Afonso Cruz e uma história chinesa

CRÓNICA
| Rui Miguel Rocha

Logo no início ficamos a saber que esta história vem de uma proposta para um espectáculo de teatro e dança com base em duas histórias do Saramago “O Silêncio da Água” e “A Maior Flor do Mundo”.
E é de água e flor e peixe e também do amor dos contrários ou aparentemente distantes seres que aqui poeticamente se trata.
Uma história chinesa com bonitas ilustrações do autor, um menino com raízes e uma menina que levita, a flor e o peixe, mas também a ânsia da posse que pode transformar o possuído em algo diferente do que se desejava: a flor morre se arrancada e o peixe não sobrevive fora da água.
“A montanha do dia seguinte é sempre maior do que a montanha do dia anterior”. Vamos aspirar ao silêncio, ser leves, transitar devagar. Vamos chegar ao lugar dos outros? Tenho pensado muito no que fazemos com as flores e aqui está a súmula pronta: “se arrancarmos uma flor, diz a serpente, e a pusermos numa jarra, não somos donos dela, mas do seu cadáver”.
Andei à procura de coisas chinesas e deparei com este livro nunca pensando que aqui estivessem coisas chinesas. Mas estão. E as coisas chinesas são iguais às nossas coisas, como tinha de ser.
A aranha sabe que há um lugar onde “todos estamos presos e onde todos estamos livres” e esse lugar é onde vivemos. Não há muito a fazer a não ser lutar contra a imbecilidade “a derrota é a natureza da guerra”, a derrota é não lutar para que a guerra não exista.
Vertical e horizontal, espaço e tempo, serão dimensões diminuídas? Para onde vamos no nosso caminho? E qual caminho? A árvore ou o peixe ou nós? Tudo o que nos interessa foge ao ruído, as sílabas do silêncio, “estar com o seu corpo num lugar onde as palavras ainda não tenham criado o ruído.”
Pescar, colher, ser alguém que quer ir em frente mas que se debate com um muro de onde só se pode sair com ajuda. Havia um velhinho poeta em Espinho que traduzia pacientemente Li Po. Esse senhor chamava-se Edgar e era muito melhor do que nós todos juntos. É difícil isto de viver. É tão complexo que, por vezes, só nos deixamos estar e isso não chega: “uma casa só está completa quando regressamos a ela”.
Pode não ser verdade.
Podemos ter de lutar.
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Afonso Cruz
A Flor e o Peixe
Companhia das Letras  16,65€

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