José Eduardo Agualusa e Deus

CRÓNICA
| Rui Miguel Rocha

E se um livro fosse uma epifania? Um sonho de uma das personagens, de todas as personagens, um pensamento vago do narrador ao passar pela areia molhada, junto ao mar. E se o autor existir na existência desses sonhos e dessas personagens? Este livro é um breve e delicado e belo pedaço da existência, merece existir, veio de um lugar mágico onde estão escondidas as verdadeiras palavras e foi lido com olhos de lágrimas de sal, mas também com todo o restante corpo, foi lido rente ao chão onde são sussurrados os segredos. Um poeta a morrer numa igreja no deserto em frente ao mar. A amizade que não existe se não for trabalhada como se não o fosse. A perda lancinante como uma amputação de uma parte da alma, mais tarde redimida e preenchida e inaugurada. A magia de África em cada som, sem certezas, sempre dúvidas “Deixo as certezas para os fracos”. Onde cabe deus aqui? Onde está tudo sobre deus? Talvez no espanto perante tudo o que existe e não existe, tudo o que acontece e aconteceu e acontecerá ainda, connosco ou na nossa ausência que pode não ser ausência mas presença inefável. “Espantar-se é VER como as crianças. Não por ignorância – mas porque não se perdeu ainda o vínculo com o real.” Há palavras nunca ditas mas que deviam ter sido ditas e não as tivemos à mão no momento certo, mas se dissermos agora que mal tem? “Vamos procurar um lugar onde a vida não te doa tanto.” E agora que acabei o livro dou-me conta que não o li porque por ele fui atravessado. Agualusa no seu melhor “Ana Maria trouxe-me água. Era vinho. Ou sangue. Ou lágrimas que envelheceram demais.”
É por coisas destas que o tempo às vezes pode parar.
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José Eduardo Agualusa
Tudo Sobre Deus
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