Vergílio Alberto Vieira | Não vos torne a noite escura

 1-O que representa, no contexto da sua obra, o livro “Não vos torne a noite escura”?
R- Talvez não represente grande coisa, apesar de ter a noção de que foi escrito “em contratempo”, como no prólogo, que acompanha a edição, a professora Cristina Robalo Cordeiro, faz questão de assinalar, sublinhando o facto de se tratar de um ideário poético cujo: “(…) traço mais saliente da sua concepção” remete para uma situação de “anacronismo”, justificativo, segundo a ensaísta, da: “(…) visão do mundo”, que lhe subjaz, e lhe deu origem. Se não for presunção minha (água benta não é de certeza), reconhecer que não se trata de um novo livro, mas de um livro novo, gostaria que fosse lido como um género de ex-voto poético, pensado para romper (com) aquele Shleier der Schwermut/ véu de pesar que o já saudoso George Steiner, em Dix Raisons (Possibles) à la Tristesse de Pensée (2005), identificou, ao aperceber-se que: “O pensamento encobre tanto, ou provavelmente mais ainda, do que revela”. Recuperado o verso “não vos torne a noite escura”, da carta III de Francisco Sá de Miranda, meu meio conterrâneo, e meu poeta de eleição, dobro a parada confessando que este poemário acrescenta um ponto luminoso à via láctea descoberta em 1971, com o livro Na Margem do Silêncio – trovas de Bandarra de um jongleur que já vai tendo idade para reconhecer que: “Era tempo de ter alma e não o seu contraplacado.” (cf. Vergílio Ferreira, Escrever, 2001).

2-Qual a ideia que teve na origem deste livro?
R-Numa época em que “o culto do autêntico”, assinalado por Jorge de Sena num polémico artigo, publicado no Suplemento Literário do Jornal de São Paulo, e logo incluído na edição de O Reino da Estupidez, (1961), parece ter regredido aos anos 20 e 30 do século passado, sem deixar de subsistir na “crítica” e “noticiarismo literário” das décadas seguintes, por razões nunca verdadeiramente esclarecidas, mas esclarecedoras, não gozasse “A crítica pelo buraco da fechadura”, conforme diz,  do estatuto de “piquant da crítica literária” (sic), de que releva: “uma oportunidade para exibir a sua largueza de espírito, a sua neutralidade moral, em matérias estéticas”, há que constatar que a situação crítica, entre nós instalada,  funciona: umas vezes, em circuito fechado, outras em forma-de-assim, sem zelar pela creditação que ao crítico deve assistir, tanto pelo que lhe escapa, como pelo pretensiosismo que lhe serve de escapatória. Assim sendo, o que há uns anos a esta parte prevalece, enquanto ideia subjacente à poesia escrita e editada em Portugal, é que sempre que alguém arrisca contrariar o convencionalismo reinante, tornando-se depositário de “um trânsito de forças”, para usar uma expressão cara a José Gil, autor de Caos e Ritmo (2018), capaz de conferir ao espaço da escrita o lugar em que se realiza aquela espécie de “factualidade demonstrável” steineriana, que torna a poesia um devir, ideia de origem sem origem, o que lhe resta é condição de proscrito. Questão de reconhecimento, ou falta dele? Com que fim, e por quem, se quem mal escreve será sempre aquele esquecido de Deus de que falava O’Neill, que esperou em vão que o Criador lhe autenticasse o que escreveu?

3-Pensando no futuro: que está a escrever neste momento?
R-Se me for perguntado o que acabei de escrever, direi que um roteiro  espiritual, não de viagem como o de Fernão Mendes Pinto que, pela primeira vez li de fio a pavio, mas como o de/e com Bashô, peregrino confesso, poeta mendicante que melhor que ninguém, ele que outra coisa não quis ser, entendeu as partes para compreender o todo. À semelhança, porém, do Frei João Sem Cuidados, indigente fradinho da tradição portuguesa, a quem a Regra nunca permitiria ler as Meditações Pascalianas, de Bourdieu, nem exercer o dom de fazer da criação artística: “(…) exaltação da generosidade gratuita e sem contrapartidas”, tenho tentado sobreviver, a sopas literárias mais ou menos marginalizantes, longe do ideário do(s) que, em tempos se propôs/ se propuseram salvar o mundo escrevendo, editando, assinando o ponto em festivais literários em que impera o estilo serelepe (graciosamente agitado, de resto e tantas vezes pífio), razão que torna o escritor mero figurante na curta-metragem da subsidiária (ou suicidária?) falta de consciência política, a contas com o vazio ideológico, que a ribalta lhe exige – a soldo da indiferença hipócrita que responde pelo virar de costas às transformações históricas em curso e ao crescente populismo convulso que começa a tomar proporções preocupantes um pouco por toda a parte. Um destes dias, farei parte do restolho que ajudou o farisaísmo intelectual a fazer passar o joio por trigo em anos de fome – para descrédito das Letras, e de quem lá ande.
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Vergílio Alberto Vieira
Não vos Torne a Noite Escura
Crescente Branco