Manuel S. Fonseca: “Uma coisa é certa, até de madeira fizemos capas de livros!”

A Guerra & Paz acaba de cumprir os seus 20 anos de vida. Dinâmica editora está a marcar uma presença de grande qualidade no panorama da edição de livros em Portugal. Manuel S. Fonseca é o seu fundador e faz um balanço muito positivo depois de centenas de títulos escolhidos e editados com critério rigoroso, criativo e inovador.
No catálogo da Guerra & Paz estão, por exemplo: Agustina Bessa-Luís, Fernando Pessoa, Jorge de Sena, Michel Houellebecq, Raphaël Glucksmann e Ruth Benedict entre muitos outros. E agora? Agora, continuamos à espera de muitos e bons livros.
Para muito breve, o editor vai concretizar mais um sonho: editar o romance Guerra e Paz de Tolstoi.
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P-Qual era o seu projecto editorial inicial da sua editora?
R-Como é que se faz para nos lembrarmos dos sonhos? E ainda para mais dos sonhos que se sonharam há vinte anos? Mas dos «despedaços» dos sonhos de há 20 anos, há dois de que me lembro sem falhas. Queria fazer uma editora generalista, que fosse do ensaio ao romance, com poesia à mistura, textos, ilustração e fotografia, mas queria também uma editora que «inventasse os próprios livros». Uma editora que, se fosse preciso, fizesse livros de materiais estranhos, ainda não sabia era quais.
P-Aqui chegados, com um percurso de 20 anos, qual o balanço que faz do trajecto da Guerra & Paz?
R-Uma coisa é certa, até de madeira fizemos capas de livros! E houve uma edição de Fernando Pessoa, muito sexy, se assim posso dizer, que combinava «fine papers» com papéis de jornal. Cabe aos leitores, aos críticos, aos meus camaradas editores fazer o balanço. O que posso dizer é que estou mais feliz hoje do que no dia em que, em 2006, comecei. Fiz Livros Amarelos, Vermelhos, Brancos e Negros, colecções cada uma delas com paladar próprio. Voltei a Agustina, 20 anos depois; estamos a editar as Novas Edições de Jorge de Sena, criámos a colecção Os Livros Não se Rendem, com a Fundação Manuel António da Mota, numa parceria que é também um serviço público à rede nacional de bibliotecas públicas. Dois mil livros depois, para 20 anos, sinto-me bem e em paz com o mundo e com os meus irmãos humanos.
P-Nestes 20 anos, quais foram as principais mudanças vividas na edição de livros em Portugal?
R-Mas mudou alguma coisa, a não ser ter eu agora mais 20 anos? E mudou sim, chegaram os e-books, a Inteligência Artificial avança como Gengis Khan, o audiobook é a nova sereia e ai dos ouvidos de Ulisses… Os leitores nem sabem o que isso é, mas quando cheguei à edição as redes de distribuição ainda faziam compras a firme sem devoluções e as devoluções podiam estar limitadas a 25% do volume de compras por ano. Enfim, minhoquices do passado. Tudo mudou e nada mudou: no fim da linha, um livro é um livro e o par de olhos que o lê só quer ter o mesmo arrebatamento que se espera de um acto de amor.
P-Dos muitos livros editados, qual foi o que mais o marcou?
R-Não sei se a Agustina de «As Meninas», se o Sena e a Sophia das «Cartas»?! Mas é injusto escolher – na verdade odeio os Oscars e odeio os Prémios – sobretudo quando tive prazeres orgásticos a publicar livros tão bonitos como «O Crisântemo e a Espada», de Ruth Benedict, ou essa maravilhosa aberração conservadora que é «Inglaterra, uma Elegia», de Roger Scruton ou a deliciosa insubordinação melodramática que é o «Romance de um Homem Rico», de Camilo.
P-Livro que ainda não editou mas não se reforma sem o lançar?
R-Faço batota, até porque, como diz o meu neto sempre que jogamos à bola, «o avô é batoteiro, não vale chutar alto». Vou finalmente publicá-lo nos próximos meses: o «Guerra e Paz», de Tolstoi, com tradução de Isabel da Nóbrega e João Gaspar Simões.
P-Pensando no futuro: projectos e ideias para os próximos 20 anos da editora?
R-Que a integração da Guerra e Paz e da Gradiva se faça com irrepreensível elegância e que a força dessa fusão faça de nós melhores a cuidar dos livros e que a actual equipa – somos 14 – continue unida, feliz e se sinta realizada. Sei que parece um desejo de Miss Universo, mas não é Miss Universo quem quer, só mesmo se se tiver a chispa. E esta fusão tem chispa. Em todo o caso, e atendendo à minha provecta idade e ao possível delírio emocional, todas as respostas foram vistas pela minha filha, que as aprovou. Nada obsta.
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Guerra & Paz

