Sontag em entrevista

CRÓNICA
| Rui Miguel Rocha
Interpretar os nossos sentidos, as nossas vivencias e recordações. Pensar sobre o que nos acontece, principalmente o que de mau nos chega.
É bom ler e ouvir falar pessoas extraordinárias e inteligentes que não se acham assim tanto, ou pelo menos disfarçam “Sou muito mais ignorante do que as pessoas pensam.”
Esta é uma entrevista dada nos anos 70, mas parece ter saído ontem. É tudo actual e cosmopolita, com uma transgressão moderada (se é que isso existe). Susan não tem medo de se assumir tão próxima da alta cultura como do rock’n’roll, isto numa fase em que uns lutavam de um lado e outros de outro, com as respectivas bandeiras enfiadas nas trincheiras. Antes de criticares os outros, olha para ti: “não gosto de culpar os outros, pois é muito mais fácil mudarmo-nos a nós do que mudar os outros.”
Esta entrevista ajudou-me a racionalizar uma crise e não sei se a resolvê-la. Na verdade há crises que não se resolvem e o remédio é viver com elas, incorporá-las, tentar normalizar o que é difícil e fora do tempo ou absurdo para nós, que não talvez para um outro.
A parte sobre a fotografia é mais complexa e exige mais tempo, mas ensina a olhar e a ver que são coisas diferentes, assim como a interpretar, mesmo sabendo que esse esclarecimento depende do que está por detrás dos olhos e, assim sendo, das emoções, do estado de espírito e do sabor da alma.
A doença e a transmutação de algo romântico (tuberculose ou tísica e até a sífilis) em algo terrível (o cancro, a sida, o enfarte ou o AVC), ou será antes a forma de viver e olhar a vida? Os loucos e os estados superiores de consciência, os marginais e os que escolhem ser diferentes, o que a sociedade lhes faz “Um dos aspetos fundamentais de uma boa sociedade devia ser o de permitir que as pessoas possam viver à margem.” E reforça “Sou completamente a favor dos desviantes”.
A sexualidade e o fascismo, o Império dos Sentidos de Ōshima, a vida como agressão, a mutilação da História, a abstracção na fotografia, o fim da metáfora. Ecletismo e elegância, abrangência e sofisticação, atrevo-me a dizer que Sontag é melhor do que muitas obras de arte. Contra os estereótipos, contra as interpretações abusivas, a favor da originalidade e da cultura, do respeito e da individualidade “O mundo é complicado. E não pode ser reduzido àquilo que achamos que ele devia ser.”
Mesmo que não se acredite “o único acontecimento interessante na vida é um milagre ou a tentativa falhada de fazer um milagre”, talvez esta última parte mais do que a outra. E não sei se estará bem hoje em dia, com tanta imbecilidade, mas a tentativa da mediação nunca deve ser menosprezada “não queremos ficar pendurados apenas pelas unhas roídas dos dedos numa extremidade das coisas.”
Caindo em muitos erros no que se escreve sobre livros e no que se deve ter de distanciamento, devo dizer que a entrevistada não padece de loucura temporária e tem até a razão ratificada, no passado e sempre, quando responde “acho que devia haver sempre pessoas independentes que…estivessem empenhadas em cortar mais umas quantas cabeças (da hidra), em tentar destruir alucinações, falsidades e demagogias – e em tornar as coisas mais complexas, pois há sempre uma tendência inevitável para as simplificar.”
Nem mais, e acrescentar que somos muito mais do que pensamos e muito menos do que nos julgamos.
Grande!
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Jonathan Cott
Susan Sontag – A Entrevista Completa da Rolling Stone
Quetzal 16,60€

