José Eduardo Franco | Europa e Portugal

1-Qual a visão predominante e mais significativa dos portugueses ao longo dos tempos sobre esta realidade multifacetada que é a Europa?
R-A nossa relação com a Europa foi muito funcional a diversos níveis e graus com variações na longa duração. A Europa, ou a imagem que construímos dela, funcionou ora como Palco (de legitimação e reconhecimento), ora como Espelho (de comparação, avaliação), ora como Meta (patamar, modelo de progresso a atingir), ora ainda como Porta de entrada para a “pátria” maior do progresso. A partir do chamado Século das Luzes com Pombal, a Europa dita civilizada, polida e do progresso torna-se omnipresente no discurso político reformista português. A Europa apresenta-se como meta de referência atingir, como lugar, ao mesmo tempo mítico e utópico, que Portugal deveria perseguir para superar o seu grave atraso e obscurantismo. A nossa híper-focagem na Europa acentua-se no discurso cultural do século XIX, através do cultivo de uma visão pessimista e deprimida da situação de Portugal, que engendra o complexo de país-cauda-da-Europa, do qual ainda hoje não nos libertámos totalmente. A leituras demasiado críticas de nós enquanto povo, erguendo a Europa como meta a atingir mas nunca plenamente alcançada, fabricaram o mito luminoso da Europa na cultura portuguesa e contribuiu, muitas vezes, para a nossa baixa autoestima enquanto “comunidade imaginada”.

2-O estudo sobre a relação de Portugal com a Europa atravessa vários séculos: o que mais o surpreendeu na sua pesquisa?
R-Surpreendeu-me o modo como nós temos normalmente olhado para a Europa ao longo dos séculos. Estando situados, enquanto país, geograficamente no continente europeu, tendemos a percecionar a Europa como um mundo à parte, como se não fizéssemos parte desse espaço. Muito vezes o nosso discurso sobre a Europa faz de nós uma espécie de país-ilha dentro da Europa. Este modo de falar e de imaginar da Europa representa-nos como uma realidade política cultural, social, identitária separada. O nosso imaginário da Europa, mitificada e representada com entidade distante com quem nos queremos relacionar e aproximar, criou, nos últimos séculos, um complexo de atraso, de país-cauda-da-Europa, que tende, do ponto de vista da mentalidade, a inspirar-nos comportamentos políticos e sociais de subalternidade, de submissão, de menoridade. Esta disposição atávica de mentalidade dificulta e tende a colocar-nos numa posição frágil na relação com o Projeto Europeu.

3-Nos nossos dias, que Europa vemos ao espelho de Portugal?
R-O espelho parece-nos menos desfocado! Nos últimos anos, temos observados alguns sinais de mudança lenta dos acima referidos “tiques de mentalidade” na nossa perceção e relação com a Europa. As novas gerações, ou melhor, as gerações que estão em fase de formação escolar e universitária, terão maior sentido de pertença à Europa do que as gerações mais velhas. Tem havido uma aposta na “formação europeia” através de programas de mobilidade e intercâmbio que promovem o convívio entre pessoas de diferentes estados e favorecem uma aproximação maior, também “afetiva”, para além das fronteiras nacionais e culturais. Se este investimento na educação para a Europa continuar, as futuras gerações serão mais europeístas e não quererão regressar a uma lógica de vida nacionalista fechada. Um indicador foi o referendo em Inglaterra que deu a maioria aos defensores da saída da União Europeia, o chamado brexit. Os mais jovens escolarizados das grandes urbes eram mais favoráveis à Europa. A aposta na educação e no conhecimento do “outro europeu” e na mobilidade dos cidadãos dos diferentes países do nosso continente contribuirá para superar ou, pelo menos, atenuar o nosso imaginário negativo de nós próprios enquanto povo e equilibrar a proporcional imagem de superioridade em relação a nós. Esta nova cultura de cidadania europeia que temos de fomentar para que cultivemos uma relação paritária e uma perceção mais equilibrada e menos estereotipada da Europa, que facilitará uma sã integração europeia.
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José Eduardo Franco
A Europa ao Espelho de Portugal. Ideia(s) de Europa na Cultura Portuguesa
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(c) Fotografia do Autor: DR