Na vida de um censor de livros

CRÓNICA
| Rui Miguel Rocha

No país de Orwell, um mundo de um futuro talvez próximo, um censor de livros amador deixou-se levar pelo significado oculto ou subjectivo das palavras que se juntam de forma pouco inocente nos livros que prestam ou que a isso se prestam, aqueles que tem o dever de censurar para que ninguém os leia jamais, com destino marcado para a fogueira no “Dia da Purificação”.
Os únicos livros não censuráveis são os de sentimentalismo bacoco ou aqueles de auto-ajuda aprovados pelo governo. A imaginação é proibida e controlada, a interpretação foi banida, “tombado no escuro abismo da interpretação”. Deve-se ficar à tona das palavras, não mergulhar na profundidade do texto. Quanto menos se souber, menos problemas para o governo. Pergunto-me o porquê desta recente multiplicação de livros sobre distopias ditatoriais. Acho que sabemos a resposta.
O pouco provável herói, com sofrível apetência para a coragem, a filha carregada com histórias do passado, Peter Pan, Capuchinho Vermelho, rodeada da doença chamada imaginação, não normalizada e com risco de institucionalização. Ele cada vez pior, trazendo livros para casa, não dormindo, nitidamente a caminhar em direcção ao abismo. Os problemas começam com “Vida e Andanças de Alexis Zorbás” que nunca li, mas vou fazê-lo a seguir, com o macedónio ligado à terra a ultrapassar todas as barreiras, todas as leis e todas as autoridades, como por exemplo o Movimento Popular pelo Realismo Positivo ou o Comité de Supervisão da Lei Religiosa ou a ignominiosa Autoridade de Orientação e Aconselhamento com a sua Campanha Nacional contra a Imaginação.
Mas logo a seguir a Zórbas, adivinha-se Alice, pelos coelhos soltos e suas caganitas no próprio centro da censura. Já se confirmará.
Não se pode negar a existência de um reforço das regras de Orwell (Guerra é Paz/Liberdade é Escravidão/Ignorância é Força), como uma homenagem aos que resistem às novas, mas também pérfidas regras (A Existência Humana é Sofrimento/A fonte do Sofrimento é o Desejo/A Fonte do Desejo é a Imaginação).
O censor de livros sabia que trabalhava com material perigoso e delicado, era como se fosse um funcionário de uma fábrica de explosivos que rebentavam para dentro “Tudo aquilo de que o haviam avisado sobre os livros tinha-se tornado realidade.”
E sim, é Alice que se une a Zórbas para trazerem magia à realidade que se vai tornando cada vez mais em 1984, o próximo capítulo “Houve uma altura em que os robôs eram concebidos segundo um modelo humano, mas agora fazia-se precisamente ao contrário.”
A nossa realidade, um pouco menos assustadora, também se imiscui na história da censura de livros “eles estão a mudar o passado…Estamos a tentar salvar o passado para tornar o futuro possível.”
E como sempre, em todos os totalitarismos: “A tecnologia está proibida, exceto quando é feita para lixar o povo.”
Não podia faltar o Pinóquio, pois até os livros infantis são escrutinados. E é uma criança a por tudo em causa, mas é também ela a razão de se poder cair. “O Sistema tinha tomado posse de tudo, e sabia que tinha vencido, mas ainda se sentia ameaçado pela imaginação de uma criança.”
Depois de espalhar esperança ao longo de todas as páginas, termina com a esperança esgotada, o Sistema atropela a alegria e a imaginação.
Não diria como a vida hoje, mas se não nos pomos a pau, para lá caminharmos.
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Bothayna Al-Essa
A Biblioteca do Censor de Livros
D. Quixote  18,80€

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