Viriato Soromenho-Marques | Depois da Queda

Foto: Veríssimo Dias
1-Qual a ideia que esteve na origem deste livro “Depois da Queda”?
R-O que me motivou a escrever este livro foi a necessidade de partilhar com os leitores aquilo que me parece ser o aspecto essencial da crise europeia, e a chave de uma eventual solução para a longa crise em que o projecto europeu se arrasta. A tese central do livro consiste na ideia de que o projecto europeu estará condenado a agonizar e a fragmentar-se, mais tarde ou mais cedo, se os problemas matriciais da moeda comum não forem resolvidos. Os temas da União Europeia são complexos, mas não são opacos. Procuro explicar do modo mais lúcido e claro que me foi possível os detalhes principais de uma espécie de pacto aventureiro e profundamente irresponsável que foi assumido pelos construtores do euro no Tratado de Maastricht, em Fevereiro de 1992. Procuro demonstrar como estaremos condenados a perder tempo se tentarmos analisar os problemas do populismo, dos refugidos, da (ausência) de política de defesa, da deriva autoritária de países como a Hungria ou a Polónia, da corrupção e fuga ao fisco em larga escala, sem os relacionar com o coração da crise: a péssima estrutura de funcionamento e governação do euro, que é um travão ao desabrochar de uma verdadeira unidade europeia, democrática, funcional e efectiva. A chave do futuro da Europa reside na construção de um verdadeiro federalismo económico, monetário e político. Tudo o resto depende desta tarefa por realizar.
 
2-A Europa tem sido um dos seus focos de reflexão: em 2019, o que poderá ainda acontecer a nós, Portugueses, neste ambiente de absoluta incerteza?
R-O que acontecer a Portugal acontecerá, com variações não demasiado significativas, também aos outros povos da zona euro e da União Europeia. Se a implosão do euro ocorrer, não haverá santuários. Em 2019, é provável que o projecto europeu continue nas mãos de líderes que nunca acreditaram verdadeiramente na unidade europeia. A diferença é que até aqui, dominaram aqueles que poderemos designar como nacionalistas liberais, de que a chanceler Merkel é o “tipo-ideal”, que utilizaram a União Europeia como veículo para uma hegemonia moderada das suas economias e países (não é possível perceber o sucesso do mercantilismo exportador dos últimos 25 anos da economia alemã sem compreender que o euro foi estruturado como uma espécie de marco para a época da globalização). Contudo, depois de Maio, a tónica dominante no nacionalismo poderá mudar de tom. É provável que o papel dos nacionalistas iliberais tenda a ser ainda mais relevante. Personalidades como Salvini ou como Marine le Pen (com fortíssimas probabilidades de vir a substituir Macron, cujo percurso é no mínimo desastrado) encaram a União Europeia não como um veículo, mas como um obstáculo para as suas economias. A Itália, completamente, e a França, parcialmente, são perdedoras do euro. Quando tiverem poder, elas vão tentar “reformar” o euro. Mas, a mistura tóxica entre nacionalismo e incompetência que caracteriza estes nacionalistas iliberais, poderá dar a estocada mortal neste processo de agonia lenta, que tem tudo para se arrastar ainda durante muitos anos.
 
3-Apesar das dificuldades, contradições e obstáculos: a Europa tem futuro? 
R-A Europa tem condições materiais e culturais para ser a potência mais marcante no sistema mundial. Só a mediocridades de quem teve a ousadia de se meter na política, por vaidade e ambição, sem preparação adequada, nem ter nada a propor para um futuro melhor, é que explica o desastre para onde caminhamos. A União Europeia tinha condições para ser uma força hegemónica benigna global, capacidade para reconstruir um directório mundial pacífico com os EUA, a China, a Índia, o Japão, e o Brasil. Um directório para combater os riscos existenciais da crise ambiental e climática e da distopia tecnológica em que estamos mergulhados. Mas para isso, a Europa teria de apostar numa verdadeira revolução federal, que aumentaria, simultaneamente, a democracia e o poder europeus. Essa hipótese não está ainda excluída. Mas temos de confessar que, por inteira culpa nossa, estamos mais perto do cenário sombrio de uma Europa fragmentada e empobrecida, repartida por zonas de influência dos EUA, da Rússia e da China. 
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Viriato Soromenho-Marques
Depois da Queda. A União Europeia entre o Reerguer e a Fragmentação
Temas e Debates/Círculo de Leitores  14,40€