Helder Bastos | Crónicas de Fim de Século

1-Qual a ideia que esteve na origem deste seu livro  «Crónicas de Fim  de Século»?

R- A ideia foi ganhando corpo a partir da releitura de um conjunto de 261 crónicas publicadas no Jornal de Notícias entre 1994 e 1999, um período que coincidiu com o início de várias transformações profundas nos mundos da comunicação, dos média, do jornalismo e das novas tecnologias, sobretudo com a chegada da Internet ao grande público. A releitura permitiu verificar que muitos dos temas, questões e críticas feitas então resistiram ao tempo e mantiveram-se razoavelmente atuais. Por isso, pensou-se que talvez fosse uma ideia interessante pegar nessas crónicas e trazê-las para o século XXI. Até para que possam ser um contributo para colocar numa perspetiva histórica alguns dos grandes debates da atualidade. 

2-Vinte anos depois, o mundo dos media mudou muito mas as crónicas  permanecem actuais: porquê?

R- As primeiras crónicas foram escritas há 25 anos, ainda a Internet e a “sociedade digital” que a rede veio a dar origem eram conceitos desconhecidos do grande público. Neste quarto de século, as mudanças foram incrivelmente aceleradas e, em boa parte dos casos, imprevisíveis. Mas, se é certo que as transformações foram profundas e provocaram mudanças estruturais nos modos como comunicamos, consumimos, aprendemos, divertimos e nos comportamos em geral, também não é menos verdade que muitas das grandes questões colocadas pelos avanços tecnológicos e sociais se mantiveram, na sua raiz, idênticas. Questões como a perda de privacidade, a vigilância eletrónica, os comportamentos aditivos online, a mercantilização da rede e dos nossos dados pessoais, o declínio da imprensa e as consequências para a democracia, os perigos da desinformação, a aceleração dos nossos ritmos de vida ou os problemas da “incomunicação” entre as pessoas são hoje temas centrais debatidos um pouco por todo o mundo. Ora, todos estes temas, e outros conexos, foram já alvo de atenção nestas “Crónicas de fim de século”. 

3-Consegue pensa hoje no que será o jornalismo daqui a 20 anos?

R- Pensar hoje no que será o jornalismo de 2040 é um exercício de ficção científica. O que se passou no último quarto de século ensinou-nos a ser prudentes no que a previsões diz respeito, pois muitas visões futuristas de gurus das tecnologias e da comunicação ficarem pelo caminho da história. Uma das previsões mais mirabolantes do final de século passado assentava na ideia de que os jornais de papel estariam mortos no ano 2000. Ainda que passando por dificuldades, estão vivos em todo o mundo duas décadas depois. Bill Gates errou na encomenda deste enterro. Agora, os sinais que observamos hoje no jornalismo são muito sérios. A manter-se a trajetória dos últimos anos, o futuro próximo do jornalismo será preocupante, quer para os que dele fazem a sua profissão, quer para os que dele são os principais beneficiários, os cidadãos. E a democracia. Enquanto sociedades democráticas, nas quais existe o direito, defendido pela Constituição, à informação, teremos de encontrar caminhos e soluções para evitarmos um futuro distópico em que só poderemos escolher entre propaganda maliciosa, “fake news”, boatos, campanhas orquestradas e “pós-verdades” viralizadas quando tentarmos perceber o que se passa de facto à nossa volta.
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Hélder Bastos
Crónicas de Fim de Século
Afrontamento Editores 18€
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