Algumas pequenas coisas de Claire Keegan

CRÓNICA
| Célia Gomes
O livro «pequenas coisas como estas» é confecionado com pequenas descrições, pequenas imagens, pequenos silêncios e pequenos atos imensamente grandes, e que fazem deste livro Natal. Natal não por a narrativa se desenrolar na época Natalícia, plena de neve e de encanto, mas sim pela essência do seu conteúdo e a reflexão que provoca no leitor. Keegan começa por descrever o protagonista, Furlong, comerciante de carvão, a sua família e as suas rotinas simples mas satisfatórias. “Furlong, ao ver como as raparigas cumpriam as pequenas coisa necessárias, sentia uma alegria íntima e profunda por elas serem suas filhas”. Um homem esperançoso e crente na humanidade: “As pessoas podiam ser boas, lembrou Furlong a si mesmo, era uma questão de aprender a gerir e equilibrar o toma e dá, por forma que se entendesse bem com os outros e também com os seus». Talvez esta seja uma boa caracterização do que é a paz. E é no contexto, de uma vila Irlandesa, pacata, alva de neve e iluminada por luzes festivas, que a autora descreve, com a leveza de um floco de neve ao cair no chão, hábitos familiares, a mesquinhez social e a falsidade humana de uma Irlanda dos anos oitenta, em crise económica e política, em que a religião tem voz, ou melhor tem garras aguçadas, escondidas no meio de um pelo supostamente macio que muitos afagam com submissão. Religião hipócrita, falsa, castradora e aliada dos socialmente poderosos . Religião representada nesta obra, pelas “irmãs do bom pastor” que tinham a seu cargo um convento, onde funcionava uma pretensa escola de formação e uma lavandaria e tinham na boca o credo do amor ao próximo e no coração a frieza e o desprezo pelos frágeis, pelos desprotegidos e pelos pobres. “Havia comentários de todo o género sobre o convento. Algumas pessoas diziam que as raparigas da escola de formação, passam o dia a fazer penitência, tirando nódoas de roupa suja e trabalhando de sol em sol”. E foi esse o mistério que Billy Furlong desvendou, no meio de reflexões e de conversas com ele próprio (as melhores que podemos ter!). Reflexões que revelam um homem humilde, carregado de emoções e um tanto desorientado, à procura de diferentes caminhos. “Será que as coisas nunca mudariam, nunca se tornariam diferentes, novas? Ultimamente tinha coimeçado a pensar no que era importante para ele, além de Eileen e das filhas. Estava quase com quarenta anos, mas não se sentia a chegar a lado nenhum, nem a fazer nenhum génro de progresso, e por vezes não podia deixar de se perguntar qual o sentido dos dias”. Mistério composto por gritos femininos de dor e medo que o” adeste fideles “, cantado em voz alta, sufocava. Brados de raparigas que queriam fugir daquele lugar de medo, a quem as “caridosas irmãs» tiravam os frutos do ventre e a esperança. Keegan é com mestria que suavemente e com ironia casta os podres destapa. Particularmente gostei da descrição do presépio instalado na praça principal da vila. «Houve quem se queixasse de que S. José parecia demasiado berrante com a sua túnica vermelha e roxa, mas a virgem Maria passivamente ajoelhada e nos habituais tons azuis e brancos , foi aprovada por todos». A hipocrisia, a pequenez humana aqui representada no presépio. A valorização, presente em quase todas as páginas, das rotinas úteis, discretas, urgentes e necessárias. Mas as coisas urgentes nem sempre são as mais importantes E muitas vezes os atos importantes são simples, não são onerosos, nem exigem esforço físico ou intelectual. Talvez exijam esforço e treino emocional. são atos que brotam do carácter e do coração. São atos Natal, como o que teve Furlong após o vazio dos pensamentos que o assolavam. “Estava quase com 40 anos e não se sentia chegar a lado nenhum”. Furlong conseguiu ultrapassar este vazio e chegar. Chegar ao outro. Conseguiu acender com o carvão que vendia e com o fosforo do seu coração, um fogo a crepitar de acendalhas de solidariedade, compaixão, amor pelo próximo.” Para obtermos o melhor das pessoas, devemos tratá-las bem. Esta frase é a frase luz do livro e também do Natal.
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Claire Keegan
Pequenas coisas como estas
Relógio d’Água 15€

