Jorge Mota | Um Pouco Mais de Luz: Explicando o Electrochoque

1-Qual a ideia que esteve na origem deste seu livro «Um Pouco Mais de Luz: Explicando o Electrochoque»?
R-O recrudescimento de interesse nesta técnica, motivado pelas novas máquinas de electroconvulsivoterapia, provocou a curiosidade dos alunos de medicina e enfermagem a quem dava formação. A compreensão de que existe muita ignorância e mito sobre o tema, aliado à minha própria desactualização sobre o mesmo, bem como o desenvolvimento de novos modelos de compreensão do seu efeito terapêutico, motivou uma viagem de descoberta iniciada em 2012 que procurei traduzir neste livro. É fundamentalmente uma descoberta da técnica, acessível tanto a médicos que a queiram praticar e prescrever, como à comunidade em geral que necessite informação sobre esta terapêutica. A saúde mental é fundamental, e não é razoável que os utentes que necessitam decidir se querem ser submetidos a este tratamento, o façam munidos de desinformação que os afastará daquele que poderá ser o tratamento que procuram há muito tempo.
 
2-Os electrochoques são (ainda) um tema polémico e, até, controverso. Há razões para isso ou tem mais a ver com o contexto: filmes, livros e outras formas de exploração de assunto?
R- A imagem da técnica foi criada nos anos setenta no auge do movimento anti-psiquiátrico. Paradoxalmente, foi graças à anti-psiquiatria que a técnica evoluiu ao seu actual estado da arte; paradoxalmente também, este estado nada tem a ver com a imagem que permanece. O mediatismo, e medos presentes no inconsciente Humano e projetados na eletroconvulsivoterapia, aliados a uma irresponsável necessidade de dramatismo e audiência, prevalecem hoje sobre a formação e informação da sociedade, e nada de bom pode advir da ignorância.
 
3- Qual é, actualmente, o estado da arte em Portugal (e noutros países) sobre este tema?
R- A eletroconvulsivoterapia passou por diferentes fases, sendo que caracterizo a atual como a ‘terceira geração’ da técnica. Preconiza-se que a precisão técnica das máquinas de pulsos ultra-breves, aliada a novos procedimentos de doseamento, devem tornar-se prática corrente com abandono de técnicas e procedimentos mais imprecisos e desatualizados. Esta prática tem-se expandido em diversos países, como em Portugal, com um reconhecido sucesso que se traduz numa corrente de produção científica médica de qualidade. Contudo, ainda poderão ser utilizadas máquinas de segunda ou mesmo primeira geração, em países ou centros médicos onde se desvalorize a modernização da técnica ou não existam meios financeiros para essa modernização. A prática é, por isso, heterogénea tanto a nível nacional como internacional. Há países onde, por razões políticas históricas e por preconceito, a técnica é rejeitada ou mesmo proibida, como acontece em Itália, berço da eletroconvulsivoterapia.
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Jorge Mota
Um Pouco Mais de Luz: Explicando o Electrochoque
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