Manuela Gonzaga: “O romance onde Lisboa surge de forma mais intensa como personagem viva”

1-O que representa, no contexto da sua obra literária, o livro “Jardins Secretos de Lisboa”?
R-“Jardins Secretos de Lisboa” ocupa um lugar muito especial na minha obra. É talvez o romance onde Lisboa surge de forma mais intensa como personagem viva — não apenas cenário, mas corpo de memória, desejo, sombra, revelação e perda. Nele cruzam-se algumas das linhas que atravessam o meu trabalho: a História, a condição feminina, os labirintos afectivos, a cidade enquanto espaço visível e invisível, e essa procura constante do que se oculta por baixo das aparências. E também a omnipresença africana, não apenas geográfica, mas habitada, que irrompe em todos os meus livros. É também um livro de maturidade emocional e literária, no sentido em que não procura simplificar a experiência humana. O amor, neste romance, não redime nem ordena: irrompe. E, ao irromper, ilumina zonas muito secretas das personagens e da própria cidade.

2-Qual a ideia que esteve na origem do romance?
R-A ideia nasceu de uma conversa com um amigo meu, fotógrafo, o querido João Bafo, que me falou de “jardins secretos” que tinham existido em Lisboa. Ele chegara mesmo a conhecer o dono de um desses “paraísos”: uma pessoa extremamente culta, detentora de uma fortuna razoável, que fotografava nus. Não para expor. Não para mostrar, a não ser a raras pessoas. A sua actividade pública era outra: os negócios. O João tinha lido recentemente o primeiro livro que publiquei, A Morte da Avó Cega, um volume de contos actualmente esgotadíssimo. Disse-me que tinha gostado imenso, mas achava que eu tinha fôlego para o romance. E deu-me esse exemplo. Disse-me o nome do tal senhor e apontou até a porta do estúdio. Estávamos perto da Brasileira do Chiado. Ouvi-o, fascinada. Depois, fui para casa — vivia muito perto — e, mal cheguei, sentei-me ao computador e comecei de rajada o primeiro capítulo. Foi então que surgiu o “Senhor da Senhora, o pai da menina, o dono das lojas”, nas escadas de ferro das traseiras, a fotografar Amália, a empregada, suada e despenteada, enquanto pendurava roupa na corda. A cena passa-se no pequeno jardim com lago de peixinhos encarnados, nas traseiras da casa da Rua do Salitre. Quando dei por mim, tinha um capítulo inteiro e estava a mergulhar numa Lisboa escondida, subterrânea, íntima — uma Lisboa que existe para lá dos roteiros, dos monumentos e da imagem turística. Interessavam-me os lugares de passagem, os jardins ocultos, as casas fechadas, os quartos, os segredos, as zonas de sombra onde as vidas se revelam de forma mais verdadeira. E então percebi que, mais do que um romance erótico repassado de paixões, ocultas ou a céu aberto, estava no território esquivo dos encontros e desencontros, da memória que uma cidade guarda nos seus muros e nos seus corpos, e de personagens atravessadas pelo desejo, pela culpa, pela liberdade e pela procura de si mesmas. Lisboa foi, desde o início, mais do que um espaço: foi uma espécie de organismo sensível, capaz de guardar e devolver aquilo que as personagens tentavam esconder.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R-Estou a trabalhar em vários projectos, em fases diferentes. Um deles é a continuação do romance histórico Aqualtune, a Princesa do Kongo (Bertrand, 2023), dedicado a uma figura maior da história afro-atlântica. Este novo volume permite-me cruzar a história do Reino do Kongo com a do Brasil colonial, sem esquecer a história de Portugal e, de forma alargada, a de outros países europeus profundamente envolvidos no tráfico transatlântico de pessoas escravizadas. O romance assinala o culminar da saga de Aqualtune, agora Rainha dos Palmares, evidenciando os cem anos de resistência quilombola. Tenho também outros textos em desenvolvimento, alguns ainda em fase muito reservada, onde continuo a explorar temas que atravessam a minha obra: a memória, a História, a liberdade, a condição humana, os territórios invisíveis da consciência e essa matéria incandescente e sempre imperfeita a que chamamos vida.
__________
Manuela Gonzaga
Jardins Secretos de Lisboa
Gradiva  20€

Manuela Gonzaga na “Novos Livros” | Entrevistas

COMPRAR O LIVRO