Prémio Literário UCCLA/2020


O Heterónimo de Pedra

P-Um primeiro livro (e logo vencedor do Prémio UCCLA 2020): com espera olhar para esta obra daqui a 20 anos?

R-Como a primeira, mas não a última.

P-Uma outra curiosidade: trata-se de um livro de contos que se destacou de vários romances: o conto é o seu género preferido ou foi um acaso?

R- Sim, o conto é o meu género preferido. Talvez esta preferência aconteça porque há uma ligação umbilical entre o que escrevo e o que desenho. O Heterónimo de Pedra não é só escrita, mas também desenho. O conto surge sempre como um esquisso em palavras… e quando desenho há sempre palavras, estórias, que norteiam o lápis.

 P-Qual foi a ideia que esteve na origem destas histórias feitas livro em O Heterónimo de Pedra?

R- Todos os contos têm origem numa viagem real. São gentes que conheci, que amei, encontros com o outro, com os espaços, com as diferenças, com as emoções, com os lugares, com os paladares. Conto e desenho surgiram sempre em simultâneo. Por vezes é a estória que impõe à mão, pegar num lápis e num papel… e nasce um esquisso. Outras vezes, como no conto “Julgamento, vida e morte”, é o desenho que impõe a escrita.

P-A sua experiência profissional e as vivências pessoais em vários continentes estão muito presentes no livro?

R-Apesar de escrever e de desenhar desde muito cedo foi o impacto de um tempo de vida profissional, ao serviço de organizações internacionais e da solidão que é ter o Mundo como casa, que me levou a organizar e a pensar em reunir os escritos e os desenhos que ia fazendo. O Livro é a geografia da minha peregrinação profissional e interior. Como qualquer peregrinação reflete dores, sofrimentos, angústias, mas, também, prazeres, felicidade e descoberta.

P-Quando surge um novo escritor, é natural a curiosidade não só sobre a obra em si mas sobre a pessoa: só escreve prosa ou já se aventurou por outros géneros: teatro, poesia?

R- A minha aventura tem sido só pelo conto. No entanto, O Heterónimo de Pedra tem poesia. Há momentos e personagens que se expressam através da poesia, como por exemplo Edmundo no conto “A inteireza”, ou na “A padaria do povo”. E há outros contos que são baladas como “E voltamos” ou “Os dois monólogos”.

P-Autores preferidos?

R- Tenho uma preferência grande pelos autores latino-americanos é caso de Mario Mendoza Zambrano, Borges, Juan Rulfo, Ruben Dario, Gabriela Mistral… Na literatura portuguesa, Herberto Hélder, Teixeira de Pascoaes, Vergílio Ferreira, o notável Equador de Sousa Tavares, ou o livro de Cardoso Pires, O Anjo Ancorado (genial aliás), Ruben A, ou M. Tavares. Depois Hugo Pratt, com essa obra que me fez “embutir” o desenho na escrita, A Fábula de Veneza, e tenho na mesa de cabeceira os Poemas Esotéricos de Fernando Pessoa. Mas há muitos mais. Tenho, aliás, que referir três livros importantíssimos na minha vida: Lua Falcão de Sam Shepard, que foi o Livro que me “chamou” para a escrita, A morte de Ivan Ilitch, Tolstoi, que me fez pensar no erro e na redenção e, os Cem Anos de Solidão, que é simplesmente a OBRA.

P-Fontes de inspiração principais?

R-As paisagens e as gentes, mas também o silêncio e a solidão.

P-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?

R-Uma distopia… que tem a ver com o momento epidémico que atravessamos e será um romance.

P- Finalmente: qual a obra (de outro autor) que gostaria de ter escrito?

R-Daqui a dez anos faça-me essa pergunta… se o tempo e o engenho me permitir continuar a escrever e a desenhar… sempre uma coisa embutida na outra.
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Henrique Castanheira
O Heterónimo de Pedra
Guerra e Paz  14,50€
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A esperança é a última a morrer. Diz-se. Mas não é verdade. A esperança não morre por si mesma. A esperança é morta. Não é um assassínio espectacular, não sai nos jornais. É um processo lento e silencioso que faz esmorecer os corações, envelhecer os olhos dos meninos e nos ensina a perder crença no futuro.

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