Julieta Monginho: “A constante reinvenção do acto criativo”

Julieta Monginho assinala os 25 anos da sua carreira literária com um novo livro.
Partindo da vida real, continua a procurar a “constante reinvenção do acto criativo”.
Os muitos prémios que recebeu foram, em primeiro lugar, um aumento do grau de exigência.
E, mesmo sem ter um projecto já definido, vai continuar o seu percurso.

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P-Ao fim de 25 anos, como vê hoje o seu primeiro romance «Juízo Final»?
R-Vejo o meu primeiro romance – Juízo Perfeito – como uma espécie de exercício para os livros que se lhe seguiram, sobretudo a partir de A Terceira Mãe. No entanto, creio que preserva uma actualidade surpreendente, ao questionar o processo decisório de um juiz a partir do lugar da dúvida, ao tratar o tema da violência doméstica muito antes de justamente lhe ter sido dada a relevância que infelizmente merece, e ao fazê-lo já com uma certa inovação no plano dos recursos narrativos.

P-Em jeito de balanço retrospectivo, quais são as dimensões determinantes da sua obra do ponto de vista temático?
R-Tanto quanto, como autora, sou capaz de analisar o meu trabalho, diria que os temas da demanda, da viagem, da solidão, da justiça, se entrelaçam com idêntico poder de apelo criativo. O tempo e as suas transições, amiúde reflectido por personagens com dores de crescimento ou de envelhecimento, também me atrai especialmente. Mas para quê tentar identificar temas dominantes? O humano recusa limites e o seu questionamento não os tem.

P-O facto de ser Magistrada do Ministério Público influenciou, de alguma forma, o seu processo de escrita?
R-A vivência de um autor, seja ela qual for, influencia necessariamente o seu processo criativo. O meu trabalho como magistrada proporciona-me o contacto com realidades múltiplas, porventura menos acessíveis a grande parte dos escritores. Ofereceu-me também uma acrescida preocupação com o rigor no uso da palavra. Por contraste, incita-me à libertação do imaginário, à fuga do formalismo para a constante reinvenção do acto criativo.

P-Diz-se que, para um escritor, não há preferidos; não há filhos e enteados: dos seus já muito muitos livros publicados, há algum que ocupe um lugar especial?
R-Há livros antigos dos quais não guardo boa memória e que nunca revisitarei. Dos outros direi que, não por acaso, escolhi A Terceira Mãe para reeditar recentemente. Por agora, o meu preferido é o mais recente, esta Volta ao Mundo em Vinte Dias e Meio, viagem através da arte e da fantasia, ao encontro de uma fenda entreaberta pela qual passe um fio de esperança, seguindo o percurso de Leo, o menino em transição do passado que o perturba para o futuro que constrói.

P-Para um novo leitor que eventualmente ainda não conheça a sua obra, que percurso de leituras lhe pode sugerir?
R-Sugiro que comecem por Volta ao Mundo em Vinte Dias e Meio, seguido de A Terceira Mãe, dada a afinidade entre ambos, o primeiro centrado nas transições geracionais de universos masculinos, o segundo nas de universos femininos. Pelo confronto geracional que também aborda, sugiro em seguida a leitura de Metade Maior. Pela actualidade que mantém sugiro Um Muro no Meio do Caminho. Este foi um livro que se me impôs como narrativa de uma realidade pungente: os campos de refugiados da Europa do Século XXI. Foi para mim imperioso deixar o testemunho vivido da hostilidade para com o Estrangeiro, da qual se alimentam as autocracias e os movimentos de cariz antidemocrático, a cuja ascensão temos vindo a assistir. Se depois destes ainda tiverem paciência para continuar, sugiro que não percam Os Filhos de K., romance que descende de Juízo Perfeito, mas o transcende no questionamento do tema da justiça. Talvez por ter saído numa pequena editora, que ainda prezo – Teodolito – parece-me não ter tido ainda a atenção que merece.

P-Quais os autores que mais a influenciaram a sua escrita e a sua carreira literária?
R-Os leitores saberão melhor do que eu. Devo o meu impulso de escrita ao percurso como leitora, marcado pela heterogeneidade. As referências mais sólidas são as que explicitei nos meus livros: Italo Calvino, Kafka, Virginia Woolf, Herberto Helder. Qualquer lista que pretendesse abarca-los seria incomportavelmente longa e injusta.

P-Olhando para trás, o que não falta é reconhecimento. Grande Prémio de Romance e Novela da APE, Prémio Máximo de Literatura, Prémio Fernando Namora, Prémio Pen Club Português: que significado tiveram todos estes prémios?
R-Foram momentos de felicidade, que aumentaram o meu grau de exigência para comigo.

P-«Volta ao mundo em Vinte Dias e Meio» é o seu último romance: qual a ideia que esteve na origem desta obra?
R-Não sei especificar o que esteve na origem de Volta ao Mundo em Vinte Dias e Meio. Uma ideia não foi. Nenhum programa, nenhuma intenção particular. Trata-se de uma travessia de universos que se cruzam porque me afectam emocionalmente, em especial a violência na infância e a arte como forma de se lhe opor. Aquele menino em confronto com os adultos foi sempre a figura central, embora só o tenha encontrado verdadeiramente a deambular entre as Figuras nos quadros expostos no Reijksmuseum.

P-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R-Tenho muitos projectos, mas nenhum ainda consistente. Dedico algum tempo a narrativas curtas. Uma ampliação do Dicionário dos Livros Sensíveis? Talvez.
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Julieta Monginho
Volta ao Mundo em Vinte Dias e Meio
Porto Editora  16,60€
[Foto: Filipe Monginho]

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