Maria Joana Almeida: “A ideia de um livro/objecto artístico capaz de criar este diálogo seduzia-me”

1 – O que representa, no contexto da sua obra literária, o livro “O Corpo a Pender-lhe uma Solidão”?
R-Inspirada no livro “A Minha Mãe” de Stéphan Servant e Emmanuelle Houdart, este é um projecto pensado há algum tempo com a Marta Nunes. Representa, tal como o verso da Natália Correia, “o dever de deslumbrar”. Não no sentido egocêntrico de uma leitura imediata, mas sim no sentido de arriscar. Arriscar ao sair de um formato mais típico, a que estava habituada e criar um diálogo, estreito entre imagem e palavra. Uma forma de ampliar as imagens e sensações.  A ideia de um livro/objecto artístico capaz de criar este diálogo seduzia-me. Fez sentido com a Marta Nunes por ter sido, através de uma ilustração sua, que comecei a escrever. Em Janeiro de 2021, após a morte da minha mãe, vi uma ilustração da Marta e escrevi um texto a partir dessa imagem. Esse momento abriu caminho para o meu primeiro livro.

2-Qual a ideia que esteve na origem deste livro?
R-Por vários acasos, difíceis, na minha vida, vi-me confrontada com casas vazias ao mesmo tempo que representam casas a transbordar de memória. E esta forte dicotomia levou à construção de poemas/textos também eles presos numa viagem entre angústia, memória, infância e saudade, onde é, certamente, fácil encontrar ecos universais. O livro, enquanto objeto artístico, sempre me seduziu, e a complexidade desta ambiguidade entre infância, memória e saudade presentes tanto nas imagens, como nos poemas, precisavam de um objecto forte visualmente.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R-Neste momento preciso de um refúgio e de silêncio. Quero perceber o que consigo escrever sem estar no meio do caos da rotina. Preciso de aprender a dissecar as palavras e, também, a recriá-las. Tenho um livro infanto-juvenil quase pronto, mas não ainda no ponto em que quero. Quero mais tempo de qualidade para saber o que me revelo ainda.
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Maria Joana Almeida
O Corpo a Pender-lhe uma Solidão
Elefante Editores  18€

Maria Joana Almeida na “Novos Livros” | Entrevistas