Diga não ao cruel comércio da morte.

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Joana Bértholo | Ecologia

1-O que representa, no contexto da sua obra, o livro «Ecologia»?
R- O livro mais recente é sempre o mais importante, porque representa um avanço em relação às investigações e aprendizagens conseguidas com os livros anteriores. Só podia ter escrito o «Ecologia» depois de «O Lago Avesso» e, de outra forma, depois do «Inventário do Pó». No entanto, sinto que, com este livro, volto ao início. Talvez, quem sabe, fechando assim um ciclo. Isso não sei ainda. O que é certo é que, com o «Ecologia», retomo a inquietação que me levou a escrever os «Diálogos para o Fim do Mundo», o meu primeiro romance, publicado na já longínqua década do ano de 2009. Já vivia com imensa perturbação o tema das alterações climáticas, nessa altura, e hoje, quase 10 anos depois, não só nada mudou, como me parece tudo pior. Em termos de consciência, e de negligência. Noutro dia, numa entrevista, dei por mim e dizer uma coisa que, ainda que surpreendente, me pareceu certa: o «Ecologia» é o livro que eu queria ter escrito em 2009 mas não era capaz. Levou-me 10 anos e tantos outros livros, mas algo se cumpre agora.

2-Qual a ideia que esteve na origem deste livro?
R- Desde que me lembro que me inquietam estes fenómenos que normalmente agrupamos como aquecimento global. Além da ciência que quantifica (as espécies que se extinguem, as calotes glaciares que derretem, etc) interessam-me e fascinam-me os processos cognitivos, sociais, culturais, que levam indivíduos em tudo o resto sãos, a desligar-se do seu próprio entorno material, daquilo que lhes dá sustento, chão, casa. Uma neurose que, a meu ver, não está longe de um longo e silencioso suicídio colectivo.  Há uns anos, acompanhei a luta dos agricultores e activistas ambientais contra os grandes laboratórios (Monsanto, Du Pont, Syngenta, Bayer) que querem patentear as sementes agrícolas. Querem ser os donos de uma semente específica, que existe na terra há milhares de anos como património comum, que sempre foi grátis, e quem a queira usar tem de lhes pagar a eles para poder usar uma coisa que, milenarmente, é de todos. Já se vê que é daqui - deste absurdo - que nasce o «Ecologia». É a mesma lógica. O que também quer dizer que aquilo que acontece na minha distopia fantasista, já acontece no nosso mundo, é muitíssimo real. Além de tudo isto, sabia que tinha de falar de dinheiro. Nalgum momento das minhas leituras e reflexões, entendi que não há pensamento ecológico sem se encarar plenamente a questão da usura, da corrupção, do lucro. Todos os crimes ecológicos que possamos aqui debater giram em torno de interesses económicos. É o pináculo da nossa hierarquia de valores, e a própria terra vem depois, como recurso para gerar dinheiro, e não como lar, como casa, como mãe primordial. É absurdo. E é esta, para mim, a principal inversão da nossa sociedade (nisto) doente. E é de tudo isto que nasce o «Ecologia».

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Esperam-me alguns meses consagrados ao teatro. Vou começar agora os ensaios da minha primeira peça longa, o «Quarto Minguante», que estará em cena no Teatro Nacional D. Maria II em Novembro e Dezembro deste ano, com encenação de Álvaro Correia. Logo a seguir, já tenho uns quantos convites para escrever outras peças, e vou estar dedicada a isso. Não imagino que haverá outro romance em breve, por muitos motivos, sendo que o principal é eu ser uma escritora "lenta". Levo muito tempo em leituras e investigações. É o que já ando a fazer. Mas, como disse antes, alguma coisa se fecha com o «Ecologia», e eu não sei bem o quê. Agora é tempo de esperar e escutar, até perceber o que me compete fazer neste depois. 
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Joana Bértholo
Ecologia
Editorial Caminho  23,90€

Joana Bértholo na "Novos Livros" | Entrevistas

Joana Bértholo | Diálogos para o Fim do Mundo

1- O que representa, no contexto da sua obra, o livro «Diálogos para o Fim do Mundo»?
R-Os Diálogos são um momento muito importante para mim. Foram a primeira vez que parei com todas as outras actividades com que sempre me ocupei e me permiti estar uns meses exclusivamente a escrever. Representam a satisfação de se conseguir fechar um primeiro romance, e com isso a resposta afirmativa a uma pergunta que um dia me coloquei a mim mesma: "Mas afinal sou ou não capaz de escrever este livro ?"

2- Qual a ideia que esteve na origem do livro?
R-Eu já trazia o título comigo há três ou quatro anos, mas a Faculdade e sucessivas viagens foram atrasando a escrita. O título, e o universo inicial donde o livro nasceu, partiram de uma fascinação que eu tinha em observar a passividade com colectivamente vivemos perante tempos inusitados em que o equilibrio do planeta está severamente ameaçado. Todos o sabemos, convivemos com essa pressão mediática e ecológica todos os dias, e no entanto... Eu achava a atitude das pessoas uma loucura...! Foi por aí que comecei a puxar o fio à narrativa...

3- Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Estou a começar a preparar o livro seguinte, que ameaça ser muito diferente deste. Este nasce de uma curiosidade sobre um certo ambiente politico e cultural no Portugal dos anos 50/60 e mais particularmente por uma fascinação com o desenrolar biografico de três artistas plásticos portugueses, figuras carismáticas que agarraram a minha atenção e povoaram o meu espírito, e que justamente andavam entre Lisboa e Paris nestes mesmos anos... Mas tudo isto ainda gatinha, estou em fase de pesquisa. Entretanto, estou a escrever sobretudo para o meu doutoramento, o que é uma escrita e um processo bastante diferente da escrita ficcional, claro. Estou curiosa de ver como os dois processos se podem vir a influenciar mutuamente...
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Joana Bértholo
Diálogos para o Fim do Mundo
Editorial Caminho

Joana Bértholo na "Novos Livros" | Entrevistas

JOANA BÉRTHOLO



Joana Bértholo nasceu em 1982. Estudou design e Estudos Culturais. Na sua obra de ficção, destaque para: Ecologia (2018), Museu do Pensamento (2017), Inventário do Pó (2015), O Lago Avesso (2013), Havia (2012) e Diálogos para o Fim do Mundo (2010).
Ao longo da sua breve carreira, já recebeu o Prémio Maria Amália Vaz de Carvalho (2009) pelo livro Diálogos para o Fim do Mundo e ainda: 1.º lugar no Concurso Literário Persona (2006), Prémio Jovens Criadores - Literatura (Clube Português de Artes e Ideias, 2005), o Prémio Jovens Criadores 2005 e o Prémio Escrevendo a Partir da Pintura (FC Gulbenkian, 2000).
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1. O que é para si a felicidade absoluta?
R- Saber estar bem com o que se tem sem se perder a capacidade de sonhar.
2. Qual considera ser o seu
maior feito?
R- Espero que ainda esteja por vir...!

3. Qual a sua maior extravagância?

R- Insistir em navegar pela vida com uma forma de optimismo que facilmente roça o irrealismo.
4. Que palavra ou frase mais utiliza?

R- “Uau, que lindo” v
ariação “wow, brutal” ou agora em Berlim “wie schöne”...
5. Qual o traço principal do seu carácter?

R- Teimosia.

6. O seu pior defeito?

R- É também a minha maior qualidade.

7. Qual a sua maior mágoa?
R- Não alimento. O que passou, passou.

8. Qual o seu maior sonho?
R- Encontrar a minha tribo.

9. Qual o dia mais feliz da sua vida?
R- Hoje, é hoje. Amanhã, espero que seja amanhã.
Não acredito em dias vencedores, mas lembro-me de imensos dias em que pensei “uau, hoje podia bem ser o dia mais feliz da minha vida!”... estava geralmente de viagem nalgum lugar distante a fazer alguma coisa inusitada, pela primeira vez...
10. Qual a sua máxima preferida?
R- Gosto daquela “Os dias que não são teus amigos são teus professores”. E vivo de acordo com algumas que fazem parte dos “Diálogos para o Fim do Mundo” : “Se formos por todos os lados, havemos de lá chegar” é uma delas... 

11. Onde (e como) gostaria de viver?
R- Neste momento, gostaria de viver em Berlim, onde vivo, e gostaria de viver exactamente como vivo. Mas em algum momento gostava muito de vir a viver numa pequena comunidade, com pessoas próximas, certamente mais perto do Oceano, e talvez sair da cidade.
12. Qual a sua cor preferida?
R- Não tenho, gosto que exista o arco-íris.

13. Qual a sua flor preferida?
R- Não tenho, gosto que existam jardins.

14. O animal que mais simpatia lhe merece?

R- Nenhum em particular, gosto da arca de Noé.

15. Que compositores prefere?

R- Não tenho favoritos, diferentes compositores marcaram diferentes fases de vida, e tenho mais estima por uns que outros por conjecturas muito emocionais, e aleatórias. Estes dias ouço muito fado e muito tango, e muita “música do mundo” .

16. Pintores de eleição?

R- Toca-me o trabalho de Rothko, Klimt, Rivera, Tapiés... E tenho uma total admiração pelos clássicos holandeses e italianos, assim como uma fascinação pelos nomes óbvios – Picasso, Van Gogh...como eleger?... no geral sou mais dada às artes performativas, e os meus artistas de eleição são quase todos actores, dançarinos, ou noutra dimensão, os realizadores de cinema...
17. Quais são os seus escritores favoritos?

R- A obra da Agustina Bessa-Luis continua para mim a ter um lugar de destaque. Claro, Saramago, o Pessoa, o Eça. Também adoro Gonçalo M. Tavares, Mário de Carvalho, Lobo Antunes...Gosto da sensação de haverem tantas vozes com tanta qualidade, que esta lista seja longa. Se sair além fronteiras, então, é um Mundo. Trago sempre Calvino atrás, para onde quer que vá, e como o ano passado vivi na Argentina, ainda desfruto estes dias da fascinação da descoberta de Borges, Cortázar, etc.

18. Quais os poetas da sua eleição?

R- Herberto Helder. Mas devo acrescentar que leio pouco poesia.

19. O que mais aprecia nos seus amigos?

R- Que me espelhem as minhas limitações com amor.
20. Quais são os seus heróis?

R- Fascinam-me os heróis anónimos, os actos incógnitos de bravura e generosidade, aquelas pessoas que melhoram a vida de todos em seu redor sem nunca aparecerem em jornal ou memorial de nenhuma espécie.

21. Quais são os seus heróis predilectos na ficção?
R- Não tenho. Cada herói nos fala de uma capacidade inexplorada de nós mesmos – há que mantê-las no infinito...

22. Qual a sua personagem histórica favorita?

R- Há tantas vidas dignas de serem mencionadas e as quais admiro... no geral são pessoas que transcenderam a sua biografia individual ao serviço dos outros, e os nomes todos os conhecemos: Gandhi, Martin Luther King... felizmente não nos faltam fontes de inspiraçã a esse nível...

23. E qual é a sua personagem favorita na vida real?

R- Aquela que me coube a mim representar todos os dias no palco da vida...

24. Que qualidade(s) mais aprecia num homem?

R- Que não tema o feminino em si. Nem o masculino. Que não tema, enfim: Coragem.
É muito lugar-comum da minha parte, bem sei, mas sempre gosto de homens que me façam rir.
25. E numa mulher?

R- Que não tema o masculino em si. Nem o feminino. Que não tema, enfim: Coragem.
Vivemos uma época bonita para se ser mulher... aprecio mulheres que vou encontrando que estão bem cientes disso, e são cada vez mais.
26. Que dom da natureza gostaria de possuir?
R- Que dom da Natureza é que eu não possuo?...

27. Qual é para si a maior virtude?

R- Um profundo e luminoso sentido de humor.

28. Como gostaria de morrer?

R- Nunca dediquei muito tempo a pensar nisso, e talvez não seja ainda a altura para começar...

29. Se pudesse escolher como regressar, quem gostaria de ser?
R- Não sei. Estou tão entusiasmada com esta vida que sinceramente tento não dedicar tempo nem a pensar na próxima, nem nas anteriores...
30. Qual é o seu lema de vida?

R- Tentar manter em mente que os lemas de vida são apenas barómetros inspiradores os quais seguir a cada momento, e como tudo, também se desactualizam. Como lema: não me agarrar demasiado a nenhum lema, nem a uma convicção, muito menos a um desejo.