Manuela Gonzaga: “Menos do que tudo é pouco.”

Manuela Gonzaga acaba de editar o romance Jardins Secretos de Lisboa, mais um volume na sua já vasta obra publicada. Nasceu no Porto e é escritora, historiadora e poeta. Entre os seus livros mais marcantes, destacam-se António Variações – Entre Braga e Nova Iorque, Imperatriz Isabel de Portugal, Doida Não e Não! – Maria Adelaide Coelho da Cunha e Aqualtune – A Princesa do Kongo.
Escritora plurifacetada, Manuela Gonzaga foi galardoada com o Prémio Femina/Matriz Portuguesa 2020. Durante cerca de 30 anos foi jornalista em África e em Portugal.
Actualmente, dedica-se inteiramente à escrita e à investigação.
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O que é para si a felicidade absoluta?
Tem dias. E muitos limites. Há demasiado sofrimento no mundo para que essa dor não nos atinja também. Portanto, excluo “absoluta”. Apertando a lente, talvez a felicidade “absoluta” seja, justamente, não precisar de a definir. Momentos preciosos com quem amamos e nos ama. Um jardim-pomar, cães e gatos por perto, e os amores sempre, nem que seja apenas à distância de uma vídeo chamada. Mas também silêncio, livros, para ler e para escrever, boas conversas, refeições partilhadas, e a sensação de ser inteira no sítio e no momento onde estou.
Qual considera ser o seu maior feito?
Ter gerado e criado quatro filhos maravilhosos, por vezes com muito pouco apoio — e sempre, sempre a trabalhar intensamente. Mas com pilares essenciais como o jornalismo que foi durante anos a minha paixão, a minha escola de mundo e de letras e generosa fonte de sobrevivência. Até a escrita se ter tornado o destino que sempre desejei: e já vão 15 livros dados ao prelo!
Qual a sua maior extravagância?
Ser livre.
Que palavra ou frase mais utiliza?
Não sei.
Qual o traço principal do seu carácter?
A independência. Mesmo quando parece doçura e busca conciliação, há sempre uma coluna vertebral de aço.
O seu pior defeito?
Tenho muitos, mas destaco a impaciência, mãe de intransigências e outras derivas nada recomendáveis. Ainda é dificil domá-la, sobretudo perante a estupidez arrogante e a maldade gratuita. Tenho vindo a trabalhar bastante este defeito e já consegui encolhê-lo bastante.
Qual a sua maior mágoa?
Algumas perdas irreparáveis. E certas formas de injustiça que, por mais tempo que passe, continuam a doer no mesmo lugar.
Qual o seu maior sonho?
Continuar a escrever os livros que me chamam, até ao fim. E talvez chegar ao fim com a sensação de não ter traído a criança que fui e sou.
Qual o dia mais feliz da sua vida?
Não sei escolher um só. Houve — há — dias de nascimento, dias de chegada, dias de libertação. Dias de completude. Tempos de enamoramento luminoso. Na minha vida, a felicidade raramente entrou com fanfarra; muitas vezes chegou e chega em silêncio e luz.
Qual a sua máxima preferida?
Menos do que tudo é pouco.
Onde (e como) gostaria de viver?
Onde já vivo. Entre Lisboa e o Alentejo, entre a pedra e a árvore, entre a cidade-memória e o campo que nos devolve à nossa essencialidade. Com livros, animais, silêncios e música, risos e conversas, e uma porta que se abre apenas a quem não rouba paz.
Qual a sua cor preferida?
Não tenho uma só. Da paleta muito incompleta a que temos acesso, gosto das cores quando estão vivas: o verde das árvores, o dourado do fim da tarde, o azul profundo de certos céus, a cor da terra molhada. O branco das paredes caiadas. E as manchas policromadas das flores de preferência com abelhas à volta que é sempre muito bom sinal. Para elas, flores. E para elas, abelhas.
Qual a sua flor preferida?
Não tenho uma flor preferida. Gosto das flores quando aparecem no seu lugar: as silvestres nos campos, as rosas nos jardins, as flores inesperadas nas bermas dos caminhos. Neste momento tenho as roseiras esplendorosamente floridas num muro perto da oliveira, a disputarem território ao jasmim que está fulgurante mas é muitíssimo atrevido.
O animal que mais simpatia lhe merece?
Eu amo animais. E com o tempo, cada vez sinto mais amor e respeito por eles. Não apenas por aqueles que nos são imediatamente mais próximos, como cães e gatos. Mas também por outras impensáveis criaturas, sublimes expressões de vida, tão importantes para elas próprias. No jardim tenho um lavatório antigo, com a taça sempre com água e tampinhas de plástico ou rolhas a boiarem. Para que abelhas, vespas e outros insectos não se afoguem.
Que compositores prefere?
Bach, Mozart, Beethoven, Vivaldi, Chopin. Adoro particularmente as várias expressões musicais barrocas, que não se esgotam num dois ou três nomes. Mas “preferir” é abrir um leque muito vasto onde cabe também e com toda a legitimidade a chamada música popular! Ah: amo fado.
Pintores de eleição?
Assim de repente, e em lista reduzidíssima: Rembrandt, Van Gogh, Chagall, Frida Kahlo, Paula Rego, José Ralha. E todos os que sabem que a luz também pode ser sombra.
Quais são os seus escritores favoritos?
Começo por alguns dos que me abriram mundos: Selma Lagerlöf, Hans Christian Andersen, os irmãos Grimm, Condessa de Ségur, Virgínia de Castro e Almeida, Saint Exupery. Mais tarde vieram Dostoievski, Emile Zola, Dickens, Tolstoi, Virginia Woolf, Marguerite Yourcenar, Eça, Camilo, Saramago, Clarice Lispector, o grande Mestre Aquilino Ribeiro… e tantos mais. Sinto-me desconfortável por não os evocar devidamente. Mas se o fizesse nunca mais saíamos daqui. Os amores literários, felizmente, não são monogâmicos. E nem evoco os da minha área – História – porque são tantos.
Quais os poetas da sua eleição?
Outra vez a redução a meia dúzia de nomes fisgados a eito num tão vasto mar de vozes… Mas pronto: do poço sem fundo da minha gratidão, saltam agora Camões, Pessoa, Sophia, Eugénio de Andrade, Herberto Helder, Florbela Espanca Al Berto, Rilke, Lorca, Rimbaud e tantos mais. Todos os que fazem da palavra uma lâmina e uma asa.
O que mais aprecia nos seus amigos?
A lealdade, o humor, a inteligência, a bondade de coração e a capacidade de respeitarem o meu silêncio sem deixarem de gostar de mim.
Quais são os seus heróis?
Os que protegem os mais frágeis. Os que não se vendem. Os que resistem sem espectáculo e defendem o que é justo só porque sim. Acima de tudo, as infinitas e ignoradas mulheres que atravessam vidas duríssimas sem perder a dignidade nem a força tremenda que vem ancorada no amor.
Quais são os seus heróis predilectos na ficção?
Não tenho o culto dos heróis. Mas há figuras que tocam mais fundo. Registo duas. Dom Quixote, pela loucura luminosa. Antígona, pela fidelidade ao que está acima da lei dos homens. Aproveitando a frincha ainda aberta, evoco o maravilhoso Fernão Mendes Pinto, que não sendo da ficção foi remetido para essa área por escárnio e descrédito. Só porque tinha o defeito de ser Português. Imperdoável aos olhos dos próprios portugueses, tão rancorosos e renitentes em admirar o que é nosso.
Qual a sua personagem histórica favorita?
Isabel de Portugal, filha preferida do rei D. Manuel I que, por casamento, veio a tornar-se imperatriz do vastíssimo Sacro Império. É uma figura dura, intransigente, com um sentido de Estado que se entrelaça na sacralização do ceptro. Ao mesmo tempo, é alguém de uma coerência exemplar. Admiro a sua inteligência política, a dignidade com que enfrentou a solidão do poder — que aceitou muito mais como jugo do que como privilégio —, dadas as frequentes ausências do marido, o imperador Carlos V. A sua morte foi exemplar. Com as devidas ressalvas, mergulhei bastante na sua vida pretérita. Biografei-a, quero dizer. E não, não seriamos amigas!! Eu demasiado abaixo do seu ranking, ela demasiado exterior ao meu eixo.
E qual é a sua personagem favorita na vida real?
As pessoas que, sem palco nem alarde, fazem o bem. As que cuidam, resistem, amam, protegem e continuam. Tenho conhecido algumas. São inesquecíveis.
Que qualidade(s) mais aprecia num homem?
A inteligência sem arrogância, a ternura sem fraqueza, a coragem sem brutalidade.
E numa mulher?
A liberdade interior. E aquela força misteriosa e sublime que permite cuidar sem se apagar mas também sem fazer alarde disso.
Que dom da natureza gostaria de possuir?
Voar. Ou melhor: conseguir entender e falar a linguagem dos pássaros.
Quais as falhas para que tem maior indulgência?
As que nascem da fragilidade, do medo, da confusão ou do excesso de amor. Para a maldade calculada, exercida em diversas formas e graus, não tenho complacência.
Qual é para si a maior virtude?
A coragem. Não a coragem ruidosa, que por vezes é mais bravata, mas a de permanecer fiel ao que se é.
Como gostaria de morrer?
Acordada e lúcida. De preferência sem dores.
Se pudesse escolher como regressar, quem gostaria de ser?
Não tenho acesso a todos os vectores envolvidos em tal processo para poder sequer imaginar um retorno dessa natureza. E talvez ainda bem: há mistérios que não devem ser reduzidos a desejo.
Qual é o seu lema de vida?
Procurar eternidade no beijo de pequenos instantes.
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Manuela Gonzaga na “Novos Livros” | Entrevistas

