Eduardo Galeano em memória dos oprimidos e dos que não têm voz

CRÓNICA
| Rui Miguel Rocha
Este livro é um empreendimento e um grito de socorro, de alerta e de indignação. A História é quase Universal porque os pequenos textos que a compõem foram escritos em memória dos oprimidos e dos que não têm voz, mas para destacar os oprimidos, Galeano também tem de dar referência aos opressores. Nem sempre no mesmo tom, diga-se, há um viés ideológico que não deixa condenar muitos seres condenáveis. Um passeio pela humanidade, mas também, e principalmente, pela desumanidade. Podia assumir o título do seu colega do outro lado do Rio de la Plata “A História Universal da Infâmia”.
Desde a primeira flecha e a fundação do fogo até Chernobyl e à queda do muro de Berlim; das pinturas rupestres e da invenção da escrita a Franco e aos males da América do Sul; o narrador fala-nos dos opressores e oprimidos, exploradores e explorados, norte contra sul. É certo que é mais agreste com uns ditadores do que com outros, mas já se sabe que quem escreve a História também ondula a História, sempre se soube, normalmente são os vencedores que a escrevem, Galeano tentou que desta vez fossem os vencidos a fazê-lo.
Mas é também uma história do machismo e de como foram tratadas as mulheres mexicanas, egípcias, hebreias, indianas, chinesas, romanas e gregas. Só as Amazonas se safaram do sexo masculino matando à nascença. A fundação do inferno “E a Igreja verificou que a ameaça do Inferno é mais eficaz do que a promessa do Céu.” E ainda Xerazade “Foi do medo de morrer que nasceu a mestria de narrar”, a Inquisição “Nos tribunais da Santa Inquisição, banhar-se com frequência era prova de heresia de Maomé”, os mapas “Os mapas árabes ainda desenham o sul em cima e o norte em baixo, mas já no século XIII a Europa restabelecera a ordem natural do universo”.
As várias formas do diabo visto pelos cristãos: muçulmano, judeu, negro, mulher, pobre, estrangeiro, cigano, homossexual, índio. Claro que as outras religiões têm também os seus diabos de estimação. Os sonhos traídos dos homens, a sua ambição desmedida, mas há também o outro lado “os que fazem seda da baba de um verme”, “os que dão novas músicas às vozes do mundo” e “os únicos que riem”. Nem tudo é mau.
Pois não?
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Eduardo Galeano
Espelhos – Uma História Quase Universal
Antígona 20€

