José Viale Moutinho | Histórias de Camilo

1 – Qual a ideia que esteve na origem desta antologia de histórias de Camilo Castelo Branco: «Histórias do Meu Tempo»?

R-Histórias do meu tempo é um título engendrado por Camilo para um livro que nunca chegou a escrever, quanto mais a publicar. Refere-o numa carta a Vieira de Castro, chegando mesmo a afirmar que a obra já gemia nos prelos! Mas esse entusiasmo que depois abrandava totalmente era frequente em Camilo. Por outro lado, o Circulo de Leitores editou-me, em dois grossos volumes, uma recolha completa de ficções curtas, acabados e inacabadas, de Camilo para absorver aqueles leitores que, na voragem do tempo, não estão encorajados para romances longos, por muito sedutores que estes lhe pareçam. Destinava-se essa obra, que integrava uma Camiliana, onde um volume foi dedicado a uma antologia de cartas e ainda outro a uma antologia de artigos e textos polémicos. Esta obra destinava-se ao mercado específico do Círculo. Passados uns dois ou três anos, a Debates, que integra também o grupo editorial Bertrand, entendeu que deveria retrabalhar os dois volumes realizados para um só tomo com o essencial. Daí procedi a uma ronda pela obra de Camilo Castelo Branco, centrando-me não numa recolha mas numa antologia, deixando de parte, por exemplo, o inacabado (entre os quais figurava a célebre novela A Infanta Capelista, cuja primeira edição para o mercado livreiro eu já preparara nos anos 70), em busca de pequenos romances, tantas vezes saídos em um ou meia dúzia de folhetins de jornais, contos, novelas, sempre de curta dimensão. Suponho que constitui agora o que reputo de antologia exemplar dos textos camilianos ficcionais de curta extensão.

2 – A escrita de Camilo Castelo Branco continua actual mais de 120 anos após a sua morte?

R-Obviamente que sim e por razões fundamentais. Trata-se de um documento de época, de uma expressão portuguesa exemplarmente vernácula. Camilo é um extraordinário efabulador, bebeu nos clássicos por prazer, soube manejar documentação e, se quiser, no caso do Amor de Perdição, arrancar uma novela a partir de um registo de prisão do tio Simão e da tradição familiar! Camilo é um dos raros génios da nossa Cultura. E não quero referir que Fernando Pessoa, na explosão da modernidade da sua heteronímia, não dispensava um retrato de época de Camilo na sua mesa de trabalho! Significa alguma coisa, hem? Por outro lado, depois da travessia do deserto, estamos em plena época de reedições, muitas vezes criticas e outras tantas de mera divulgação, da obra camiliana. Gostaria mesmo de referir a edição da poesuia Completa de Camilo pelo ensaísta Ernesto Rodrigues e os sucessivos colóquios camilianistas do Centro de Estudos Camilianos e de núcleos universitários.

3 – Quais foram os principais critérios que presidiram à selecção das histórias que compõem esta antologia?

R-Presumo que consegui mostrar uma das arcas do tesouro camiliano aos leitores deste tempo, aproveitando a boleia singular de um título que lhe correspondia à vontade de fazer um livro. Possivelmente assim. Ele bem dizia que os estudiosos da coisa literária se viriam a preocupar com os seus dotes de artista. O que corresponde, convenhamos.
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José Viale Moutinho (org.)
Camilo Castelo Branco/Histórias do Meu Tempo-Uma Antologia
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