João Carlos Melo: “Conhecer e compreender o que são os medos e quais os seus significados”

1-Qual a ideia que esteve na origem deste seu novo livro “A Coragem de Ter medo”?
R-O medo é uma emoção universal e faz parte da natureza de todos os animais. Ao longo da minha vida profissional tenho constatado que o medo, quando acentuado e não compreendido, está na raiz de praticamente todas as doenças psiquiátricas e constitui o motor de muitas formas de sofrimento.
A consciência destes factos e a necessidade de os compreender melhor, aliadas à motivação para ajudar as pessoas a lidarem melhor com os seus medos foram os principais fatores que me levaram a estudar melhor o tema e a escrever este livro.

2-Centra o seu livro em vários medos muito comuns e conhecidos: medo de andar de avião, medo do escuro, medo de falar em público. Que mecanismos ou armas podemos usar no dia a dia para combater estes medos, digamos, mais comuns?
R-O primeiro e mais importante passo para lidarmos com os nossos medos é sabermos que todos temos medos e aceitarmos esse facto. Isto pode parecer óbvio, mas se pensarmos que as pessoas tendem a não assumir os seus medos e a fugir deles, poderemos compreender melhor o sentido da afirmação.
Depois, é importante conhecer e compreender o que são os medos e quais os seus significados, admitindo que há medos não conscientes que estão escondidos por detrás de outros. Dou alguns exemplos. Por detrás do medo da morte pode estar a angústia de separação e de abandono. A dependência emocional pode estar na raiz do medo do abandono. O medo de animais pode ter origem no medo da mutilação. O medo de andar de avião pode significar o medo de não ter controlo sobre os acontecimentos. O medo do escuro pode significar o medo dos nossos fantasmas internos (diga-se de passagem que não há fantasmas externos). O medo de falar em público pode ser uma manifestação do medo do ridículo e de sermos alvos de troça.
Ao compreendermos estes e outros mecanismos podemos passar a encarar alguns medos de forma mais natural e tranquila. Quando os medos são muito acentuados e provocam sofrimento e limitações na vida das pessoas, torna-se necessário ajuda técnica com medicamentos e psicoterapia.

3-Numa outra dimensão estamos a atravessar tempos complexos de grande instabilidade a nível global e, muitas vezes, também a nível familiar ou mesmo pessoal. Vivemos numa mistura explosiva de guerras, crises, violência, insegurança, instabilidade social, problemas laborais, entre muitas outras realidades. Como podemos lidar com esses medos a que não só não estávamos tão habituados e que, de certa forma, têm origem em situações que não conseguimos controlar?
R- Como já referi, o mais importante é sabermos que todos temos medos e aceitarmos esse facto. Há medos universais, que sempre existiram e hão-de continuar a existir porque fazem parte da própria natureza humana, como os medos da morte, das doenças, da separação, do abandono, de sermos risíveis, da mutilação e da perda de autonomia, ao ponto de muitos medos serem variantes ou manifestações destes.
Os medos que referiu são medos modernos, digamos assim. Mas houve outros, mais antigos, a que também não estávamos habituados e em relação aos quais não tínhamos controlo, como as tempestades, os animais predadores e muitas doenças.
Do mesmo modo que, quando se mudam os tempos também se mudam as vontades, como dizia Camões, a propósito dos medos podemos afirmar que “mudam-se os tempos, mudam-se os medos”. Ainda assim, temos os medos universais, que sempre existirão.
O respeito pelos outros, pelos direitos dos outros, pelo planeta e pelo ambiente seriam os melhores antídotos para muitos dos medos atuais. Mas isso depende muito das mentalidades e das vontades políticas.
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João Carlos Melo
A Coragem de Ter Medo
Bertrand  16,60€

João Carlos Melo na “Novos Livros” | Entrevistas

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