Bons livros, boas leituras

Rui Manuel Amaral é autor de dois livros de ficção: Caravana
e Doutor Avalanche. Escreve regularmente em jornais e anima tertúlias e espaços
sobre livros e literatura. As suas escolhas foram:
1.
O Bom Soldado Švejk, Jaroslav Hašek.
A nova tradução para português de uma das mais perfeitas e
divertidas sátiras ao militarismo da história da literatura. Švejk, o
personagem principal, é um soldado astuto e malicioso, herói involuntário da
primeira guerra mundial, cujas aventuras revelam, capítulo após capítulo, todo
o absurdo da guerra.
A propósito deste livro, não posso deixar de referir outra
obra-prima do mesmo período: “Os últimos dias da humanidade”, de Karl Kraus
(edição da Antígona). Embora se trate de escritores bastante diferentes, Hašek
e Kraus foram, nas primeiras décadas do século XX, duas vozes mais ou menos
isoladas na denúncia do mal absoluto da guerra, recorrendo para isso à mais
letal das armas literárias: a sátira.
2.
Rashomon e Outras Histórias, Ryünosuke Akutagawa.
É a primeira edição em Portugal de um volume de contos de
Akutagawa. Antes desta, existia já uma excelente antologia em língua
portuguesa, da editora brasileira Hedra, mas sem distribuição entre nós.
Akutagawa é um dos grandes mestres da literatura japonesa moderna e este livro
reúne vários contos do autor, entre eles o famoso “Rashomon”, que conheceu uma
versão para cinema de Akira Kurosawa, “Rashomon – às portas do Inferno”.
Akutagawa é um escritor com um domínio impressionante das técnicas da
narrativa. A sua escrita, na melhor tradição da grande literatura japonesa, é
económica, delicada, sensível e luminosa. Mas de uma luminosidade terrível e
carregada de ironia, que põe a nu, de forma brutal, as múltiplas fragilidades
da natureza humana.

3.
Contos, Luigi Pirandello.
Não é a primeira vez que os contos de Pirandello são
publicados em Portugal. Esta antologia da Relógio D’Água é, presumo, uma
reedição da tradução que Graziella Saviotti Molinari publicou em 1947, na
extinta editora Gleba.
Pirandello é um dos “meus” escritores. Cultiva um humor
muito particular, original e difícil de definir, às vezes macabro, outras vezes
trágico e desesperado. No prefácio da edição de 1947, Graziella Molinari
escreve que os contos de Pirandello “apareceram em volumes variamente intitulados,
mas foram depois por ele próprio reunidos sob o título complexivo de Contos
para um Ano
. Tencionava, pois, escrever 365.” Esteve perto: escreveu cerca de
300.
Jaroslav Hašek, O Bom Soldado Švejk
(Tinta-da-China, 32€)
Ryünosuke Akutagawa, Rashomon e Outras Histórias
(Cavalo de Ferro, 16,50€)
Luigi Pirandello, Contos
(Relógio d’Água,17€)