas de vida literária, porquê só agora o primeiro livro de contos?
R – Só agora surgiu este livro porque me sinto muito vocacionada para escrever romances, que foi o que tive vontade de fazer até agora. No romance há tempo e espaço para desenvolver personagens e conflitos, criar ambientes, fazer a acção passar de uma situação a outra. Tudo isso me fascina, porque penso que tenho o sentido do espaço e da dinâmica das coisas. O romance é ‘musical’, como uma sinfonia (a minha ligação com a música é funda e antiga e surge tematizada na ficção por exemplo em «Os Teclados»). O conto é um mundo diferente, que requer outro modo de contar.
P – Referiu várias vezes que escrever contos é difícil. Em que reside essa dificuldade, para uma escritora habituada ao grande fôlego do romance?
R – A dificuldade do conto é antes de tudo a condensação. Não é fácil conseguir dizer muito em poucas páginas. Não pode haver divagações, deslizes ou erros. O conto tem uma dinâmica própria, que se aproxima muito de um instrumento de precisão.
P – «Histórias de Ver e Andar», título escolhido para o seu livro de contos, foi o nome dado pelos árabes às narrativas de viagem. Porquê este título num livro tão marcadamente português e actual?
R – É verdade que os temas são absolutamente actuais neste livro. O título fui buscá-lo a outra época, mas isso não invalida a actualidade do livro. Usei o título porque ele me agradou. Na verdade são histórias que me surgiram ao ver (a vida de todos os dias) e ao andar (deambulando por aí).
P – Qualquer dos 14 contos de «Histórias de Ver e Andar» é um quadro exemplar da sociedade portuguesa actual. Foi essa a intenção? O livro é assumido, também, como uma crónica de costumes?
R – Penso que sim, o livro é também uma crónica de costumes, um retrato da nossa sociedade, hoje.
P – «Big Brother Isn’t Watching You» reflecte uma sociedade totalmente alienada pela televisão, pelo desejo de aparecer na imagem. É uma situação que a preocupa?
R – Preocupa-me que tudo se transforme em espectáculo, que predomine o ‘vale tudo’, e que haja uma total ausência de valores.
P – «O Leitor» é a história de um homem apaixonado pela leitura. Acha que ainda há pessoas com esse intenso prazer?
R – Acho que ainda existem, e regozijo-me com isso.
P – Qual é o seu conto preferido? Porquê?
R – Não tenho um conto preferido. Mas interessou-me bastante por exemplo o conto «Noctário», porque é contado através de sonhos. Quando eu era muito jovem, e antes de ter alguma vez lido Freud, já os sonhos me fascinavam. Sempre me pareceram literatura em estado puro.
P – A sua produção literária aumentou consideravelmente desde que se reformou do ensino. A disponibilidade adquirida foi importante para esse salto?
R – Claro! Enquanto dei aulas na Universidade por vezes só escrevia no Verão e demorava cinco ou seis anos a terminar um livro.
P – Não sente a falta do contacto com as gerações mais novas proporcionado pela docência?
R – Sinto, e por isso hesitei muito em deixar o ensino. Até porque sempre tive uma óptima relação com os alunos e gostei de dar aulas. Tive, aliás, um número enorme de alunos excelentes, que hoje estão a fazer coisas extremamente interessantes e são figuras conhecidas. Conviver com eles foi para mim muito estimulante.
P – O que está a escrever agora? Vai voltar aos contos ou regressa ao romance?
R -Tenho um romance esboçado, e mais uma série de contos na cabeça.
P – E teatro, vai voltar a escrever?
R – Depois da adaptação de «Os Teclados» para teatro, tive a óptima surpresa de o grupo de teatro O Bando decidir encenar «Os Anjos», em 2003.
P – Que género gostaria de explorar e ainda não teve oportunidade? Já referiu a escrita para televisão: para quando a incursão nesse domínio?
R – Para televisão há um projecto de ser feito um vídeo com o espectáculo de «Os Teclados» que o Jorge Listopad encenou no Centro Cultural de Belém.
P – Tem algum projecto nessa área? O que gostaria de fazer?
R – Gostaria, além disso, de escrever para cinema.
P – Para quando o próximo livro?
R – Não faço planos nem marco datas. Os livros decidem quando estão prontos, não mando neles nem sou eu que decido quando o processo termina.
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Teolinda Gersão
Histórias de Ver e Andar
(Entrevista de Elsa Andrade publicada na "Novos Livros" em Dezembro de 2002)

Julio Cortázar: (Quase) toda a obra disponível


Diogo Madre Deus, editor de Julio Cortázar na Cavalo de Ferro, afirma que "a leitura das suas histórias continua a ser fonte de prazer em obrigação".
A editora já publicou onze obras do autor argentino e anuncia que este projecto editorial vai continuar porque a resposta dos leitores tem sido "bastante positiva". 
Entretanto, acaba de chegar às livrarias o primeiro romance de Cortázar (Os Prémios), que nunca tinha sido publicado em Portugal
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Novos Livros-Depois de uma dezena de títulos já nas livrarias, como está a ser a resposta dos leitores à (re)edição das obras de Julio Cortázar?
Diogo Madre Deus-​ Bastante positiva. Apesar de ser um nome conhecido pela maioria dos leitores, Cortázar tinha até aqui poucas obras editadas em Portugal e estava há muito afastado das livrarias. Agora, o corpus da sua obra está disponível e a ser recebido como novidade editorial.​

Wook.pt - Os PrémiosP-De onde vem o interesse de leitores de várias gerações pela obra deste autor?
R-​ ​Usando um termo vagamente eclesiástico (a expressão não é minha), podemos dizer que a sua obra entrou no chamado cânone literário. De qualidade literária incontestável, mantém intactas a irreverência e  a invenção narrativa mas, ao mesmo tempo, ganhou um sabor clássico sem acusar o «seu tempo». Sobretudo, a leitura das suas histórias continua a ser fonte de prazer sem obrigação.

P-Para os leitores que queiram conhecer Julio Cortázar e a sua obra que percurso de leituras lhes sugere?
R-​ É uma pergunta muito pessoal que pressupõe uma resposta igualmente pessoal.​ Há, pelo menos, três tipos de textos em que a obra de Cortázar pode ser dividida: os volumes de contos, género em que ele é mestre - e nestes, é algo arbitrário se se deve começar, por exemplo, pelo Bestiário ou pelo Final do Jogo ou antes pelo Octaedro - ; os romances - O Jogo do Mundo é claramente indispensável e pode ser lido aos pedaços- e, finalmente as miscelâneas, de que A Volta ao Dia em 80 Mundos é um grande exemplo, onde ele mistura prosas muito diferentes: desde observações e anotações rápidas sobre variados temas, a poesia, artigos, entrevistas «ao espelho» e imagens.  E falta ainda mencionar outro tipo de obra: a ensaistica, onde se (re)conhece um Cortázar «artesão» da sua própria arte e da dos outros.

P-Como editor, tem um livro preferido deste escritor?
R​ Um livro, não, mas textos.​ Uma espécie de antologia pessoal.

P-Que livro é este ("Os Prémios") que acaba de chegar às livrarias?
R-​ É uma verdadeira antecâmara do ​Rayuela porque se vêem(lêem) recursos estilisticos que mais tarde seriam aplicados nesse de forma muito mais radical. Ao mesmo tempo é um Cortazar diferente porque este é um romance coral. 

R-Pensando no futuro: que edições de Cortázar estão previstas para o catálogo da Cavalo de Ferro?
R-​Iremos reunir os contos em volumes completos, juntando aqueles ainda inéditos.
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Até ao momento, a Cavalo de Ferro editou:
-Os Prémios
-O Jogo do Mundo-Rayuela
-Bestiário
-Todos os Fogos o Fogo
-Final do Jogo
-As Armas Secretas
-Octaedro
-Gostamos Tanto de Glenda
-A Volta do Dia em 80 Mundos
-Papéis Inesperados
-Aulas de Literatura-Berkeley, 1980

RITA CANAS MENDES | Como publicar o seu Livro

Rita Canas Mendes tem 32 anos e, entre outras coisas, é consultora editorial. 
Acaba de lançar um excelente manual para novos autores num momento em que há dezenas (ou centenas...) de pessoas a publicar (ou a desejar publicar...) os seus primeiros livros.
Este guia é muito útil pois, ao longo das suas páginas, "ficarão com uma noção muito clara das opções ao dispor e dos erros a evitar".
Para já, um primeiro e decisivo conselho: "O único factor que,  sem margem para dúvidas, fará uma editora dar atenção a um manuscrito é a sua qualidade". Está dito, palavras de especialista.
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P-Num tempo em que tanta gente escreve livros, um livro como o seu faz todo o sentido. Foi essa a sua motivação inicial: escrever um guia para novos autores ou mesmo autores já com obra publicada?
R- Foi, precisamente. Há muitas pessoas a escrever livros, mas, fora do meio editorial, quase ninguém sabe como funciona ao certo a edição. Tenham o livro apenas idealizado, o manuscrito na gaveta ou já tenham obra publicada, o meu guia vem revelar como tudo se processa e dar a todos as ferramentas necessárias para publicar bem. Quando lerem o livro, ficarão com uma noção muito clara das opções ao dispor e dos erros a evitar.

P-Andando um pouco para trás: na sua opinião, porque razão se escreve um livro?
R- As motivações são tão variadas como as pessoas. Em geral, escreve-se um livro quando se crê ter algo a partilhar. O objectivo pode ser ambicioso, como deixar uma marca para a posteridade, ou singelo, como dar forma a um mero desabafo.

P-Dantes parecia que só alguns seriam capazes de ser autores. A capacidade de escrita deu um salto qualitativo ou existe apenas a ilusão de que todos nós poderemos ser escritores? E escritores publicados como tantos actores, políticos, vedetas televisivas ou desportistas...
R- Nas últimas décadas, os níveis de escolaridade aumentaram, tal como aumentou o tempo para o lazer. As pessoas leem mais e têm mais disponibilidade para a expressão escrita. É um óptimo sinal que haja tanta gente a escrever. Todavia, como sucede desde sempre, há autores com maior e menor qualidade, uns que investem mais no aperfeiçoamento da sua arte e outros que ficam satisfeitos com o pouco que fazem. Estamos num ponto em que a edição se democratizou – qualquer pessoa pode publicar um livro –, levando a que haja obras de menor qualidade em circulação – já que as editoras tradicionais não servem sempre de filtro. Abriram-se as comportas. Mas creio que, com o tempo, os leitores se tornarão cada vez mais exigentes. Em geral, porém, o cenário é positivo, e penso que o nível médio de qualidade continuará a subir.

P-Visto de fora, escrever um livro parece ser fácil. Já publicar numa editora, diz-se, pode ser uma aventura de loucos. Será verdade?
R- Visto de fora, pode parecer fácil escrever um livro. Mas - se for bem escrito - está longe de o ser. A escrita – em qualquer área, das mais técnicas às mais literárias, passando pelo livro infantil – exige muita bagagem, longas horas de dedicação. Em comparação com esse esforço, publicar uma obra através de uma editora tradicional não dá trabalho algum. No caso das editoras tradicionais, estamos perante aliados do autor que se encarregam de tudo. O autor negoceia condições e participa no processo, mas quase não tem mais trabalho – nada que se compare com o labor de escrever um livro, pelo menos. No caso da autoedição – em autonomia ou com uma «vanity press» (editoras em que o autor paga para ser publicado) –, o autor já terá mais trabalho, sim. Quanto mais resultados quiser obter, mais terá de se esforçar. Aí, podemos dizer que dá tanto trabalho escrever um livro como publicá-lo. No entanto, há que ressalvar que são dois processos bastante distintivos um do outro, que exigem aptidões muito diferentes.

P-Como consultora, pode dar alguns conselhos a um autor para conquistar uma editora?
R- Os meus melhores conselhos estão ao longo de todo o livro. O principal, diria, é apresentar um original com qualidade. O único factor que, sem margem para dúvidas, fará uma editora dar atenção a um manuscrito é a sua qualidade. Depois, claro, se a obra for pertinente, se o autor se mostrar sensato, se a abordagem à editora for pensada (e não massificada), as suas hipóteses melhoram muito – embora nunca estejam garantidas.

P-E para conquistar leitores?
R-  No caso dos leitores, a qualidade volta a ser o factor decisivo. Independentemente do género e do tema da obra, os leitores só comprarão e recomendarão o livro se ele cumprir critérios mínimos de qualidade. Depois, quanto mais o livro der resposta a uma qualquer procura por parte dos leitores, maior sucesso terá.

P-Para os novos autores, vale a pena esperar por uma oportunidade numa editora ou a autopublicação é o caminho certo?
R- Diria que, se acreditam que o original tem qualidade e terá procura junto do público, vale sempre a pena tentar uma abordagem às editoras primeiro. A autoedição tem muitas vantagens, mas também tem desvantagens. Cada autor terá de ver o que prefere, no seu caso.

P-Em Portugal, edita-se bem ou edita-se mal? Ou, como em muitos outras atividades, há de tudo?
R- Há de tudo, como sempre houve. Por um lado, edita-se melhor do que nunca: temos profissionais mais habilitados, mais acesso à tecnologia, e assim por diante. Por outro lado, como o acesso à edição está tão facilitado, e como há muito quem pense apenas no lucro imediato, vemos por aí livros muito fracos enquanto objetos.

P-Se lhe pedir dois bons exemplos de uma muito boa edição de livros publicados em Portugal, quais lhe surgem imediatamente?
R- A Tinta-da-China tem feito um trabalho notável, tanto na orientação editorial do seu catálogo como no aspecto gráfico. Outra editora que desenvolve um trabalho irrepreensível, pelos mesmos motivos, é a Cotovia. São ambas editoras muito exigentes e com um público específico também muito exigente.

P-Voltando ao seu livro: pode também ser catalogado com um manual "faça você mesmo" a edição do seu livro?
R- Sim. Podemos olhar para ele como um mapa, pois fica-se a conhecer todo o panorama editorial, e como um estojo de ferramentas: os leitores – quer já tenham publicado livros ou sejam estreantes – encontram ali tudo o que precisam de saber caso queiram publicar um livro, seja com um editor parceiro, seja em total autonomia.

P-Há vários anos que se fala no fim do livro em papel e na massificação do livro digital. O que pensa sobre isso?
R- Há muito que se fala nisso, mas já se percebeu que uma coisa não vai acabar com a outra. O livro é um suporte quase perfeito, muito eficaz, e não irá desaparecer nos próximos séculos. No entanto, o livro digital veio para ficar e, em muitos casos, é mesmo a opção que tem mais sentido. Os dois formatos podem conviver perfeitamente, e creio que é o que continuará a acontecer.

P-Para finalizar, ainda é verdadeiro e importante o lema de vida: "escrever um livro, plantar uma árvore e ter um filho"?
R- Esse lema continua a ter cabimento. Um filho, uma árvore e um livro são marcas que deixamos no mundo. Não há nada mais humano – e legítimo – do que a vontade de deixar algo positivo nesta nossa passagem pela vida.
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Rita Canas Mendes
Como Publicar o seu Livro
Bertrand, 16,60€

MANUEL JORGE MARMELO: 20 Anos de Livros


Manuel Jorge Marmelo comemora este ano 20 anos sobre a edição do seu primeiro livro: O Homem que Julgou Morrer de Amor, obra que hoje considera "um primeiro passo, titubeante e pouco firme". Mas este livro foi uma porta que abriu uma carreira recheada de bons livros e vários prémios. 
Jornalista de profissão, o autor afirma que a ficção lhe dá prazer e que os primeiros livros surgiram apenas "pela simples necessidade de fazer coisas e de provar a mim mesmo que era capaz". 
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P-Passaram 20 anos sobre o seu primeiro livro. Olhando para trás, como vê essa sua primeira obra?
R- Vejo-a como um primeiro passo, titubeante e pouco firme, do percurso literário que tenho, depois disso, tentado percorrer. Mas era muito novo, tinha 24 anos quando publiquei O Homem que Julgou Morrer de Amor. Dez anos depois, quando me propus reeditá-lo, percebi o quanto tinha sido capaz de evoluir desde essa primeira tentativa e, por isso, senti-me obrigado a alterar bastante o texto inicial, melhorando-o e aprimorando-o.

P-Como conseguiu publicar? Teve muitas recusas antes da edição?
R- Não. Tive apenas uma recusa, curiosamente da Quetzal, editora com a qual hoje publico. Depois dessa recusa soube do aparecimento de uma nova editora no Porto, a Campo das Letras, à qual levei o original. Tive a sorte de eles estarem a preparar o lançamento de uma colecção dedicada aos novos autores portugueses e acabei por ser o primeiro escritor a ser publicado nessa colecção. Depois disso houve um verdadeiro boom de surgimento de novos autores.

P-Conseguiu imaginar, nessa altura, que poderia tornar-se um dos autores premiados e de referência em Portugal?
R- Não. Nem sequer pensava nisso. Queria apenas escrever ficção, na medida em que era uma coisa que me dava prazer e pela qual eu sentia alguma apetência e curiosidade, desde logo enquanto leitor. Os meus primeiros livros surgiram todos assim, pela simples necessidade de fazer coisas e de provar a mim mesmo que era capaz.

P-De todos os livros que escreveu, tem algum preferido? Qual?
R- Essa é uma pergunta impossível de responder. Quando está a ser escrito, cada livro é merecedor da total dedicação do autor. De outro modo, não chegaria a existir. Mas, quando está terminado, o livro seguinte, ou a ideia do livro seguinte, acaba por concentrar a atenção e a preferência do autor. O livro preferido é sempre o próximo, aquele que ainda é só um germe de livro e que a inépcia (ou as limitações) do autor ainda não prejudicaram.

P-O facto de ser jornalista teve uma grande importância para a construção da sua escrita?
R- Claro que sim. O jornalismo diário, a que me dediquei profissionalmente entre os 18 e os 40 anos, permitiu-me fortalecer o músculo da escrita, tornando-me mais capaz de adequar as ferramentas da língua às ideias, sensações e situações que quero transmitir nos livros.

P-Leituras: autores que o tenham influenciado?
R- São muitos, provavelmente todos os livros que li e de que gostei, e mesmo, se calhar, alguns dos que não gostei. Escreve-se sempre encavalitado sobre uma pilha de livros de outros autores, todos muitos diferentes uns dos outros e, às vezes, aparentemente inconciliáveis. O que há de comum, por exemplo, em José Rodrigues Miguéis e Julio Cortázar? Quase nada. Entre Rubem Fonseca e, por exemplo, Jorge Amado, García Márquez ou Saramago? A mesma coisa, muito pouco. Mas, de algum modo, todos contribuíram para a formação do autor em que me vou transformando.

P-Se pudesse, que livro de outro autor gostaria de ter escrito?
R- Provavelmente todos aqueles de que gostei muito. E são tantos.

P-No seu processo criativo, trabalha em vários livros ao mesmo tempo ou prefere começar e acabar um antes de passar a outro?
R- Trabalho num livro de cada vez e quase sempre a muito custo. Excepto durante o período de quase dois anos em que estive desempregado, tenho de conciliar a literatura com o trabalho e com a vida familiar, com as idas ao supermercado e a cozinha. Sucede muitas vezes que a tentativa de fazer avançar um livro, ao fim do dia, acabe por ser uma de luta desigual contra o sono e o cansaço.

P-Quais são, actualmente, os seus projectos? O que está a escrever?
R- Entreguei um original à editora há algumas semanas e estou à espera de saber o que lhes pareceu. Mas talvez ainda tenha de lhe dedicar algum trabalho para estar realmente pronto. Depois disso espero retomar um projecto com alguns anos.

P-Como se vê, enquanto escritor, daqui a 20 anos?
R- Espero continuar a escrever, a ter ideias e motivação para escrever, e vontade de continuar a tentar fazê-lo um pouco melhor.
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Manuel Jorge Marmelo
WEB: www.manueljorgemarmelo.com

Santiago Camacho: “A destruição da classe média é um facto”



O desemprego, a exclusão social e as desigualdades não param de aumentar, os empregos que restam são cada vez mais mal pagos, a vida tal como a conhecíamos já não existe. O capitalismo está a matar a classe média. Numa linguagem directa e ousada, o jornalista espanhol Santiago Camacho expõe a realidade distorcida por perspetivas ideológicas que ditam a austeridade para as populações e os resgates para os bancos, causadores da crise que há cinco anos destrói Portugal e outros países intervencionados. O autor de “A Troika e os 40 Ladrões” regressa agora com um livro ainda mais contundente: “Como o Capitalismo Acabou com a Classe Média”.
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P – Depois de “A Troika e os 40 Ladrões regressa ao tema da crise económica e financeira. Qual o objectivo?
R – Apesar do título, acho que no livro anterior falei demasiado da troika e muito pouco dos 40 ladrões. Creio que agora é o momento, quando a destruição da classe média tal como a conhecemos é um facto.

P – Pretende dotar as pessoas de informação para perceberem o que lhes está a acontecer?
R – Desgraçadamente não é preciso dizer-lhes o que se está a passar nem o que vai acontecer, pois sofrem-no na pele e vêem que o panorama que se abre ante os seus olhos é muito diferente da vida relativamente cómoda que deixámos para atrás há apenas uns anos. Não, a minha intenção é esmiuçar por que é que isto está a acontecer, quem são os culpados e quem são os beneficiados.

P – A classe média, face ao papel que desempenha nos países democráticos (de que fala no livro), não estará suficientemente informada para perceber o que se passa, ao fim de cinco anos de crise?
R – Essa é só uma parte do problema… O mais grave é que nem os governantes parecem estar suficientemente informados, antes dão mais a impressão de contemplarem uma realidade distorcida pelas suas perspetivas ideológicas.

P – No seu livro detalha com precisão a situação de Portugal. Além de tudo o que tem sido escrito sobre o assunto, fez investigação no terreno?
R – Digo sempre aos meus amigos que se algum dia me perder para me procurarem em Lisboa. Conheço Portugal, visito-o com frequência e, sobretudo, falo (num ‘portunhol’ péssimo, reconheço) com toda a gente que posso. Graças a isso pude ver como o país ia mergulhando numa desesperança que não era senão o prólogo do que mais tarde sucederia no meu próprio país.

P – O que distingue a situação das classes médias de Portugal e Espanha, ambas debatendo-se com elevados índices de desemprego, baixa de rendimentos e dívidas, sobretudo devido ao crédito à habitação?
R – As classes médias espanholas ainda não saíram do estado de estupefação. Considerávamo-nos ricos, a quarta economia da zona euro, vivíamos um sonho e muitos ainda resistem a admitir que terminou. O português é mais apegado à realidade, também um pouco mais fatalista, e, em certo sentido, melhor dotado para lidar positivamente com uma situação deste tipo.

Em Espanha existe o problema acrescido de o endividamento hipotecário ter sido adquirido a preços completamente irreais, inflacionados até ao limite, sem comparação com o resto da Europa, pelo que os espanhóis agora estão a pagar – os que podem – dívidas por propriedades que, em muitos casos, já só valem metade ou uma quarta parte do seu valor de aquisição.

P – A que acha que se deve uma certa passividade das populações dos países intervencionados, se exceptuarmos a grega?
R – Deve-se ao facto de, no fundo, termos mentalidade de vítimas… Uma mentalidade que nos foi inculcada através dos meios de comunicação. Considera-se que isto é uma espécie de desastre natural face ao qual nada podemos fazer ou, quanto muito, delegar nos políticos. Mas não é assim, cada pequena acção tem um efeito, pequeno ou grande, mas tem. Quando nos dermos conta de que a acção é essencial e ninguém vai fazer por nós ou que nós próprios não fizermos, a coisa mudará.

P – A situação de crise e, sobretudo, de desemprego, terá instalado nesses países um clima de medo que leva as populações a não reagirem?
R – Supostamente, mas é parte de um processo e depois do medo vem sempre a ira… No México, onde existe um verdadeiro terror à actual delinquência, deu-se um fenómeno novo: os linchamentos eram um fenómeno isolado – um por ano, não mais. Actualmente há um por semana. Demasiado medo, demasiado tempo, pode ter consequências imprevisíveis.

P – Esse medo instalado poderá explicar, de alguma forma, que os partidos conservadores vençam as eleições nesses países? As pessoas terão receio da mudança?
R – O eleitorado conservador geralmente tende a ser muito mais fiel, mas em Espanha, por exemplo, dá-se um processo fascinante. É muito provável que os conservadores voltem a ganhar, com uma importante diminuição. Mas os socialistas também estão a perder apoio a passos largos. No entanto, nos bastidores começam a esboçar-se novas alternativas, que não estão ainda maduras mas que estarão à medida que consigam a confiança das pessoas.

P – Os bancos recebem ajuda estatal, as dívidas fiscais são perdoadas aos mais ricos. O que poderá explicar a aceitação pacífica da situação por populações que vivenciam enormes privações? 
R – Creio que essa aceitação não é absoluta resignação. Apesar de tudo, mantemos a esperança de que a situação vai mudar. Mas em algum momento teremos de descobrir que as coisas não mudam se não fizermos algo para que mudem.

P – Apesar de um mal-estar generalizado e de protestos organizados, não se assiste a uma verdadeira revolta das populações contra as instituições internacionais (CE, BCE, FMI) e os governos que insistem numa política cujos resultados têm sido contrários aos anunciados: o desemprego dispara, a dívida pública cresce, a economia afunda. Com base na sua pesquisa, o que explica isso?
R – Ideologia, puro e simples fanatismo económico. O mais curioso é que, mesmo quando o FMI reconhece que as suas actuais políticas não funcionam, alguns ainda se empenham em defendê-las e aplicá-las.

P – Como refere, a classe média é cada vez mais uma miragem. Face a uma juventude cada vez mais escolarizada e esclarecida e sem emprego ou perspectivas de futuro, os governos vão conseguir evitar a conflitualidade social ou a despolitização e individualismo dos mais novos evitará uma explosão social?
R – Creio que se passará pelas duas fases… As sociedades evoluem muito lentamente e numa base de teste/erro. A explosão social chegará, de facto está a chegar, da convicção de que só a sociedade civil pode colocar os meios para uma repartição mais equitativa da riqueza.

P – A Alemanha é realmente quem manda na Europa?
R – Sim, excepto nas áreas onde encontra um bloco forte que se opõe aos seus interesses e sempre que esse bloco é liderado pela França. Não é só uma questão de poder económico… Os criadores do projeto europeu estavam convencidos de que a Alemanha era essencial para uma Europa unida e fizeram os possíveis para que o país se sentisse confortável no âmbito da União.

P – As eleições poderão alterar alguma coisa na política alemã relativa à Europa?
R – Creio que não. É como quando nos Estados Unidos muda um governo: são mudanças de consumo interno, a política externa é quase igual haja um republicano ou um democrata na Casa Branca.

P – A Comissão Europeia diz que está preocupada com o desemprego, mas as suas directrizes na troika vão no sentido de aumentar o desemprego, como no caso das reestruturações dos bancos, que exigem sempre redução de efectivos. Esta contradição resulta da situação dos países intervencionados ou é a prova de que os interesses económicos e dos grandes grupos têm prioridade face às populações?
R – Se as políticas que favorecem os bancos e as grandes empresas servissem para criar emprego, por esta altura teríamos de estar a receber imigrantes de todo o mundo para preencher as vagas. Mas não é isso que acontece, a única coisa que serve realmente para gerar emprego é o estímulo à procura, algo que Lula, no Brasil, entendeu perfeitamente.

P – O crescente poder económico e político da China é realmente um perigo para a Europa?
R – É, mas não pelo que imaginamos. A capacidade industrial e de consumo da China é impressionante e será um dos fatores determinantes no final do século. Mas muitos acreditam que a China está à porta da sua própria crise económica e as consequências para os mercados financeiros internacionais serão de grande magnitude e completamente imprevisíveis.

P – Mas a nível global o desenvolvimento dos chamados países emergentes tem contribuído para o crescimento mundial e para a melhoria de vida de milhões de pessoas…
R – E assim deve ser… mas não à custa da “terceiromundização” da Europa. Em geral é um processo positivo que abre novos mercados, o problema é que os benefícios acabam em muito poucas mãos e as consequências negativas afectam-nos a todos.

P – A sua carreira jornalística tem-se centrado em temas como sociedades secretas ou teorias da conspiração. O que o levou a virar-se para a crise económica e financeira? Há alguma relação?
R – Há muita… é preciso não esquecer o que disse o célebre “garganta funda” durante a investigação do caso Watergate: “sigam o dinheiro”. Quando falamos de operações clandestinas de serviços secretos, crime organizado, seitas destrutivas, organizações terroristas ou sociedades secretas, no final o que permite entender toda a trama é compreender as suas finanças. Compreendi-o há anos, quando escrevi um livro sobre a história secreta do Vaticano que, no fundo, acabou por converter-se numa histórica económica do Vaticano.

P – Qual o alvo da sua actual investigação?
R – Depois do que aconteceu com Edward Snowden, Wikileaks e muitos outros assuntos, acho que chegou o momento de escrever uma segunda parte de um livro que foi um grande êxito: “20 Grandes Conspirações da História”. Vivemos dias estranhos, em que o que há uns anos eram teorias de conspiração para paranoicos são agora primeira página dos jornais.
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Santiago Camacho
Como o Capitalismo Acabou com a Classe Média
A Esfera dos Livros, 18€

Eduardo Cintra Torres: "A multidão tem sido um enigma antropológico"


Eduardo Cintra Torres reflecte sobre a multidão e a televisão. Tendo por base a sua tese de doutoramento, fez uma profunda e inédita investigação sobre o conceito de multidão e, depois, parte para a ligação a um dos seus temas de eleição: a televisão.
O resultado é uma obra muito interessante que merece uma leitura atenta. 
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P - De que trata este seu livro "A Televisão e a Multidão"?
R - A multidão tem sido, desde Platão e Aristóteles, um enigma antropológico. É um “ser único”? Tem uma “alma colectiva”? Qual o seu poder de representação (quem representa) e de transformação (de que é capaz)? Desde que comecei a escrever regularmente sobre televisão, em 1996, interroguei-me sobre este enigma “dos muitos” na relação com o media. As audiências seriam uma “multidão à distância”? Como interage a televisão com os muitos? Comecei a ler toda a literatura sobre a multidão. Verifiquei que havia análises muito contraditórias, confusão conceptual, sobrevalorização da dimensão psicológica do fenómeno e desatenção da sociologia. Decidi dedicar a minha tese de doutoramento em sociologia ao tema da multidão, à presença da multidão na televisão e à relação entre ambas. Na primeira parte do livro, faço o que julgo ser o primeiro levantamento em português da teoria da multidão, desde os Gregos até ao presente. Concentrei-me na definição de multidão enquanto ajuntamento de pessoas em espaços públicos com um objectivo. Na segunda parte, analiso em detalhe, à luz da teoria da multidão que fui construindo e à luz das metodologias de análise de imagem, transmissões televisivas com multidão, não apenas políticas, mas também religiosas, musicais e desportivas.

P - De forma resumida, qual a principal ideia que espera conseguir transmitir aos seus leitores?
R - No meu livro concluo sobre a necessidade de a sociologia passar a incluir a multidão entre as estruturas perenes da acção humana, apesar da sua efemeridade. A multidão sempre foi uma vontade de representação do maior número, sempre foi um fenómeno “audiovisual”, pois pretende ser vista e ouvida. Deste modo, a sua articulação com os media audiovisuais tornou-se uma característica que, se tem uma verificação histórica indesmentível, é hoje vital na sua concretização.

P - Podemos dizer que a multidão está a mudar? Dantes, reunida em torno da televisão e, agora, à volta das redes sociais?
R - No sentido que lhe dou, prefiro usar o conceito de multidão para pessoas reunidas fisicamente e o conceito de multitude para pessoas concebidas como reunidas à distância pelos media, como a televisão e as redes sociais. Julgo que há hoje uma articulação entre a multitude e a multidão, mas a multitude das redes sociais precisa da televisão para se consumar como representação audiovisual do maior número. As redes sociais são insuficientes. É necessário passar depois para a reunião física, pessoas que se exprimem pelo som e pela imagem e que necessitam da televisão para legitimar a sua reunião. Foi o que aconteceu na Praça Tahir em 2011, no Brasil e na Bulgária em 2013.

P - A televisão está em queda ou há sinais de que sabe e ainda poderá retomar o seu papel?
R - Como procurei provar num outro livro (A Televisão e o Serviço Público, Lisboa, FFMS, 2011), considero que hoje a televisão se define por uma linguagem própria e por conteúdos próprios, que ela autonomizou ou inventou. Essa linguagem e esses conteúdos não são mais redutíveis nem à tecnologia da televisão, nem aos seus constrangimentos institucionais (canais, empresas, plataformas, etc.). A linguagem e os conteúdos televisivos estão em todo o lado, incluindo a Internet. Influenciaram e influenciam o cinema, a literatura, o ensino, a política, etc. O que está em queda é a televisão generalista, porque, havendo televisão temática e outros media, não precisamos de nos prender a conteúdos que são “demasiado” generalistas para as particularidades de cada um de nós. Mas a televisão generalista continua a ter uma grande força, desde logo por ser ainda o “lugar” onde o maior número se reúne à distância enquanto multitude. E também por ser o “lugar” que melhor concretiza a apresentação da multidão reunida, a qual se “reúne” à multitude que assiste pelo ecrã.

P - Será a Internet capaz de gerar um fenómeno semelhante e substituir a televisão ou ambas irão coexistir?
R- Julgo que coexistirão. Mas, por enquanto, a Internet não criou, que eu note, uma linguagem própria estável e conteúdos próprios estáveis. A história dos outros media permite prever que o fará, pois todos “copiaram” medias anteriores antes de se autonomizarem com linguagem e conteúdos próprios. Por enquanto, o que mais procuramos na Internet são conteúdos televisivos (feitos ou não para a Internet), ou jornalísticos, artísticos, etc. A tecnologia da Internet acrescentou, com uma força extraordinária, as capacidades de interacção e de escolhas dos indivíduos. Mas não originou algo que substitua a televisão (isto é, a sua linguagem, os seus conteúdos), que a torne obsoleta; acrescenta-a.

P - A multidão da era da Internet é diferente das suas "antecessoras"?
R - Penso que há uma grande novidade em algumas multidões, a qual resulta da interacção prévia pela Internet e telemóveis. Antes, as pessoas reuniam-se fisicamente sob a égide de uma ideia única, ou de um pequeno número de ideias, apresentadas por uma liderança única (um partido, uma igreja, etc.). Hoje, há um fenómeno novo: algumas multidões conseguem reunir-se com uma miríade de ideias; parece que cada indivíduo se junta aos outros com a sua própria motivação (ou pelo menos agora exprime-a). Vejam-se imagens de muitas manifestações: muitos indivíduos querem exprimir-se individualmente; enquanto antes se colocavam debaixo de bandeirolas criadas pelos organizadores principais, agora levam os seus próprios cartazes individuais. Há exemplos recentes deste novo fenómeno que resulta da interacção prévia pelas redes sociais. Destaca as manifestações da “geração à rasca”, em Portugal, 2011, e as manifestações no Brasil, em 2013.

P - Esta situação poderá levar ao aparecimento e à valorização de pequenas multidões fragmentadas, geradas online, sem um elemento de liderança, sem controle?
R - Mas hoje já há, como sempre houve, um milhão de pequenas multidões, todos os dias, em todos os países! A multidão foi e é o devir da vontade de um conjunto de indivíduos para se mostrarem e fazerem ouvir no espaço público. Mas a pergunta é justa, pois existem hoje, nas democracias mediáticas, maiores possibilidade e predisposição dos indivíduos para se reunirem em multidão. Vivemos a era da espectularidade da acção, ligada à potência da divulgação mediática. E as redes acrescentam a facilitação das multidões: a interacção online é o velhinho passa-palavra exponencial. A questão da liderança da multidão é complexa. Deve ser valorizada, mas não pode iludir a real autonomia dos indivíduos na decisão de se juntarem à multidão. O controle, numa multidão, também passa pelas decisões de cada indivíduo a cada momento. Há multidões pacíficas, politicas, religiosas, desportivas, musicais, que terminam em tragédia, não acontece apenas com as multidões de revoltados. No meu livro também considero a hipótese da liderança difusa e não necessariamente “humana”. Por exemplo, uma multidão de gente divertida numa discoteca “obedece” a um estranho líder, a música. Isso sucede nas multidões com bandas musicais, com a cadência das botas no desfile musical, etc. No caso das manifestações politicas que referi acima, a liderança poderá ser prévia e do domínio das ideias, isto é, cada indivíduo decide participar porque quer protestar contra ou o aumento de impostos, ou o dinheiro gasto em estádios de futebol, ou contra uma emenda constitucional, etc. Motivos díspares, mas todos reunidos pela ideia comum do protesto e da necessidade de mostrar pelo número, em multidão, a força dessas ideias na multitude.

P-Apesar dos avanços tecnológicos, a televisão continua a ser um meio sem possibilidade de gerar interactividade entre os seus espectadores. Não poderá ser essa a sua principal fraqueza? Sobretudo quando as redes sociais potenciam ao máximo essa sensação de uma relação e de uma partilha?
R – Sim. Mas vejo duas realidades concomitantes, uma antiga, outra nova. Primeiro, o sentimento de partilha é independente da interactividade: quem não sentiu ser importante ver um jogo da Selecção Nacional de Futebol porque “todos” os outros estão a assistir em directo, isto é, partilhando a mesma vivência em multitude? (Já confirmei esta realidade num inquérito de opinião que realizei há alguns anos). Quem não se apercebe da interactividade virtual que a TV encena a toda a hora (“bom dia, para si que está aí...”). Segundo, a tecnologia tem permitido alargar a interactividade real com os espectadores, através dos telefonemas, pagos ou não, ou das possibilidades geradas pelas plataformas digitais.

P - Num outro plano: qual poderá ser o papel do You Tube? 
R – O Youtube parece ter desistido para já de criar os seus próprios canais de televisão. Mantém-se um repositório “democrático” (para todos, mas também para governos, multinacionais e outras instituições) de vídeos e sons. Provavelmente, o Youtube é o estádio actual da linguagem própria da Internet. Quanto à sua dimensão social, vejo-o ligado à multitude e não à multidão.

P – Para terminar: o controle da televisão (pelos meios que envolve e pelos efeitos que pode provocar) foi sempre um objectivo dos vários poderes. Com o perfil disseminador e mais democrático que as redes sociais também representam, que alterações são expectáveis no sistema mediático?
R – Os poderes nunca desistem. A Internet e as redes sociais estão igualmente cheias de comunicação dos vários poderes. Elas próprias são parte de poderes, não apenas o do indivíduo por elas empoderado e da multitude. A disseminação dos media e da nossa atenção obriga os poderes a um esforço adicional para poder manter a sua influência. Não consigo, nem gosto de prever. Julgo que os sinais actuais são os de uma crescente integração dos media (incluindo as redes sociais) devido ao digital. Poucas são as experiências de media partindo “de baixo para cima”. E quando resultam tendem a tornar-se media institucionais, pois só eles têm capacidade de continuidade e de gestão. Mas não há dúvida de que a potencia de democratização tem sido enorme e beneficia os indivíduos.
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Eduardo Cintra Torres
A Multidão e a Televisão
Universidade Católica Editora, 22,20€