Alberto Santos: “Talvez seja também o meu livro mais duro”

1-O que representa no contexto da sua obra literária o romance “As Rosas de Barbacena”?
R-“As Rosas de Barbacena” representa um ponto de viragem e de risco na minha obra. É provavelmente o livro em que fui mais longe na tentativa de aproximar literatura, memória e violência histórica sem transformar a dor em espectáculo. Sempre me interessaram personagens colocadas perante mecanismos de poder, culpa, silêncio e exclusão, mas aqui senti a necessidade de entrar num território particularmente difícil: o do Hospital Colónia de Barbacena, onde dezenas de milhares de pessoas foram internadas, esquecidas e, em muitos casos, destruídas. Este romance nasce de uma longa aproximação documental – testemunhos, relatórios médicos, arquivos, fotografias, estudos históricos e jornalísticos -, mas nunca pretendeu ser apenas uma reconstituição. O que me interessava era devolver vida, corpo, respiração e singularidade a pessoas que a própria instituição procurou reduzir a números, diagnósticos, a maior parte das vezes sem sinais de demência. A literatura pode não reparar o horror, mas pode impedir que ele se torne abstrato e servir de vigília para o futuro. Talvez seja também o meu livro mais duro. Não procura consolar o leitor. Procura deixá-lo inquieto, desconfortável. Porque o mais perturbador em Barbacena não é apenas o que aconteceu naquele lugar, mas perceber como uma sociedade inteira conseguiu normalizar aquilo durante tanto tempo. E é um tema que continua muito contemporâneo.
2-Qual a ideia que esteve na origem do livro?
R-A ideia nasceu de um encontro inesperado. Conheci esta história através da minha dentista, neta da verdadeira Teresinha Alvarenga, uma mulher que foi internada no Hospital Colónia de Barbacena depois de uma gravidez, tendo deixado uma filha com apenas dois meses de idade. Não havia, no seu caso, qualquer diagnóstico de demência que justificasse aquele internamento. Esse pormenor ficou comigo. Uma mulher, uma filha de dois meses, uma família, um papel, uma instituição. A partir daí, comecei a perceber que Barbacena não era apenas a história de um hospital psiquiátrico, mas antes a história de uma sociedade que encontrou formas aparentemente legais de afastar pobres, mulheres incómodas, órfãos, vítimas de abuso, pessoas sem defesa ou simplesmente inconvenientes. O livro nasceu desse espanto e dessa inquietação. Quis compreender como uma vida pode ser desviada por uma decisão administrativa, por uma vergonha familiar, por uma mentira aceite por todos. E quis escrever não a partir de uma vida concreta: Teresinha, a filha que deixou, o comboio, o nome que se perde, a memória que resiste.A pergunta que me guiou foi essencialmente esta: quantas pessoas foram chamadas de loucas apenas porque era mais cómodo afastá-las do mundo?
3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R-Estou a trabalhar num novo romance centrado na figura de um soldado português que esteve em Angola, no 25 de Abril e na viragem para a independência deste país. É uma personagem que me acompanha há muito tempo, que descobri numa entrevista de um jornal, e que me interessava explorar não como herói clássico, mas como alguém atravessado pela violência da História, pela guerra, pela culpa e pela dificuldade de regressar a si próprio. O romance decorre em território africano e português, num contexto marcado pela guerra colonial e pelas suas consequências humanas e íntimas que deixou em tanta gente. a minha ideia é que não seja propriamente um romance sobre guerra, porque interessa-me mais escrever sobre aquilo que sobra depois dela: os homens que regressam diferentes, os silêncios dentro das famílias, a memória, o trauma e a tentativa, tantas vezes falhada, de reconstruir uma ideia de humanidade.
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Alberto Santos
As Rosas de Barbacena
Porto Editora 19,99€

