Gonçalo M. Tavares e os desenhos de Julião Sarmento

CRÓNICA
| Rui Miguel Rocha
Este livro foi-me oferecido por um amigo que, entre outras coisas, é artista plástico e veio com uma dedicatória do autor a mim dirigida. Nunca me cruzei com o Gonçalo. Já o livro. Bem. Desculpem algum possível caos, mas aqui vai.
Juntar as palavras ao silêncio é sempre uma forma de produzir ou mostrar a arte por detrás das formas perseguidas. Devemos sempre partir para alcançar o belo ou construir para alcançar o belo. O belo não gosta de coisas paradas. As coisas imensas podem ser frágeis e as pequenas coisas podem ser mais duras que o mais duro dos elementos (li há pouco em outro sítio que se conseguíssemos encolher o planeta terra até ao tamanho de uma bola de bilhar, a terra seria menos dura do que a bola).
Quando não se entende algo, uma obra de arte, uma pessoa, a si mesmo, deve-se começar a pensar sobre isso: não devemos abandonar o que não compreendemos a não ser que o resultado final seja o ódio ou algo violento e mau.
Dar um piparote na monotonia. Pode ser esta a função da arte – se pensarmos que a arte necessita mesmo de função. Um martelo pode ser arte mas pode também fazer gritar de dor.
Desenhar mãos. Aprender a lentidão.
Nem sempre se chega ao que se quer através da escrita, mas a capacidade do ser humano de fugir ao seu destino não é de menosprezar.
O avesso de tudo é o avesso de nada. As costas das costas.
Sei que não estou a ser claro, mas foi isto que o livro me deu.
As esculturas são feitas do material que se retirou à volta, do material que se escolheu não retirar e do próprio ar que as envolve, a forma como desviam o vento, o local onde permanecem, as mãos que lhes vão tocando e os olhos que já não as vêem.
A arte: se não te interessares, o mundo é a tua aldeia e é plano como uma tábua de passar a ferro. É isso que os maus desejam de nós: descanso sem desconcerto.
A mim não me apanham.
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Gonçalo M. Tavares (com desenhos de Julião Sarmento)
A Pedra e o Desenho
Relógio d’Água 15€

