Philippe Collin e o insidioso aviltamento das almas

CRÓNICA
| Rui Miguel Rocha
Comprei o livro a contar com um hino à elegância e à joie de vivre, pensei que ía passar uns dias no Ritz à conversa com Hemingway (que apareceu pouco) ou com Fitzgerald (que nos galanteia e vai embora), mas afinal este é um relato de um homem (Frank Meier) amargurado, um homem triste que ama à distância e que odeia perto, mas disfarça, parece tolerar, sorri e conversa com o inimigo invasor. “Algo que se vai vendo por aí: O que Frank mais temia está a acontecer diante dos seus olhos: a arma mais temível dos nazis – o insidioso aviltamento das almas.” É um homem que sabe não ter feito tudo o que devia, não se sabe se por falta de coragem ou por outro espírito de missão menos louvável. O que é certo é que acorda todos os dias para um espelho que o repele. É portanto um livro triste sobre a capacidade de adaptação e cedência ao insensato e ao inverosímil, focando-se os actores na sobrevivência, uns com mais garbo, como o próprio Meier, outros nem tanto como mademoiselle Chanel ou a própria viúva Ritz. “A situação exige um cinismo desmedido, mas terá ele coragem suficiente? E quanto tempo conseguirão resistir sem corromperem irremediavelmente a alma?” Há sempre alguém a piorar as coisas entre os amigos, mas há também inimigos galantes e tudo é difícil quando se pretende tomar decisões.
O relato salta do diário do barman para um narrador que não toma partido. Há frases que chocam “A ementa do restaurante já está em alemão.” É assim a capacidade de adaptação aliada ao medo de morrer. Mas nunca se sabe o futuro, é difícil adivinhá-lo quando todos os dias são diferentes e surreais “Nunca se desconfia o suficiente das consequências de uma humilhação, concorda?” Claro que concordo. Por vezes, não se perdoa nem àqueles que nos ajudaram em tempos de aflição. A História deu-nos tanta matéria para aprender, e mesmo assim, tudo se repete até à náusea: “Será isso suficiente para nos tornar canalhas?”
Claro que é. Mas quem somos nós para o julgar?
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Philippe Collin
O Barman do Ritz
Presença

