Onofre dos Santos: Vida e morte de Raul Morales

1-Qual a ideia que esteve na origem deste seu livro «Vida e Morte do Comandante Raul Morales»?
R- A dualidade que todos somos, temos um lado esquerdo e um lado direito que são diferentes mas que não podem viver um sem o outro. Cada um desses lados tem uma afinidade diferente quando se relaciona com outras pessoas por muito diferentes que pareçam ser sobretudo quando o nosso lado que domina é diferente daquele que se procura libertar. O Raul Morales da minha história é o oposto do narrador Octávio e a improbabilidade da sua amizade, reforçada por estarem em campos opostos na guerra civil de 1975 em Angola, é a linha que vai cerzindo os dois personagens até à sua fictícia fusão num final que pode ser surpreendente.

2-Quem é este Raul Morales e como se cruzou na sua vida?
R- O escritor é sempre um embusteiro e eu, na senda de o querer ser, confesso que o não sou nem mais nem menos. Raul Morales, apesar do que é expressamente dito pelo narrador, existe tanto na vida real como o seu autor já que eu não me confundo com Octávio, um personagem recorrente nas minhas histórias – em Don Juan do Beiral que também aparece na segunda parte do livro, como também no meu Conto da Sereia (2013). A impostura ganha foros de credulidade na medida em que o narrador assume factos próprios da vida do autor. Também esta colagem induz a conclusão de que os factos narrados têm alguma correspondência com a realidade. Embora admitindo o logro, não foi minha intenção escrever história e muito menos um acontecimento real mas contar uma história de uma maneira capaz de interessar uma grande variedade de leitores o que em muitos irá produzir talvez uma indesejável  sensação  de insatisfação. Tenho, porém, a certeza de que a  maioria dos leitores deste Raul Morales vão ter um verdadeiro prazer em conhecê-lo e ficar felizes por ele sobreviver no final embora á minha custa.

3-Este parece ser um livro difícil de classificar: ficção, memórias, biografia ou uma mistura de tudo isto?
R- Ficção certamente, mas como toda a ficção transportando o anseio de ter sido real e portanto um pouco de memória ou até de biografia. Mas fica muito aquém de tudo isso como uma pequena história que, quanto a mim, apenas merece ser lida pela forma como é contada. É um livro para ler de rajada e se deixar na mente de quem o ler o desejo de voltar à primeira página terá conseguido atingir o seu objectivo. Quem deseja revelações ou um mexerico da história de Angola sai certamente desiludido porque, seriamente, os factos contados ultrapassam e muito a realidade que eu vivi no Ambriz e no Huambo e na fuga desordenada em direcção á fronteira sul com o Namibe. Que eu conto no meu diário de Os Meus Dias da Independência (última edição da Guerra & Paz, de 2019).
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Onofre dos Santos
Vida e Morte do Capitão Raul Morales
Guerra e Paz  14€

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