José Milhazes | Do Porto ao Gulag

1-Qual a ideia que esteve na origem deste seu livro «Do Porto ao Gulag»?
R-A ideia é a mesma de livros meus anteriores: chamar a atenção para a vida e obra de portugueses que deixaram rasto importante na Rússia. A António Vieira e seus descendentes dediquei o livro “O Favorito português de Pedro o Grande” e agora chegou a vez da família Velho, de que fazem parte figuras notáveis da História da Rússia. Ao mesmo tempo, aproveito a possibilidade para transmitir aos nossos leitores o ambiente em que as minhas personagens viviam, que país era a Rússia/URSS. Além do mais, como vivi e trabalhei muitos anos no estrangeiro, tenho sempre presente uma conhecida frase de Fernando Pessoa: “O povo português é, essencialmente, cosmopolita. Nunca um verdadeiro português foi português: foi sempre tudo”.

2-Quem é José Pedro Celestino Velho e que papel desempenhou nas relações entre o Porto e a Rússia?
R-José Pedro Celestino Velho foi um portuense que partiu da Cidade Invicta para representar a Real Companhia Velha no Império Russo e, ao mesmo tempo, ocupou o cargo de primeiro cônsul de Portugal em São Petersburgo. Fez muito para que o Vinho do Porto se impusesse nesse longínquo país como um néctar de alta qualidade. Um homem muito competente, mas mal aproveitado pelas autoridades portuguesas, daí ter preferido passar a ser banqueiro do Czar Paulo I, trabalho que lhe valeu o título de barão. A partir daí, criou raízes na Rússia. A propósito, José Velho foi um dos poucos estrangeiros que estudou russo, pois muitos preferiam o francês. Esta mais-valia foi também muito importante para ele e a sua família, permitiu-lhe viajar pelo Império Russo. Mas o meu livro não é só sobre os Velho, mas também sobre a história do Vinho do Porto na Rússia, a sua presença nas obras literárias clássicas russas, que muitos portugueses conhecem mas não prestam atenção a pormenores ligados a esse vinho ou ao Vinho da Madeira. A este último já dediquei um livro: “O Vinho da Madeira na Corte dos Czares”.

3-O seu livro sublinha a importância que teve esta família no Porto: porque será desconhecida ou, pelo menos, pouco conhecida?
R-A José Velho foram dedicados alguns artigos ou pequenos apontamentos em livros. Destaco a obra de Rómulo de Carvalho “Relações entre Portugal e a Rússia no século XVIII” ou artigos do historiador Victor Sá. Quanto ao pouco conhecimento, pode dever-se ao facto das relações luso-russas em geral estarem ainda pouco estudadas. É um amplo e interessante campo de investigação, mas exige conhecimento da língua russa e acesso aos arquivos russos, o que não é fácil. Eu tenho dedicado grande parte da vida a estudar este tema curioso e cheio de peripécias, mas há ainda muito por fazer. Além disso, se são feitos estudos académicos sobre esta ou aquela personagem, este ou aquele acontecimento, eles dificilmente chegam ao leitor comum.
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José Milhazes
Do Porto ao Gulag
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José Milhazes na “Novos Livros” | Entrevistas