Filipa Martins: “Reúne muitas das obsessões que atravessam a minha escrita”

1-O que representa no contexto da sua obra literária o livro “No Meu Fim Está o Meu Começo”?
R-Sinto que este livro ocupa um lugar muito particular no meu percurso, porque reúne muitas das obsessões que atravessam a minha escrita: a memória, a identidade, a violência, aquilo que herdamos sem pedir e a forma como o passado continua inscrito nos corpos e nas relações. Interessa-me cada vez mais esta ideia de que sem história o ser humano seria apenas biologia. Aquilo que nos torna humanos é precisamente o facto de estarmos enquadrados narrativamente, de sermos feitos das histórias que contamos, das histórias que esquecemos e também das histórias que nos foram roubadas. Este romance é talvez o lugar onde essas inquietações aparecem de forma mais íntima e mais política ao mesmo tempo.

2-Qual a ideia que esteve na origem do livro?
R-O livro nasceu de uma necessidade muito profunda de olhar para histórias de mulheres comuns, muitas vezes silenciadas, que carregam violências tão naturalizadas que chegam a parecer invisíveis. Cresci rodeada de histórias contadas oralmente por mulheres da minha família, mulheres que muitas vezes não tiveram sequer possibilidade de registar a sua própria narrativa. A partir daí comecei a pensar nesta relação entre memória e esquecimento, porque as memórias não são neutras e a própria História é quase sempre o discurso vencedor. Havia também uma urgência cívica de falar sobre determinados temas hoje. A literatura, ao contrário da História ou do jornalismo, pode permitir que os factos sejam contaminados pelas emoções. E há causas que merecem precisamente isso: serem olhadas através de histórias reais, de corpos concretos, de vidas concretas.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Neste momento estou a trabalhar em projectos que cruzam literatura e realização, uma linguagem que me entusiasma muito precisamente porque ainda estou a descobri-la. Em setembro vou rodar a minha segunda curta-metragem, adaptada a partir de um episódio específico deste romance, a história do rapto. É uma narrativa muito visual, porque esta criança habita dois mundos completamente distintos, a pobreza e a riqueza lado a lado. Interessa-me muito perceber como a câmara pode tornar-se narradora e como determinadas emoções podem ser contadas através do olhar, do espaço e da imagem. Continuo profundamente ligada à escrita literária, porque é aí que tudo começa para mim, mas entusiasma-me este diálogo entre diferentes formas de contar histórias.
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Filipa Martins
No Meu Fim Está o Meu Começo
Quetzal  17,70€

Filipa Martins na “Novos Livros” | Entrevistas

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