João Ricardo Lopes | Prémio Nacional de Poesia

“Precisava de paz, de silêncio, de conforto, de harmonia, de sentido, de perdão”

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1-Como recebeu a notícia de que um livro seu era o vencedor, pela segunda vez, do Prémio Nacional de Poesia da Vila de Fânzeres?
R-Recebi a notícia com enorme alegria. Com orgulho. Este Prémio marcou o início da minha vida literária, em 2001, quando terminei o primeiro poemário (Além do Dia Hoje). Arrisco pensar e dizer que marcará o começo de uma nova fase, vinte e um anos depois. As experiências tornam-nos mais humildes e mais agudos, aclaram a nossa forma de olhar e de ver. Sinto-me muito distante do jovem poeta que venceu outrora. Recebê-lo em 2022 acarreta um significado mais ontológico, como se neste meu regresso a Fânzeres houvesse um regresso ao princípio, ou seja, a redescoberta do puro amor pela palavra escrita. Não posso deixar de sublinhar que o Prémio Nacional de Poesia da Vila de Fânzeres fez, também, uma belíssima caminhada ao longo das suas mais de três décadas de existência, agregando (entre os vencedores) nomes que merecem o nosso máximo respeito: alguns deles são estudados nas minhas aulas hoje.

2-Qual a ideia que esteve na base deste livro “Em Nome da Luz”?
R-Este ano de 2022 tem sido cruel para mim e para a minha família. Por circunstâncias várias temos reaprendido a viver, nomeadamente com a doença. O passo inaugural deste livro teve lugar no parque de estacionamento do IPO, no Porto, numa manhã de sol que deveria ser belíssima. Nasceu-me o poema “Tudo o que precisas é de manhãs tristes”, título que durante algum tempo foi o do volume. Em Nome da Luz, porém, afirmou-se pela mensagem que os poemas foram acrescentando, ao soldar-se uns aos outros. Nesse período, relativamente curto, em que o livro foi concluído (sete semanas), percebi que a luz estava permanentemente nos meus pensamentos, não só como metáfora poderosa (que é), como sobretudo pela presença física calmante que me deu, durante as viagens e nos bocados em que pude no maior silêncio vasculhar a minha vida toda. Precisava (preciso ainda) de paz, de silêncio, de conforto, de harmonia, de sentido, de perdão. Em Nome da Luz sintetiza isso mesmo, em cada um dos quarenta poemas que compõem o corpo do livro.

3-Este não é o seu primeiro livro: que percurso teve já a sua obra?
R-Escrevi, antes de Em Nome da Luz, seis livros de poesia, um de crónicas, outro de contos. Senti entre 2001 e 2005 um certo entusiasmo em relação aos meus poemas, em parte por ter sido incluído na antologia Anos 90 e Agora. Nesse período, traduziram alguns poemas meus para servo-croata, castelhano e francês. Em 2011, foi publicado um livro meu em edição bilingue (português e inglês). Contudo, esquivei-me a convites para participar em mesas redondas, deixei de participar em revistas e antologias, desapareci do meio. Vi como esse meio é impuro, permeável a caprichos e intrigas, como promove indiferentemente o bom e o mau. Estive em silêncio até 2018, quando publiquei o primeiro e único livro em edição de autor (O Moscardo e Outras Histórias). Julgo, sinceramente, que esses sete anos de silêncio foram duros, mas necessários. Em 2021, publiquei Eutrapelia, um poemário de que gosto muito e que mantém, julgo, imensas afinidades com Em Nome da Luz, nomeadamente o desejo de evasão, as viagens, a procura de autoconhecimento, o amor pela música, pelo cinema e pela pintura, a leitura de outros poetas, etc. Este último livro representa para mim um ponto de partida. Não podia desejar melhor, confesso.
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João Ricardo Lopes
Em Nome da Luz
[Prémio Nacional de Poesia da Vila de Fânzeres 2022]
Elefante Editores  10€

WEB www.joaoricardolopes.com

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Quando nós olhamos para o estado em que o mundo se encontra, damo-nos conta de que há milhares e milhares de seres humanos que fizeram da sua vida uma sistemática acção perniciosa contra o resto da humanidade. Nem é preciso dar-lhes nomes.

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