Ensaio

“O problema é que a política se tornou ininteligível para nós”

Daniel Innerarity é um dos mais importantes pensadores da actualidade. No momento em que lança o seu mais recente livro em Portugal, defende que vivemos numa situação ambígua “da qual só sairemos positivamente se reconquistarmos a soberania de pensarmos por nós mesmos em vez de falar como ventríloquos”.
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P- O que é a “democracia complexa” que propõe como base da sua reflexão sobre a sociedade actual?
R- É uma teoria que venho trabalhando há cerca de vinte anos e que tenta adaptar os conceitos centrais da democracia, que foram pensados há duzentos ou trezentos anos (representação, poder, estado…) às condições da contemporaneidade. mundo, tomando como referência alguns paradigmas que as ciências da complexidade desenvolveram nos últimos anos e que as ciências humanas e sociais quase não incorporaram.

P- A pandemia croiou uma nova situação da qual não haverá retorno ou estamos em situação de regressar à situação de 2019?
R- Esse tipo de pergunta só pode ser respondido com muitas nuances. O choque foi tão grande que dificilmente existe alguma área de nossa vida que ainda não tenha sido alterada. Ao mesmo tempo, notamos que nossos diagnósticos errados e nossa preguiça de realizar grandes transformações sociais às vezes são mais fortes do que nosso desejo de mudança.

P- Afirma: “Teremos de aprender a viver com menos certezas”. Os cidadãos estão preparados para isso?
R- Nem os cidadãos nem seus representantes, mas não temos escolha. Mas basta refletirmos um pouco para perceber que em parte já o fazemos. A maioria das decisões que tomamos, individual ou coletivamente, não é precedida por razões esmagadoras de uma compilação do máximo de informações possível ou uma análise de risco completa. De facto, pode-se afirmar que em grande parte as antigas distinções ideológicas já giram de fato em torno desse tipo de questões, configurando um novo antagonismo que confronta os temerários e temerosos, em torno daqueles que se preocupam mais com um risco do que com outro. Um liberal tem mais medo da burocracia ou da falta de criação de riqueza do que de sua distribuição desigual, o que muitas vezes é o que mais preocupa um socialista, que muitas vezes não parece muito interessado em ter uma teoria do crescimento económico. Ideologias hoje são diferentes valotizações do risco, diferentes medos.

P- Outra ideia sua: “governar é gerir a heterogeneidade”. Como conseguir isso num momento em que tudo parece conduzir a um comportamento em que a diferença e a pluralidade são combatidos?
R- Existe, ao mesmo tempo, uma grande valorização da pluralidade e ninguém quer que seja imposto um modo de pensar, mas, ao mesmo tempo, há grandes pressões para que nos adaptemos a quadros mentais que não pensámos por nós mesmos. É uma situação ambígua da qual só sairemos positivamente se reconquistarmos a soberania de pensar por nós mesmos em vez de falar como ventríloquos.

P-Como cidadãos, estamos condenados a ser meros espectadores do exercício do poder restando apenas votar de quatro em quatro anos?
R- Uma democracia não pode funcionar sem uma cidadania que entende e julga o que acontece. O problema é que a política se tornou ininteligível para nós, tanto para os representantes quanto para os representados. Isso explica a falta de estratégia de nossos políticos e as exigências às vezes enganosas que fazemos a eles.

P- Finalmente, o que caracteriza melhor o seu estado de espírito actual: a perplexidade? Ou a incerteza? Ou…?
R- Estou a tentar aprender a melhor forma de gerir a minha ignorância inevitável.
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Daniel Innerarity
Uma Teoria da Democracia Complexa
Ideias de Ler  18,80€
Web: www.danielinnerarity.es

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O tempo das verdade plurais acabou. Vivemos no tempo da mentira universal.
 Nunca se mentiu tanto. Vivemos na mentira, todos os dias.

JOSÉ SARAMAGO