Na pele do outro

CRÓNICA
| agostinho sousa
Trata-se de um livro não-ficcional, suportado pelo tratamento de uma recolha exaustiva e sistematizada, de um período complexo da história da Alemanha, ou sejam, os primeiros 10 anos do pós-guerra, com o reerguer desse País e a sua posterior divisão; onde se misturam a evolução dos comportamentos, das necessidades, das adaptações e um sem número de situações que a sua população teve de enfrentar para sobreviver, não só em termos físicos – pelo combate à fome e à destruição das cidades – como vivenciais – pelas difíceis relações humanas e tensões, tantas vezes com perda de vínculos civilizacionais.
Sobressai a ideia de uma árdua transição: de uma população orgulhosa de vencedores convictos, numa guerra que pensavam estar ganha à partida, para uma derrota humilhante e catastrófica, que deixou o país na ruína, obrigando os alemães a aceitarem as novas regras impostas pelos invasores/vencedores, com a particularidade da posterior divisão da Alemanha em dois estados, com sistemas políticos e económicos bem diferentes entre si.
Para além de um país em escombros e com fome, há números alarmantes: de mulheres que foram violadas, torturadas e mortas; do insuficiente racionamento «que mal as livrava de morrer à fome»; do território a reconstruir; as alterações das fronteiras; as migrações e os conflitos entre populações residentes e migrantes; etc.
«No verão de 1945, viviam cerca de 75 milhões de pessoas nas quatro zonas de ocupação. Destes, mais de metade não estava no sítio onde pertencia ou para onde queria ir. A guerra funcionara como uma potente máquina de mobilização, expulsão e sequestro. Os sobreviventes foram por ela cuspidos algures, longe do sítio onde dantes fora a sua casa.
Deste número gigantesco de 40 milhões de pessoas desenraizadas pertencia a grande maioria dos mais de dez milhões de soldados alemães feitos prisioneiros de guerra. A maior parte foi sendo sucessivamente libertada a partir de meados de maio de 1945 até finais de 1946, com exceção de 3,5 milhões de prisioneiros de guerra detidos na União Soviética e dos cerca de 750 mil prisioneiros que foram levados para França.»
«A ordem normal das coisas ficara virada do avesso, famílias foram separadas, antigos contactos perdidos, mas as pessoas voltavam a juntar-se, e os jovens e os corajosos encontravam no caos um lugar de recreio, no qual havia diariamente que procurar a felicidade.»
A economia ressurge, inicialmente, do roubo indiscriminado por todos, onde «até os mais civilizados se dedicavam à pilhagem» e do inflacionado negócio no mercado negro, onde joias e outros objetos de valor são trocados por comida e tabaco.
Mesmo com tantas adversidades e desencantos, o ser humano encontrou forças para as superar, sobrevivendo entre escombros e «vivendo apenas para o momento; se fosse bom, queriam consumi-lo até à última gota. Enlevavam-se com uma alegria de viver exuberante, uma devoção ao prazer que, em parte, roçava o maníaco». Apesar de presença da morte e da destruição, visível por todo o lado, as pessoas «queriam desfrutar plenamente da vida […] As festas no pós-guerra não eram bailes num barco a afundar, mas sim num barco já afundado», mas existiam, para fortalecer o corpo e a alma.
O livro não tem uma posição moralista, nem julga os inúmeros acontecimentos retratados detalhadamente, nesse período complexo, onde “todos lutam contra todos. Esta frase é lida repetidamente nos relatos de testemunhas oculares. «Depois da guerra é que conhecemos as pessoas como elas são». Falava-se na hora dos lobos, do «homo homini lupus no seu estado natural» no sentimento iminente de qualquer sentimento de justiça. Mas seria realmente assim? Teria sido a moralidade efetivamente deitada borda fora, ignorada e remetida a um sono profundo?
«É preciso tê-lo vivido», escreveu a jornalista Margret Boveri no seu diário, no início de 1954, ao participar na pilhagem a um grande armazém farmacêutico na rua berlinense Kanstsrasse.»”
A leitura deste livro merece reflexão, principalmente neste conturbado período que vivemos, tão cheio de certezas absolutas para alguns, porque é importante colocarmos na pele do outro – na pela do lobo-, sem esquecer as suas adversidades, idiossincrasias e meio envolvente; enfim, de duvidarmos daquilo que temos ou expressamos como valor absoluto!
Espinho, 08/03/2026
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Harald Jähner
A hora dos lobos – A vida dos alemães no rescaldo do III Reich
D. Quixote 24,90€

