Leituras de escritores

CRÓNICA
| Rui Miguel Rocha
Gostamos sempre de deitar o olho aos prazeres de leitura dos outros e às suas escolhas (sempre aleatórias, mas escolhas mesmo assim, e por isso sujeitas aos dias em que resolveram pensar nisso), se forem escritores ainda mais. Temos uma espécie de morbidez insaciável pelos restos da digestão literária dos outros. O ensaio no lugar da opinião e algumas tentativas frutíferas ou não de erudição não corresponderam ao que eu procurava. Mas há excepções. A começar pela Dulce Maria Cardoso com o seu sofá-cama da Moviflor, em meio termo sofá e em meio termo cama, onde descansava viajando nos livros. Talvez a melhor crónica do livro. Grande abertura.
Logo a seguir, Antonio Prata diz que “seria muito melhor se tivéssemos o pudim sem espinafre”, mas Nietzsche é que é. Se obedecemos é por cobardia e “Sem Nietzsche, talvez eu fosse virgem até hoje.” Não me parece mas sigo em frente e salto para a Andreia Faria e para um livro que tenho em casa e nunca li, mas é lugar comum nestas leituras de escritores “Grande Sertão: Veredas”. Vou ler, mesmo sabendo que “Uma esperança é sempre, em parte, feita de esquecimento.” Depois Ruy Castro e Alice, Vieira Mendes e Salinger que descobri tarde, mas ainda bem. Tiago Ferro com Machado de Assis que nunca li. Mexia e “The Waste Land”, juntamente com as “mitologias como os sermões budistas, a Bíblia, as Metamorfoses” e tantos outros. Potter e Ana França, Bolaño e Giovana com os “Detectives Selvagens” que também estagia na minha casa numa estante. Passo lá muitas vezes.
O poeta A. M. Pires Cabral opta por uma releitura dos Bichos do Torga, lembrei-me do meu professor primário igualzinho ao autor dos contos aqui recordados, lembrei-me também do meu exemplar a que se tinha de cortar as páginas para o ler. Diz Cabral que “A busca de identidade é um exercício dispensável para aqueles que se contentam em existir”, às vezes invejo esses que aqui estando, estão como as árvores. O que sabemos das árvores?
Tatiana Faia escreve de Atenas onde chega à conclusão que “a decadência é fértil, que o mundo está sempre a ressurgir exactamente onde acaba”. Como as cabeças da hidra, também ela helénica ou os apêndices de alguns tipos de lagarto como no Homem-Aranha. Kavafis, pois claro. Também o ando a ler. Aos poucos mas lá vai.
Ainda tempo para o pai do Rui Cardoso Martins com o “seu ideal latino. De dia fazer vinho, à noite ler latim.” Os clássicos gregos e romanos.
Mas também Ubaldo Ribeiro pela pena de Gustavo Pacheco e a frase do autor de Viva o Povo Brasileiro “as almas não aprendem nada, mas sonham desvairadamente.”
Valério Romão e Ivan Ilitch que li durante a operação ao coração do meu pai “a vida, sendo finita, é vivida como se não o fosse.” Nem sempre, digo eu.
Ainda temos o amor, a ansiedade e os livros.
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O Que Lêem os Escritores
Tinta-da-China 17,90€
(Prefácio do Alberto Manguel)

