Eduardo Pinheiro: “As peregrinações podem ser momentos muito transformadores”

1-Qual a ideia que esteve na origem deste se livro “10.755 Caminhos que se Cruzam”?
R-A primeira vez que fui ao Japão levava a intenção de perceber qual a razão destes caminhos, aparentemente tão díspares, estarem oficialmente geminados. Fiquei encantado com o que experimentei dessa vez, e retornei lá 4 anos depois já com o objectivo claro de obter material para este livro. As peregrinações podem ser momentos muito transformadores para qualquer pessoa, facto provado desde há milénios, e estão acessíveis a toda a gente. Escrevi este romance para levantar um pouco o véu e mostrar que essa possibilidade está acessível a todos, usando para isso múltiplas personagens em diversos tempos e vários caminhos, ressoando com a narrativa dos dois gémeos nesta aventura em Kumano Kodo.
2-Santiago de Compostela e Kumano Kodo: o que têm em comum e o que significam para si?
R-À vista desarmada as diferenças podem ser gritantes: continente, religião, orografia, duração das peregrinações, número de santuários de destino… mas indo a fundo temos surpreendentemente mais semelhanças que diferenças: os caminhos surgem na mesma altura (século IX), conseguem legitimidade oficial pelo rei/imperador; veem o seu apogeu no mesmo século XIII, até dois santos com visíveis semelhanças o percorrem nessa altura, São Francisco e Santo Ippen; Milhões de peregrinos durante séculos e uma queda abruta mais ou menos coincidente, com caída no esquecimento e a revitalização coincidente nos anos 80/90 do século XX. Se cronologicamente há quase um par e passo, mais a fundo vejo que estas tradições de peregrinar respondem também às mesmas necessidades humanas: sair do quotidiano e encontrar um sentido; caminhar até um local sagrado; sentir a força da comunidade; experimentar a morte e o renascimento simbólicos. Para mim significam a oportunidade de experimentar o que disse atrás pois posso ver projectado no grande ecrã exterior, e nos outros com quem me cruzo, aquilo que preciso ver em mim.
3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R-Estou a escrever sobre o passar à idade adulta de um país, dos encantos e desencantos, promessas e cataclismos. A trama tem 3 momentos cronológicos principais – 1972, 1985, 2000. Os protagonistas são de Guimarães e tudo começa nas festas Nicolinas e termina em Lisboa muitos anos depois. A história vai mostrar através das personagens, uma a viver em Portugal e a outra num outro continente, um país que se modifica à medida que as suas vidas também se alteram.
__________
Eduardo Pinheiro
10.755 Caminhos que se Cruzam
Casa das Letras 21,90€

