Carla Pais: “O coração dos homens esconde toda a poesia da humanidade”

Carla Pais recebeu o Prémio Leya 2025 com o seu romance A Sombra das Árvores no Inverno. O Júri, presidido pelo escritor Manuel Alegre, atribuiu a distinção por unanimidade e afirmou que «com grande elegância de escrita, a autora traz, ao curso do enredo e ao trajeto íntimo e social das personagens, situações problemáticas e convulsas de candente actualidade na Europa, sobretudo decorrentes da imigração oriunda de África e do Próximo Oriente – e oscilantes entre a integração e a rejeição». E sublinhou que o romance percorre «a dor da perda e o amor, memória e esquecimento, luto e revivescência, solidão e aconchego familiar, bem como numa dicção cativante da relação poética de cada ser humano com o mundo e consigo mesmo, à procura do seu lugar na vida.»
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P-Como recebeu o Prémio Leya 2025 por este seu romance A Sombra das Árvores no Inverno?
R-Com muita emoção, pois foi um reconhecimento maior do meu trabalho e da minha obra.
P-O que representa, no contexto da sua obra literária, este livro?
R-Uma continuação daquilo em que acredito: que o coração dos homens esconde toda a poesia da humanidade. É de lá que trago toda a matéria para os meus livros, este não foi diferente.
P-Qual a ideia que esteve na origem deste romance?
R- Não foi uma ideia, foi uma realidade que observei: os refugiados confundidos com terroristas, a leviandade com que as duas palavras se misturavam num discurso generalizado. Como o medo coletivo podia levar à desumanização do outro. Este livro foi uma tentativa de voltar a humanizar aquelas pessoas que deixámos de ver como pessoas. Sendo a língua a única arma que tinha ao meu alcance, foi a que utilizei para dar um palco, um nome e uma vida àquelas pessoas que eram tão vítimas quanto nós.
P-No romance cruzam-se as histórias de duas famílias envoltas em temas inquietantes e muito actuais como a imigração ou o fanatismo. Viver em França condicionou o seu olhar sobre a realidade tão dura e complexa que descreve?
R- Viver em França permitiu-me, rapidamente, tomar consciência de uma realidade mais ampla, porque a questão não era apenas francesa, era europeia. Não se tratava de um problema político ou social inerentes à França, na verdade, tratava-se de uma falha coletiva do projeto europeu, pelo qual cada um de nós é responsável enquanto cidadão.
P-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Um novo romance. Mas parece-me prematuro falar dele.
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Carla Pais
A Sombra das Árvores no Inverno
Leya 16,60€
Carla Pais na “Novos Livros” | Entrevistas

