Escavar o mesmo buraco

CRÓNICA
| Rui Miguel Rocha

Achei a entrevista um pouco afectada intelectualmente, tanto da parte da entrevistada, como da parte do entrevistador. Muito francesa na forma de pensar a literatura, Ernaux diz ter acabado com o romance, apesar de se mostrar dogmática na descrição minuciosa da sua literatura. Alguma contradição, o que considero normal em quem escreve, embora eu duvide que a escritora o admita.
A luta entre os Dominados de onde veio e os Dominantes onde agora se insere domina uma parte importante da entrevista. É e foi uma mulher em conflito com o passado, as suas origens humildes, face à erudição que lhe conferiram os estudos e o uso do conhecimento adquirido.
Apesar de criticar frequentemente os que falam da escrita como uma espécie de maldição aliada ao sofrimento físico e psicológico, Ernaux acaba por desabafar ser também uma escritora afectada por esses demónios “Entre a formulação de uma resposta e o que se vai escrever estende-se um espaço angustiante, por vezes ameaçador.”
Outro lugar comum da literatura, embora nem sempre detectável estando quase sempre lá, é o tema de não podermos fugir de quem somos. Mais ainda quando escrevemos com sangue, memória ou mesmo facas “Nos meus textos, tenho a sensação de estar sempre a escavar o mesmo buraco”, escrever como sonhar ou esgaravatar na fenda profunda que somos, ou melhor, que usamos cá dentro.
Ernaux escreve sobre o real, alternando-se a ela mesma como acção e personagem, com o que ela confere ser a voz dos outros, apesar de reiterar não querer que se codifiquem os seus livros como romance. Parece-me um pouco académico, aliás, a entrevista resvala não poucas vezes para futuras cátedras e estudos sobre a construção dos textos, numa espécie de paleontologia que se denomina escrita genética. Se já se está com isto na cabeça durante o processo de escrita, não se tornará artificioso o que se escreve? E isso será bom? Pode ser (mais pontos de vista, o interior verdadeiro ou falso da escritora) ou não (artificialismos, jogos mentais).
Muitas críticas aos críticos homens, o que não é novidade, principalmente em França, um meio literário dominado pelo masculino ou pela suposta masculinidade intelectual, invenção do próprio género que a defende e por isso perversa.
Rejeita lugares comuns na literatura insistindo não pertencer a sua escrita a tudo o que é englobado pelo romance. Prefere o real transubstanciado na cabeça e na vida das pessoas, nem que seja como forma de transgressão ou revolta “fazer com que a minha escrita contribua para subverter visões do mundo dominantes.”
Uma das conclusões finais acaba por resumir o que qualquer escritor, com romances ou sem romances, anseia fazer: “continuo a escrever com a mesma intenção – o desvendamento da realidade.”
Sabendo nós que a realidade se dissimula e mascara e oculta com o intuito velhaco de iludir o ser humano que escreve.
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Annie Ernaux
A Escrita como uma Faca (entrevista com Frédéric-Yves Jeannet)
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