Andanças de Zorbás

CRÓNICA
| Rui Miguel Rocha
Finalmente li o Zorbás. Não vi o filme e agora fico a pensar como raio é que o Anthony Quinn encarnou tamanha personagem. Zorbás, o eufórico e arrebatado macedónio que faz do trabalho, da comida e das mulheres a sua santa trindade, o homem que dança quando os sentimentos ultrapassam os sentidos, um alarve delicado, um velho fibroso, verdadeiramente um Alberto Caeiro repleto de LSD, o homem de todos os ofícios: “Com os pés, com as mãos, com a cabeça…Era só o que nos faltava agora, escolher um ofício!”
O encontro, a caminho de Creta, entre a intelectualidade personificada por um autor inglês, com a natureza e a simplicidade de um homem do mundo. Desta espécie de confronto amigável, os espíritos renascem e alguns dos cinco sentidos são pela primeira vez requisitados. Uma espécie de “A Cidade e as Serras” em grego. Será que Kazantzakis leu Eça?
Um homem à procura de religião ou de Deus e o outro que encarna Deus e o diabo. Um que é só cérebro e outro que é corpo e músculo e pele tisnada pelo sol. A sobriedade e a embriaguez. “Zorbás vê cada dia todas as coisas pela primeira vez”. Não é um olhar inocente, é um olhar novo, com atenção redobrada ou até com menos atenção, um olhar diferente, renovado, por vezes feliz, muitas outras com ira ou até com uma certa indiferença. É uma personagem pura mas muitas vezes incoerente, atenta mas também avoada, um incongruente racional, se é que isso é possível.
É um livro datado, com as forças sociais da época a romperem as nossas convicções actuais. Mas nem por isso deixa de ser importante e assertivo para estes dias inconstantes (não mudem o livro, não o censurem, está escrito e o autor morto).
Tudo o que roubamos ao mundo, ao solo, à água, ao ar, é transformado em dança ou esterco, bom humor ou azia, amor ou ódio. Se ao menos fosse tudo tão simples.
Mas não é. As mulheres são mais complexas do que Zorbás as quer, também os homens e o mundo. Aqui existem seres fantásticos como as mulas e os papagaios das viúvas tristes e sós, aqui vivemos de bem e de mal com o mundo “À frente, o abismo, atrás, o precipício” ou ao contrário, tanto faz. As mulheres, as mulheres “Chamavam-lhe a Bela das Sobrancelhas de Seda” e não é preciso mais para enlouquecer “uma lágrima de mulher poderia afogá-lo.”
No fundo, tudo o que é preciso é libertarmo-nos das coisas tangíveis e intangíveis, do visível e do invisível “Libertei-me da Pátria, libertei-me dos padres, libertei-me do dinheiro, faço escolhas.”
Se não quiserem ler mais nada, leiam o capítulo XXIII, onde os vivos lutam pelos despojos dos mortos e os mortos já não merecem mais nada que gritos falsos e danças verdadeiras e a loucura de se saber que mais nada existe de terreno para lá da morte além do que se deixa ficar.
E Zorbás fica. É difícil livrarmo-nos dele depois do livro acabado “Quando Zorbás falava, a sua imaginação abria alçapões onde ele próprio caía.”
Gosto de pensar que também tal me acontece.
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Nikos Kazantzakis
Vida e Andanças de Alexis Zorbás
Edições 70 24,51€

